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Compilando notas sobre cultura e comportamento humano.

Mariana Arcoverde

Advogada e escritora no blog Entretenha-me

Poesia e mística n'A História da Eternidade

Com direção de Camilo Cavalcante, o longa vem mostrar que o cinema pernambucano ganha a cada ano produções tecnicamente impecáveis e artisticamente belas demais para ser ignorado.


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A História da Eternidade, do cineasta pernambuco Camilo Cavalcante, é uma obra trabalhada de maneira tão complexa que houve até certa dificuldade em escolher a categoria dessa resenha. Sim, porque ela poderia facilmente ser abordada pelo viés da sociedade, da fotografia, das artes, da música e tantos ângulos quanto existissem. Sendo um filme, optou-se pela simplicidade de tratá-lo em cinema. Desdizendo, todavia, o que foi dito ali em cima, o leitor não encontrará aqui uma resenha.

Encontrará um atestado de admiração.

Em termos de sinopse, não sendo recomendável formular uma própria e arriscar "entregar" o inédito, repete-se a descrição do próprio site:

Em um pequeno vilarejo no Sertão, três histórias de amor e desejo revolucionam a paisagem afetiva de seus moradores. Personagens de um mundo romanesco, no qual suas concepções da vida estão limitadas, de um lado pelos instintos humanos, do outro por um destino cego e fatalista.

As personagens centrais das três histórias são mulheres: Querência (Marcélia Cartaxo), Das Dores (Zezita Matos) e Alfonsina (Débora Ingrid). Na vida de cada uma delas, a presença marcante de um homem faz esse contraponto Yin/Yang tão evidente, ao passo em que a divisão do longa em três partes remete à mística da tríade, poderosa. Aliás, a mística do sertão está toda lá: a secura do tempo, a nudez das árvores, a violência da escassez, a força das paixões e desejos vigiados pelo deus católico e pela comunidade.

Parte poesia, parte mito, o Tio Joãozinho "rouba a cena em suas cenas". Interpretado por Irandhir Santos, que dificilmente passaria despercebido em qualquer produção que o contemplasse, Joãozinho é um artista livre que vive em solidão (além de sua casinha escura, que está sempre de portas fechadas, a existência de um único orelhão como ponte entre o vilarejo e o resto do mundo evidencia o isolamento e a reclusão). Mas ele é livre: livre nas suas montagens, na sua poesia, na expressividade da sua dança. A interpretação que faz da música Fala (Secos e Molhados) é certamente uma das cenas mais belas do cinema brasileiro.

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A fotografia do longa, nas mãos de Beto Martins, é de um rigor estético miserável (no bom sentido, como nós pernambucanos empregamos a palavra). A trilha sonora original é assinada por Zbigniew Preisner (que compôs para a célebre trilogia das cores, entre outros) e pelo saudoso Dominguinhos: é marcante assistir ao sanfoneiro cego (Leonardo França) tocar suas canções debaixo de uma árvore desfolhada, em frente à casa da Querência que não lhe quer.

Por fim, e em tudo, a obra é escancaradamente poética. Logo, não se encontra melhor maneira de finalizar o presente atestado com um aperitivo, uma provinha do que os leitores verão, se a curiosidade ora incitada chegou a lhes alcançar; uma poesia de Drummond que, sendo certo que já é emocionante por si, na voz maciça do personagem Joãozinho consegue provocar um tantinho mais.

  • Que pode uma criatura senão,
  • entre criaturas, amar?
  • amar e esquecer,
  • amar e malamar,
  • amar, desamar, amar?
  • sempre, e até de olhos vidrados, amar?
  • Que pode, pergunto, o ser amoroso,
  • sozinho, em rotação universal, senão
  • rodar também, e amar?
  • amar o que o mar traz à praia,
  • e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
  • é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
  • Amar solenemente as palmas do deserto,
  • o que é entrega ou adoração expectante,
  • e amar o inóspito, o áspero,
  • um vaso sem flor, um chão de ferro,
  • e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.
  • Este o nosso destino: amor sem conta,
  • distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
  • doação ilimitada a uma completa ingratidão,
  • e na concha vazia do amor a procura medrosa,
  • paciente, de mais e mais amor.
  • Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
  • amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.


Mariana Arcoverde

Advogada e escritora no blog Entretenha-me.
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