com dois enes

porque ver é uma coisa bem relativa

Anna Horta

Jornalista que ama as palavras e a língua portuguesa. Ama o minimalismo, mas é extremamente prolixa.

Animação "O Menino e o Mundo" surpreende e emociona com crítica ao capitalismo

Um filme que diverte as crianças enquanto provoca os adultos e critica duramente o mundo capitalista em que vivemos. A tela do cinema muitas vezes parece um papel em branco a ser preenchido, o que desafia o mercado de animação.


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Não tenho paciência para animação”, foi o que uma amiga disse, quando eu falava sobre a nova animação de Alê Abreu, “O Menino e o Mundo”, em cartaz em várias capitais do Brasil. Era também o que eu dizia sobre o assunto. A todos que se sentem como ela, esqueçam. O filme vai na contramão do que vem sendo produzido e esperado pelo mercado e surpreende com sua profundidade narrativa e dramática.

O ponto de partida é simples: um Menino sofre com a separação de seu pai, que parte para a cidade em busca, talvez, de melhores condições de vida. Inconformado, o Menino decide ir atrás. A animação, que nasce de um projeto antigo de Alê, o AnimaDoc “Canto Latino”, surpreende pela simplicidade dos traços e pela complexidade da mensagem. Traços simples e paisagens psicodélicas misturam o real e o imaginário na vida do Menino. Nada de efeitos especiais, produções mirabolantes e diálogos profundos ou engraçadinhos. A ausência de falas e o excesso do branco na produção dão o tom de ousadia da obra, que mostra o mundo aos olhos de uma criança e emociona.

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Tudo isso não teria metade da força e da emoção presentes, se não fosse a trilha sonora de Gustavo Kurlat e Ruben Feffer, com as participações especiais de Emicida, Barbatuques, Naná Vasconcelos e do Grupo Experimental de Música. Segundo o diretor, o filme “nasce da música”, que sempre aparece na animação envolvendo o Menino em bolhas coloridas e flutuantes. Assim como se fazia antigamente nos filmes mudos, fez-se nessa animação, e a música dialogou brilhantemente com cada momento, cadenciando os picos de emoção e de ação no filme, que por pouco não foi sem diálogos. Mais um detalhe ousado na produção: em alguns poucos momentos, os personagens se comunicam em uma linguagem imaginária, o português falado de trás para frente, que mesmo ininteligível, diz o que quer dizer.

Apesar do ar melancólico e muitas vezes dramático presente no filme, ele carrega uma mensagem de esperança constantemente testada, que luta para sobreviver durante cada descoberta do Menino. Isso é feito de forma singular através da música, que soa como uma força vital do personagem principal. Toda vez que o Menino se entristece, fica cabisbaixo ou desacreditado, como um sopro de otimismo, a música vem. Rapidamente ele se lembra da flauta ecoando uma canção tocada por seu pai que, não por acaso, é a música-tema da animação e se chama AIRGELA – ALEGRIA lida de trás para frente.

Durante toda a história, há uma busca incessante, que com o passar do tempo, se transforma na própria busca pessoal do Menino. É mais além do que a necessidade de encontrar o pai, ele procura respostas e tenta encontrar algum sentido em um Mundo que se mostra cada vez mais cruel e sofrível diante de seus olhos inexperientes. Quem são o jovem e o velho trabalhador que ele encontra no caminho? De dentro do ônibus, os olhos assustados do Menino observam o capitalismo, sem entender, e parecem perguntar desesperadamente ao espectador: “O que essas pessoas estão fazendo aqui? Por que elas se submetem a isso?”.

A cidade que o Menino encontra é o Mundo, onde pessoas são substituídas por máquinas e onde a novela não é o bastante para arrancar sequer um sorriso amarelo ao final de mais um dia de trabalho. A alegria, sinalizada pela música, pelas cores e pelo grupo de manifestantes, aparece como uma perturbação da ordem, responsável pelo trânsito parado, devendo, portanto, ser combatida.

Um filme para divertir as crianças e questionar os adultos. A busca do Menino incita e vai diretamente de encontro com a de quem vive em grandes metrópoles. Uma busca por não se sabe o quê, nem onde ou por quê. O Menino e o Mundo põe o dedo na ferida do capitalismo com uma sutileza quase imperceptível, e no fim lança uma trágica e retórica pergunta: Será que vale a pena?

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Anna Horta

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