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Compilando notas sobre cultura e comportamento humano.

Mariana Brito Arcoverde

Estudante de Psicologia, advogada de profissão. Neste espaço, exerce livre e abertamente sua paixão: a escrita amadora e crítica (nada imparcial) sobre cultura e comportamento humano.

Wish I Was Here: emocionante, por força ou identificação.

Do diretor de Garden State, temos um novo filme indie, sincero, e com belíssima trilha sonora. Será, porém, que Zach Braff conseguiu nos presentear com a mesma originalidade que vimos em seu longa-metragem de estreia?


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Zach Braff, ator, diretor, roteirista e produtor, mais conhecido pelo papel do médico J.D. na série de TV Scrubs, lançou, este ano, o filme: Wish I Was Here (Dava Tudo Para Está Cá em português de Portugal e sem tradução para português brasileiro). Fã que sou do seu longa-metragem anterior, Garden State (Hora de Voltar), confesso que tinha expectativas altas ao assistir sua última façanha. Mea-culpa: acabei parcialmente frustrada.

A narrativa de Wish I Was Here gira em torno de Aidan, judeu americano, casado e pai de dois filhos, que se encontra em uma inusitada situação ao descobrir que o câncer do seu pai, Gabe, retornou em fase metastática, o que implica – além da perspectiva emocional em torno da doença e da probabilidade de perder o pai – a compulsória retirada de seus filhos da escola privada (judaico-ortodoxa) em que estudavam, uma vez que Gabe era o provedor das mensalidades e, devido ao seu estado de saúde, precisará custear um caro tratamento com células-tronco. Enquanto ator sem emprego fixo, “sustentado” pela esposa, Sarah, Aidan é então incumbido do ensino doméstico (homeschooling) das crianças. O roteiro inclui ainda o ator Josh Gad no papel de Noah, irmão de Aidan, um aparente superdotado que não seguiu a carreira acadêmico-científica deseja pelo pai, com quem mantém uma complicada (ou até mesmo nenhuma) relação, vivendo num trailer com vista para o mar enquanto autoproclamado blogger.

Embora os atores sejam muito competentes (Sarah é interpretada pela belíssima Kate Hudson, que demonstra um amadurecimento tanto profissional quanto estético digno de aplausos) e a fotografia excelente, algumas cenas do filme me deram a impressão de “forçar” uma emoção no telespectador. Explico-me: forçar no sentido oposto a despertar naturalmente emoção, que é o escopo de qualquer filme – ou da arte, de um modo em geral. Percebi isso pelo uso ostensivo de frases de efeito e de algumas sequências que se assemelham a comerciais: cadência maior que a normal (quase slow-motion), música tocante, personagens sorrindo, se abraçando, assando marshmallows numa fogueira em pleno deserto.

Outros quadros, por sua vez, dão uma caprichada na “fotografia indie”.

wish-i-was-here-featurette-power-of-place-2014-.jpg Fonte: http://www.joblo.com/movies/database/2014/wish-i-was-here/

O roteiro parece completamente original em combinar toda aquela variedade de elementos - crise profissional, morte, judaísmo, relações familiares. E seria, caso o próprio Braff não tivesse abordado tantos deles em Garden State. Não é por acaso que o consenso crítico do site Rotten Tomatoes (no qual o filme é avaliado, atualmente, em 46%), diz: “Não há como negar que Wish I Was Here é sincero, mas ele cobre um terreno de narrativa já percorrido - particularmente por filmes anteriores do diretor Zach Braff” (tradução livre).

Ainda assim, recomendo a obra. Justamente por trazer à tona assuntos tão próximos da vida de uma pessoa comum, como espiritualidade e relações afetivas, o filme consegue, em vários momentos, escapar à imposição de emoções e fazê-las surgir livremente, sobretudo pela via da identificação. Eu, de forma particular, reconheci diversas temáticas do roteiro na minha própria vida, seja na probabilidade da morte de um pai que sofre com câncer, seja na pré-adolescente *spoiler alert!* de cabelos raspados (passei por isso aos 15 anos de idade, embora não por livre escolha), ou na realização profissional em eterna expectativa. Sim, confesso, chorei litros.

P.S.: De quebra, a trilha sonora é fantástica, já se tornando uma marca de Zach Braff : inclui The Shins, Bom Iver, Paul Simon (Simon & Garfunkel) e Cat Power+Coldplay com a faixa-título do filme.


Mariana Brito Arcoverde

Estudante de Psicologia, advogada de profissão. Neste espaço, exerce livre e abertamente sua paixão: a escrita amadora e crítica (nada imparcial) sobre cultura e comportamento humano. .
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