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Compilando notas sobre cultura e comportamento humano.

Mariana Arcoverde

Advogada e escritora no blog Entretenha-me

A Frances que há em nós

Incerteza, busca incessante, reafirmação, coragem. O que torna a personagem Frances tão identificável com as pessoas comuns?


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Já faz algum tempo que eu assisti ao filme Frances Ha (2013, Noah Baumbach); o que é excelente para a proposta desta resenha. Isso porque, na realidade, a película já foi exaustivamente comentada, discutida e criticada, fazendo com que o interesse por outra mera sinopse seja ínfimo. De qualquer jeito, a título de introdução, vale delinear rapidamente a narrativa: Frances Halladay, (muito bem) interpretada por Greta Gerwig, é uma aprendiz de dançarina que mora em Nova Iorque, dividindo um apartamento com Sophie, sua melhor amiga. Quando esta decide ir morar com o namorado, Frances se depara com a possibilidade - embora forçada - de viver de forma ainda mais independente.

Pronto, o spoiler acabou por aí. O que me fascina nesse filme (e o motivo pelo qual eu afirmei ser positiva a distância temporal entre a data em que o vi e o dia de hoje) é a forma como ele permanece em mim, como ainda é uma força motivacional em diversos momentos, mesmo quando eu não percebo.

frances.jpg "Estou tão envergonhada. Eu ainda não sou uma pessoa de verdade."

Claro que há toda a questão do empoderamento feminino. Quando tem um namorado, Frances se recusa a juntar as escovas de dente; quando está solteira, se comporta de modo, digamos, pouco convencional num encontro. Porém, a essência da sua personagem está longe de se resumir a um lugar-comum feminista. O ponto central da mensagem que está imiscuída nas suas atitudes, na sua dança e na sua fala é a total incerteza do que se é, aliada à coragem de "se procurar". E isso, creio eu, não tem gênero ou idade.

Os jovens que estejam numa fase similar a de Frances (27 anos), por uma característica inerente a tal etapa de transição, normalmente irão se identificar um pouco mais; não vejo obstáculos, entretanto, para que alguém na faixa dos 40, 50 ou 60 se aproprie dos mesmos sentimentos de inquietude. Note, ademais, o uso proposital da expressão "se procurar" e não "se encontrar", como de praxe. É que eu percebo a busca da protagonista como algo incessante, sem prazo de validade, sem metas delineadas, isto é, um fim em si mesmo.

E por que, no meio de tanta imprecisão, a história é capaz de motivar e inspirar confiança? Porque é possível perceber na personagem um certo nível de realização no momento presente, no hoje, independente de títulos ou rótulos. Ela é feliz dançando, mesmo que os seus movimentos não sejam perfeitos. Gosta de estar entre amigos e encontra, nisso, uma alegria autônoma, não necessariamente atrelada ao pertencer num relacionamento amoroso.

Como diz a própria distribuidora da obra: "Frances mora em Nova Iorque, mas não tem, de verdade, um apartamento. É aprendiz numa companhia de dança, mas não é, na verdade, uma dançarina. Tem uma melhor amiga chamada Sophie, porém elas, na verdade, não estão se falando" (IFC Films). É a indefinição, o descompasso entre o que devemos fazer e o que, de fato, estamos fazendo, que emprestam o maior brilhantismo ao roteiro do filme. E o que torna tão fácil, diga-se de passagem, reconhecer a nós mesmos nesse papel.


Mariana Arcoverde

Advogada e escritora no blog Entretenha-me.
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