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Compilando notas sobre cultura e comportamento humano.

Mariana Arcoverde

Advogada e escritora no blog Entretenha-me

Livre, o filme (ou uma aula de autoperdão diretamente dos cinemas)

Como a história de Cheryl Strayed, em surpreendente interpretação de Reese Witherspoon, pode dar um empurrãozinho no longo processo de redenção pessoal, de conciliação com medos e arrependimentos próprios e a lembrar que merecemos, sim, felicidade.


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Numa sociedade que ainda tenta se livrar das concepções binárias e maniqueístas condensadas em seu código moral, impregnada, também, por doses maiores ou menores da famosa “culpa cristã”, é comum que as pessoas se julguem excessivamente por erros que, na realidade, só as fazem humanas. Somos capazes, ademais, graças ao (falso) moralismo que subsiste, de taxar como faltas graves as ações que intimamente nem consideramos desacertadas, apenas porque sentimos o peso que os olhos hipócritas teriam sobre nós, caso a verdade de tais atitudes viessem à luz do dia.

O caso de Cheryl Strayed é representativo: a morte da sua mãe causou um choque irreparável em sua vida, um verdadeiro divisor de águas, que será seguido por anos de abuso de drogas, relações extraconjugais, divórcio e até uma gravidez indesejada. Como em uma epifania, ela decide que, para “se encontrar”, iria caminhar quase 2 mil quilômetros na Pacif Crest Trail, trilha que cruza a costa oeste dos Estados Unidos. Sua história foi contada de forma autobiográfica no livro Wild (traduzido para o português como "Livre"), que posteriormente foi adaptado para o cinema, em filme homônimo.

A crítica, de modo geral, recepcionou muito bem o filme, que foi indicado a vários prêmios nas categorias Melhor atriz (Reese Whiterspoon), Melhor atriz coadjuvante (Laura Dern, no papel da mãe de Cheryl) e Melhor roteiro adaptado (Nick Hornby). O diretor, Jean-Marc Vallée, também foi aclamado pela condução do longa e, nas palavras do crítico Stephen Farber, do The Hollywood Reporter, “criou um vívido filme de aventura selvagem que é também uma poderosa história de angústia familiar e sobrevivência” (tradução nossa*). A narrativa acompanha a trilha realizada pela protagonista, entrecortando-a com flashbacks que vão da sua infância até a vida adulta.

Além da mensagem de superação física - que vem da própria caminhada de Cheryl (vale destacar o tamanho absurdo de sua mochila) -, a narrativa guiada por memórias nos leva a compreender a história da personagem quase que por um quebra-cabeças. Percebemos, aos poucos, a importância central que a mãe, Bobbi, teve em sua vida; o câncer que lhe acometeu mostra-se o provável início da sua desestruturação, que atinge o ápice depois do seu falecimento. O marido, Paul, tenta ajudá-la, mas não sabe como.

O fundo do poço, as drogas, o sexo vazio, tudo é retratado para que possamos entender o que impulsionou Cheryl a percorrer – literalmente – uma trilha de autoconhecimento. O mais significativo, todavia, é o seu processo de autoaceitação.

quotes2.jpg Tradução livre de um excerto do filme.

Todos nós fizemos coisas das quais nos arrependemos, mas eventualmente todos precisamos perdoar nossos vacilos. Não pretendo, com isso, fazer apologia a uma vida completamente permissiva, nem ignorar o fato de que, não raro, nossas atitudes negativas atingem outras pessoas. Porém, embora pedir perdão aos outros seja essencial, desculpar a si mesmo é o passo mais importante para virar a página. Carregar o peso inigualável da culpa não trará qualquer benefício; não é capaz de restaurar as coisas para o estado anterior, nem reparar a gravidade dos danos causados. Culpar-se conduz tão somente a uma vida limitada e é provável, ainda, que leve à repetição dos mesmos erros ou ao cometimento de novos. Quando nos julgamos eternamente errados e não-merecedores, frequentemente tendemos a sabotar a nossa felicidade através de mais desacertos. Por isso, o ato às vezes mais inimaginável, que é o autoperdão, é o mais construtivo. Certamente, é o mais libertador.

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Mariana Arcoverde

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