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Compilando notas sobre cultura e comportamento humano.

Mariana Brito Arcoverde

Estudante de Psicologia, advogada de profissão. Neste espaço, exerce livre e abertamente sua paixão: a escrita amadora e crítica (nada imparcial) sobre cultura e comportamento humano.

Música, escalas e indústria cultural da felicidade

Estudos apontam que músicas em escala menor reproduzem tristeza. Mito ou verdade, o que está por trás da obsessão cultural por canções upbeat e ritmos vibrantes?


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Ouvimos com frequência que ópera é uma música triste, ou “sem graça”. Entre a população jovem, as pessoas não só têm pouco costume de ouvir música erudita, em geral, como também zombam de quem aprecia o gênero. Os álbuns mais populares são repletos de melodias animadas, cujo ritmo permanece agitado e até festivo, mesmo quando as letras falam sobre algo ruim, como separação - vide a música sertaneja. Certamente, isso pode levar alguém a indagar uma coisa ou outra sobre a discriminação existente com baladas não tão entusiasmantes (ou upbeat, como dizem os ingleses).

Os estudos indicam que o que faz músicas tristes, bom, tristes, é a escala menor. Uma pesquisadora da Universidade de Tufts*, nos Estados Unidos, publicou em 2010 um artigo sugerindo que na música – e no discurso – será transmitida uma emoção de tristeza quando houver uma construção musical em terça menor. A partir daí, encontrei diversos vídeos brincando com a ideia, trazendo para o modo menor canções originalmente bem alegres:

Continuando, li também diversos textos criticando o determinismo dessa teoria. Um dos escritos apontou para o fato de que as obras sonoras mais melancólicas assim o são porque os seus compositores desejaram isso. Há uma diversidade de fatores, na composição, que podem levar uma música a ser mais pesarosa que outras, mesmo que tocadas em escala maior. Um ótimo exemplo é Fake Plastic Trees – Radiohead:

Falando em Radiohead, aí está o ponto em que eu queria chegar. Eles são uns dos meus artistas preferidos – ao lado deles, estão The Smiths, Björk e muitos outros que, de modo geral, não são considerados os reis da música upbeat. E por que isso é visto como algo estranho pelo grande público? A explicação parece estar na indústria cultural da felicidade.

arnaldo jabor2.png Embora não seja a maior fã do escritor, o texto é interessante: http://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,a-felicidade-e-uma-obrigacao-de-mercado-imp-,589550

Há, atualmente, uma série de matérias e vídeos sobre a felicidade simulada nas redes sociais: a fulana perde o emprego e posta na internet toda uma redação sobre como é proveitoso tirar um ano sabático; o sicrano toma um pé na bunda e publica foto com os amigos estampando a euforia da recém-conquistada solteirice. Todavia, a indústria cultural da felicidade - nomeada simplesmente de “cultura da felicidade”, por alguns - não é tão recente assim, muito menos se restringe ao mundo virtual. Ela perpassa quase todas as áreas da vida com seu dedo impositivo, constrangendo nossos aspectos mais sombrios e forçando sorrisos amarelos em nossas faces.

Por aí caminha a predominância de músicas alegres, em escala maior, ocidentais, quentes como o sol em um dia de verão. E os celulares com capas coloridas, as comédias românticas hollywoodianas, as bermudas floridas e os esmaltes cintilantes. Conforme denuncia a própria nomenclatura, indústria cultural da felicidade, é óbvio que tudo faz parte do plano-capitalista-de-indução-do-consumo-generalizado. Mas não é preciso entrar nesse mérito para se inquietar com a obrigatoriedade do contente, e a ela se contrapor. Basta ter a convicção dos seus próprios gostos, em qualquer escala, e o deleite, este sereno, de saber que os espaços de ruptura com a hegemonia cultural são geradores de diversidade; tão colorida quanto o próprio arco-íris que o império da alegria procura desenhar.

*Artigo completo em: http://ase.tufts.edu/psychology/music-cognition/pdfs/Curtis&Bharucha2010Emotion.pdf


Mariana Brito Arcoverde

Estudante de Psicologia, advogada de profissão. Neste espaço, exerce livre e abertamente sua paixão: a escrita amadora e crítica (nada imparcial) sobre cultura e comportamento humano. .
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