coffee is my boyfriend

Pegue um café e sente aqui. Vamos falar sobre a vida.

Cristina Souza

Escrevo porque respiro. Ou seria ao contrário? Vejo poesia em tudo, e tudo que eu faço coloco o coração no meio - e um gole de café, é claro.

Deixa o amor te tocar

Coração não tem ouvido. Na trilha sonora do amor, não é sobre tocar a música: É sobre ela te tocar. E uma vez que o som passa a fazer sentido, tudo se faz sentir.


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Mirava o Pôr do Sol num momento só. Enquanto olhava os tons mudando gradativamente do Sol que ia embora para mais um merecido descanso – ou melhor, para brilhar em outros mundos, afinal ele nunca descansa – ouvi gargalhadas. Risadas soltas ao vento, sem rumo, sem glamour, sem filtro.

Num segundo, reconheci: eram risadas de amor, daquelas que saem naturalmente, muitas vezes fruto de alguma piada boba e sem graça, ou até mesmo para quebrar o silêncio absoluto que reina quando um olhar cruza o outro. Sorri muda, no meu canto – como é lindo esse som que vem do amor, que não é representado em nota, não tem dó, si, fá mi, lá – é a perfeita combinação de tons que não podem ser representados, a mistura de uma gargalhada solta, um suspiro, o estalar da boca deixando a outra, o quase inaudível barulho de uma mão que afaga os cabelos.

Por um segundo pensei que o Sol talvez estivesse esquentado demais a minha cabeça (ou meu coração), afinal como eu saberia identificar um som de amor? Poderia só ser mais uma risada qualquer, um casal qualquer, mas não. No fundo eu sabia que aquele som que o vento trouxe até meus ouvidos ecoava de bocas apaixonadas.

Como uma boa espectadora atenta às cenas da vida, ouço risadas o tempo todo. Declarações por aí o tempo todo. Presencio abraços, afagos, amassos. Mas nem todos reproduzem efeitos sobre mim – alguns são tão frios e artificiais que parecem representados por atores de algum filme de baixo orçamento. Já outros são dignos de Oscar, parecem cena de filme francês premiado em Cannes.

Na trilha sonora da minha vida, escutei algumas vezes esse som. Me embalei em tardes amenas só com a respiração ofegante que saía da garganta, dancei por horas o ritmo descompassado do batuque de um coração bobo, acompanhado não por violão ou bateria, mas por risadas e silêncio. Há tanto som no silêncio. Há tanto som no amor. Mas emudeci: há tempos que ouvia música, muita música, mas nenhuma que me tocasse desse jeito. Cheguei a pensar que tinha perdido o ritmo, ou então que deixei de ser maestro para ser plateia, assistir – e se compadecer ao reconhecer uma real orquestra dos amantes – mas não ser capaz de reproduzir a minha própria. Ou teria ficado surda e deixado a banda passar, cantando coisas de amor, sem poder acompanhá-la?

Até que numa tarde aleatória, bem no meio da semana, quando eu usava uma roupa qualquer, eu soube. Foi preciso cruzar os olhos por apenas alguns segundos para que todo o barulho que se fazia – carros passando, chuva caindo, gente falando – ficasse mudo e fosse preenchido pela minha arritmia sem ritmo. Naquele dia, apertei o play sem querer, e mesmo sem saber o porquê, eu já sabia – era amor. Desafinado de forma elegante, me fazendo dançar sem saber, me fazendo chorar sem querer, rir sem perceber, me levando como o vento, o tempo todo, até você.

É assim que acontece. A gente reconhece, e mesmo quando tenta esquivar, coração não obedece. É trilha sem pause, é refrão pesado. A gente pode até tentar ficar parado, mas o melhor é dançar conforme a canção. Por mais que pareça dissonante, ouça: às vezes a gente até erra o tom, mas nessa tal coisa de coração, os timbres são diferentes. E se você está achando meio desafinado isso tudo que digo aqui, relaxa – a gente só vai saber ouvir quando esse barulho tão bonito acontecer dentro da gente.

Artigo escrito por mim, publicado originalmente aqui.

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Cristina Souza

Escrevo porque respiro. Ou seria ao contrário? Vejo poesia em tudo, e tudo que eu faço coloco o coração no meio - e um gole de café, é claro..
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