coffee is my boyfriend

Pegue um café e sente aqui. Vamos falar sobre a vida.

Cristina Souza

Escrevo porque respiro. Ou seria ao contrário? Vejo poesia em tudo, e tudo que eu faço coloco o coração no meio - e um gole de café, é claro.

Toda pessoa precisa de um diário

Registramos tudo online - da nossa cerveja gelada na noite de sexta até nosso entediante final de domingo largado no sofá. Tão rapidamente quanto curtimos, já esquecemos, curtimos outras coisas, esquecemos novamente. Como lembramos de todos esses momentos com o passar dos anos?


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Era madrugada e estavam todas ali, divididas por ano. Começavam em 2002, terminavam em 2012 – dez anos da minha própria história empoeiradas num canto do armário esquecidos na casa da mãe. Era madrugada e eu mal conseguia me conter, tamanha a euforia de estar só comigo mesma, um eu por vezes esquecido e até desconhecido, mas eternizados naquelas páginas amareladas que dividiam seu espaço com bilhetes de cinemas, papéis de balas, listas, figurinhas e trechos de alguma coisa que me cabia na época. Conforme meus dedos iam passando pelas páginas estáticas, as lembranças ficavam cada vez mais vivas.

Toda pessoa deveria ter diários, pilhas deles. Toda pessoa deveria poder sentar num quarto no meio da madrugada e ter contato com lembranças que estariam esquecidas. Contato com todas elas, até mesmo com as mais difíceis ou banais. Certas coisas a gente guarda na nossa própria gaveta empoeirada, mas vez em quando é bom abrir, arejar.

Em 2002 paguei dois reais num ingresso de cinema. Em 2002, uma tarde especial era brincar de Barbie, um saco de dia era aquele em que eu passava o dia inteiro fazendo nada e meu coração acelerava de ver um tal menino na hora do recreio. Em 2002 eu era uma criança virando adolescente, tinha meus anseios, medos e uma visão de mundo totalmente diferente do que tenho hoje, mas ao mesmo tempo possuo muito em mim daquela de quase treze anos atrás. Mas como eu saberia se não tivesse registrado?

Quantas pessoas passaram na minha vida e que hoje em dia mal me lembro. Quanta raiva e mágoa eu passei que foram esquecidas – ou tornaram-se menos importantes. Amores que vivi e que não vivi. Risadas por coisas que nem ao menos fazem sentido agora, mas que ainda assim me arrancaram sorrisos, porque são minhas, porque aquilo fui eu. Sou eu.

Nesses tempos onde tudo é efêmero, tudo é fugaz, como guardamos os papéis de balas amassados, os bilhetes de cinema especial, a nossa angústia incontida, o autógrafo descabeladamente conseguido, a sensação do beijo sorrateiramente roubado? Onde ficam nossas listas do que devemos fazer para depois rirmos de não ter feito quase nada? Nesse tempo digital, como faz para ver na letra borrada e torta toda a angústia das palavras ou a euforia dos momentos?

Estamos vivendo na era do aqui, do agora. Registramos tudo, mas com a mesma velocidade que exibimos o real time, ele se esvai, e ninguém mais lembra. A conta pode ser desativada. As postagens se perdem no meio das propagandas, avalanches de fotos e sushis (sempre ele) da moda. E depois, quando você sentar no seu antigo quarto no meio da madrugada, do que irá lembrar? Como irá lembrar?

Também sou da geração do touch: gosto de ter as coisas nas mãos para tocá-las, senti-las, ver sua textura, a cor desbotada, o cheiro quase nulo. Gosto de guardar minha pequena coleção de tesouros; talvez eles não fiquem bem com filtro ou não recebam nenhum like, talvez eu passe até mesmo anos sem me recordar deles, mas eles são fragmentos do que sou, fragmentos reais que me servem como pequenos lembretes quando eu penso que certas coisas não fazem sentido.

Toda pessoa deveria ter um diário. De papel. Não importa que você escreva uma frase nele ou conte todo seu dia, mas registre de alguma forma. Certas coisas são insubstituíveis.

Escrito por mim, publicado originalmente aqui.


Cristina Souza

Escrevo porque respiro. Ou seria ao contrário? Vejo poesia em tudo, e tudo que eu faço coloco o coração no meio - e um gole de café, é claro..
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