coffee is my boyfriend

Pegue um café e sente aqui. Vamos falar sobre a vida.

Cristina Souza

Escrevo porque respiro. Ou seria ao contrário? Vejo poesia em tudo, e tudo que eu faço coloco o coração no meio - e um gole de café, é claro.

NÃO É SÓ APERTAR UM BOTÃO

Um pouco sobre o outro lado do botão da câmera que poucos conseguem enxergar - O lado humano e os processos do dedo - e coração - de quem dispara o click.


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Procurava qualquer coisa quando aquele álbum caiu em meu colo. De repente, podia sentir o cheiro do bolinho de banana da minha avó invadir o quarto. Consegui ouvir a risada frouxa da minha mãe enquanto me abraçava. Lembrei-me do que conversávamos antes de você lançar aquele olhar tão profundamente para mim durante a pausa do retrato. Ainda que seus olhos tenham agora marcas da vida, ainda que há tempos eu não saiba o que é bolinho de banana da vó ou o som daquela risada, por instantes, senti tudo novamente. É porque a fotografia tem esse poder – É uma máquina do tempo, capaz de resgatar toda a sinestesia do momento que foi eternizado, e no segundo seguinte já não seria mais o mesmo.

Como estariam essas lembranças se alguém não tivesse retratado? Apagadas pela memória, talvez. Ainda mais em um mundo de tanto bombardeio de informações. Mas alguém conseguiu transformar aquele segundo em eterno. Além disso: Alguém deu seu olhar para que um momento da vida deixasse de ser apenas um momento. Alguém apertou um botão, mas a verdade e a força por trás da imagem não veio da máquina - mas sim do alinhamento entre o coração, sentimento, forma de olhar e técnica de quem apertou aquele botão. Fotografar é usar a luz para contar uma história. Escrever, seja com lápis ou com obturador, não é tão simples.

Mas muita gente acha que é. “É só apertar um botão”. “Sua máquina faz fotos maravilhosas”. “Só preciso de umas dez fotinhas para o instagram”. “Leva sua máquina junto”. “Você pode usar para seu portfólio”. “Ah, deixa, meu sobrinho faz de graça”. “Deixa eu ver só algumas aí na máquina”. “Nem precisa editar”. “Ah, esqueci de colocar os créditos” – só para citar algumas das frases mais ouvidas por quem escolhe ser fotógrafo.

Uma câmera – profissional ou não – tem muitos botões e funções além daquele que faz o click, e eles não estão ali à toa. Experimente só apertar o botão de qualquer maneira – terás um mesmo resultado: de qualquer maneira. Sim, existem máquinas que fazem fotos maravilhosas, quando são operadas por fotógrafos maravilhosos. Estes, aliás, fazem isso independente de qual equipamento usam: Quando você sabe o que faz, a tecnologia não é seu guia; ela te ajuda a transcender a visão daquilo que você já domina.

Dez fotinhos, trezentas ou uma: O processo para obter o resultado independe da quantidade de fotos. O problema é que as pessoas só enxergam o resultado. Na maioria das vezes, a menor parte do trabalho como um todo é fotografando – existe o preparo de antes (do trabalho específico em si e de toda uma busca por referências, estudos, técnicas, e mais); existe o tempo de captação e muitas, muitas horas de pós. É preciso descarregar as imagens. Olhar. Selecionar. Editar. Selecionar de novo. Enviar.

E sim, precisa editar. Isso porque antes mesmo do clique, a edição já está na cabeça. Regula-se a luz, escolhe-se o enquadramento, pensando na edição: Os tons e cores que serão colocados fazem TODA a diferença. É isso que comunica a intenção de uma foto. E cada um tem seu estilo. A máquina, pois bem, é só uma máquina. O resultado é humano. Ninguém vai ao restaurante, entra na cozinha enquanto o Chef está preparando o prato e pede para ‘só dar uma provadinha pra ver se o molho está ficando bom’. Ninguém diz para o tatuador que é a máquina dele que faz tattoos maravilhosas. Ninguém compra um bisturi, um jaleco e se diz médico. Mas fazem isso com os fotógrafos, o que é um tanto curioso: A profissão trabalha com imagens, mas poucos conseguem enxerga-las de fato.

E fotógrafos pagam contas também. Os equipamentos são caríssimos. As máquinas possuem vida útil contabilizada pelo número de cliques. Programas de edição tem custo alto. O computador precisa ser bom, precisa ter espaço. O café está inflacionado.

Eu iria falar ainda dos caminhos tempestuosos de se trabalhar om fotografia conceitual, da arte de pintar com a luz, de ir além dos olhos para retratar, mas lembrei que preciso editar fotos, ‘para ontem’. E que tenho alguns artigos na lista de espera para ler. Que preciso organizar meu portfólio. Rascunhar projetos. E, se tudo der certo, pagar a luz atrasada.

Ou talvez eu só vá apertar um botão.


Cristina Souza

Escrevo porque respiro. Ou seria ao contrário? Vejo poesia em tudo, e tudo que eu faço coloco o coração no meio - e um gole de café, é claro..
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