coisas que pairam

Música, fotografia, design e outras coisas que pairam

Dimitry Uziel

é designer gráfico, colecionador de madrugadas, fragmentos, imagens e estranhos sons.

Robsongs entre tantos

Shoegaze, Pós Punk, Psicodélico, Rock and Roll... Se The Brian Jonestown Massacre pisou em solos inimagináveis, ou Dead Skeletons preferiu falar de morte para se sentir mais humano, Robsongs respira e transpira música para não enlouquecer sozinho.


Robsongs

Há quem diga que fazer referências, comparações de bandas ainda “anônimas” com bandas do “mainstream”, de popularidade já sólida, é um erro. Mas se a influência é explicita, erro seria não mostrar a fonte onde novos artistas saciam sua sede, se inspiram para compor suas obras. Obras que o mundo precisa conhecer, e precisa saber quais são suas influências.

Creio que tenha sido dia 1º de maio do ano de 2010, num pequeno festival de bairro... Como a maioria dos festivais, entre muitos amigos, esse tinha, como intenção, celebrar, divertir e divulgar as bandas da região e bandas que vinham de outros locais, um pouco mais distantes. Sete ou oito grupos se apresentaram naquela tarde quente de sábado. A última foi o Charme Chulo, na intenção de que fosse a “chave de ouro” daquele fim de tarde no espaço que ainda leva o nome de Bloco Sta. Barbara. Mas não foi. Pois havia uma banda ali, que apenas os mais atentos saborearam de suas canções com enorme deleite. Foi a 4ª banda a tocar (se não estou enganado). Essa atendia pela alcunha de “Minha Vida Nunca foi um Picnic”. Proposta simples, mas com um som poderoso e, certo balanço, — algo meio blues, meio rock and roll e Pós Punk — se destacou entre as demais, sem meias-verdades, direta e reta. Então, caro leitor, você me pergunta: e daí? E eu lhe respondo: É exatamente aí que tudo começa.

Não era uma banda Pós Punk, não era uma banda Psicodélica, não era uma banda Mod, mas transpirava um pouquinho de cada um desses estilos na sonoridade da “Minha Vida Nunca Foi um Picnic”. Era um catado de tudo que há de melhor e delirante no rock. Era deleite, explosão, nostalgia, sutileza e simplicidade.

Sim. Muitos estavam ali pelo Charme Chulo. Eu estava lá por todas. Queria saber o que cada uma fazia, queria conhecer o trabalho desses estilos tão diferentes no mesmo palco. 90% das apresentações eu já conhecia um pouco, mesmo assim, sempre pode haver uma surpresa. Mas para minha verdadeira surpresa, aquela tal de “Minha Vida Nunca foi um Picnic” subiu ao palco. Pensei, num tom até irônico: “Que nome de banda é esse?! (rs)”. Eu não conhecia definitivamente nada a respeito daquele trio. Não sabia o que eles trariam a tantos ouvidos que ainda aguardavam o primeiro grito da guitarra, o primeiro tapa do contrabaixo, o primeiro tiro da bateria. Minhas pernas foram tomando conta do resto do corpo, os olhos foram lentamente se fechando até que... Eu estava entregue. E, estar entregue é transbordar. Você faz ideia do que é transbordar ao som do desconhecido, caro leitor? Eu imaginava que era se deixar levar aos sons maravilhosos do Bauhaus, do Smiths, The Doors, David Bowie e etc. Porém, eu estava ali no ÚNICO show da “Minha Vida Nunca Foi um Picnic”. E era devastador, encantador. Sim, pode parecer exagero, mas essa foi minha impressão. Talvez eu tenha sido o único a sentir isso, talvez não. Que seja.

Anos se passaram e, nunca mais se ouviu falar daquela tal banda de nome quase impronunciável, comprido.

— Calma aí. E o Charme Chulo?

— Bom... Eles fizeram o show deles e foram embora. Só.

Robsongs Foto by Ka Uziel © 2013

Acreditar que a “Minha Vida Nunca foi um Picnic” havia definitivamente parado de produzir foi um engano brutal. Pois Robson Gomes, em sua casa, nunca parou de compor, tanto para sua cultuada banda paulista que recentemente foi parabenizada pelos 20 anos de carreira (The Concept) quanto para um projeto meio que sem rumo (sem rumo até o final de 2011), pois hoje, este projeto tem rumo e nome: Robsongs.

Robsongs é o projeto solo de Robson Gomes, gravado no quarto de sua casa, com pouco recurso e esbanjando qualidade e sentimento. Uma mente brilhante como a de um cara desses, não conseguiria compor canções apenas para uma banda, mesmo com 20 anos de estrada. Eis que surgem novas portas, novos meios de composição, novas inspirações, o que faz de Robsongs algo ímpar. Psicodelia pura, melancolia, ausência, força, tudo isso num único elemento, um tipo de fusão quase impossível. Detalhe: letras em português. Apesar de algumas versões, em seu repertório, serem em inglês, como, por exemplo, San Francisco (Scott MacKenzie).

Recentemente, como já foi dito em um dos textos que publiquei aqui na Obvious, Robsongs participou de uma coletânea em homenagem a uma das melhores bandas de todos os tempos, A Tribute to Cocteau Twins, com a versão de Persephone, mais sombria e, “um tanto ébria”.

Agora, caro leitor, caso queira saber se farei ou não referências comparativas desse artista a outros, a resposta é: Sim. Pois ninguém é melhor que ninguém, alguns apenas conseguem abrir portas que outros levam mais tempo para conseguir, muitos desistem. E, se The Brian Jonestown Massacre pisou em solos inimagináveis, ou Dead Skeletons preferiu falar de morte para se sentir mais humano, Robsongs respira e transpira música para não enlouquecer sozinho.


Dimitry Uziel

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