coffee is my boyfriend

Pegue um café e sente aqui. Vamos falar sobre a vida.

Cristina Souza

Escrevo porque respiro. Ou seria ao contrário? Vejo poesia em tudo, e tudo que eu faço coloco o coração no meio - e um gole de café, é claro.

DEVANEIOS SOBRE O TEMPO

Temos pressa, mas não temos tempo. Queremos o quando e esquecemos do agora. E se não existisse relógio, como seria seu tempo?


large (19).jpg

Acordei cedo, com o barulho da chuva forte. Ainda não são sete da manhã, escuto somente o farfalhar das folhas, que muda seu ritmo conforme a intensidade das gotas que caem. O som dos primeiros carros apressados para chegar (por que tanta pressa?) misturam-se com o som calmo do bairro pela manhã. A água ferve assim que eu dou a última tragada de meu tabaco, o café recém passado é um abraço na minha alma encolhida pelo clima chuvoso.

Já não está tão escuro no quarto. O café já passou, o tabaco já passou, as palavras que escrevo no papel vão surgindo letra por letra – sozinhas nada significam, junto uma a uma para dar sentido a alguma coisa que quero dizer. Daqui a pouco terminarei esse texto, que talvez seja lido por em alguém em algum lugar qualquer – de noite, antes de dormir, passando rapidamente a mão pelo feed de notícias da sua rede social; após o almoço, enquanto tenta diminuir a passagem do tempo para não pegar de novo na árdua labuta rotineira; daqui há um ano, ao fazer uma pesquisa qualquer na internet e sem querer vir parar aqui. Não há como saber quando será lido. Não há como saber o quando de nada.

A gente acha que pode saber. A gente tem pressa em saber. Tem pressa e não tem tempo. Aliás, nós não temos tempo: Temos relógios, que inventamos para essa falsa sensação de controle do tempo – assim podemos afirmar quando será o tal quando que tanto nos perturba. Alguém disse que o dia tem 24 horas, que meio-dia é hora de almoçar. Trabalhar deve ser feito umas oito horas desse total, outras oito deve-se dormir. Nas oito horas restantes, talvez você passe boa parte no trânsito, outra boa parte em filas, mais um pouco em tarefas rotineiras.

E enquanto isso o tempo vai passando. Mesmo se o seu relógio quebrar, ele vai passar. Talvez você planeje os quandos que te perturba tanto, mas pode ser que essa enorme bola azul que flutua no espaço receba a visita de um cometa que viaja anos-luz (que tempo é esse?) e a gente volte a ser poeira de estrelas. E se isso acontecer, quanto você terá aproveitado desse tempo que teima em controlar? Quanto terá escutado das vontades de gritam a sua alma toda vez que você a contraria para seguir a um lugar que não deseja estar? Quantas vontades de dizer terão ficado presas na sua garganta?

Enquanto reinvento meu próprio tempo – baseado no agora, que é tudo que tenho – vejo pessoas flutuando pelos dias, sem vivê-los, por almejar somente o quando. Há quem tenha desistido de um sonho por achar que é tarde demais. Há quem esqueça do dia de hoje por estar fissurado no que virá amanhã. Há quem pareça um zumbi, repetindo no automático as mesmas coisas todos os dias porque precisa ter – casamento, filhos, carro do ano, cargo de chefia, outro carro, status (que vem do latim ‘Estar’. E estar significa algo transitório, que passa). Se tudo passa, se não temos controle, por que não olhar para as coisas singelas do caminho? Porque não temos tempo, me disse o relógio. Mas eu não tive tempo para responder a ele.


Cristina Souza

Escrevo porque respiro. Ou seria ao contrário? Vejo poesia em tudo, e tudo que eu faço coloco o coração no meio - e um gole de café, é claro..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/recortes// @obvious, @obvioushp //Cristina Souza