com dois enes

porque ver é uma coisa bem relativa

Anna Horta

Jornalista que ama as palavras e a língua portuguesa. Ama o minimalismo, mas é extremamente prolixa.

O peixe grande de David Lynch

Muitas pessoas não sabem, mas David Lynch é adepto da meditação transcendental há 33 anos e escreveu um livro contando como a prática influenciou sua vida pessoal, e foi determinante em suas produções surrealistas e aparentemente sem sentido e em seu processo criativo, como um todo.


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Famoso por seus personagens, cenas e cenários bizarros, complexos e inusitados, David Lynch, autor de filmes como “O Homem Elefante” (1980), “Veludo Azul” (1986), “Cidade dos Sonhos”(2001) e “Império dos Sonhos” (2006), revelou ao mundo um lado, por assim dizer, místico. Poucas pessoas sabem, mas o cineasta surrealista pratica meditação transcendental há 33 anos e a última vez que esteve no Brasil, em 2008, foi para lançar seu livro “Em águas profundas – Criatividade e Meditação”, sobre o tema.

A obra é uma mistura de autobiografia e história do cinema, com doses na maioria das vezes sutis de auto-ajuda, esta caracterizada pelos conselhos que Lynch dá com relação a busca pessoal de cada um e a sua estrita relação com a meditação transcendental, baseadas em sua própria experiência. Mais do que isso, o livro é uma leitura indispensável para quem admira a obra de David Lynch, que busca entender cada vez mais suas narrativas e, sobretudo, quer se aprofundar no processo criativo do autor.

Em entrevista ao programa Roda Viva (TV Cultura), em 2008, quando esteve no Brasil para lançar o livro, Lynch confessou que era muito tenso e estressado, e se irritava facilmente; depois que começou a meditar, a irritação se foi. “A felicidade começou a surgir de dentro e me vi mais feliz com meu trabalho", conta. O segredo, garante, é a meditação transcendental.

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A pergunta que nunca cala é: “se Lynch é tão feliz como diz, como pode fazer filmes tão perturbadores?". Ele mesmo responde, no capítulo “Sofrimento” do livro: “Alguns artistas têm a raiva, a depressão e a negatividade como suas molas propulsoras. Eles acham que devem se agarrar à raiva e ao medo para colocar no trabalho que fazem. E abominam a ideia de serem felizes – isso realmente os desagrada. Eles acham que a felicidade os fará perder o estímulo e o poder. Mas não se perde o estímulo quando se medita.” Lynch defende que o artista deve conhecer a raiva sem, porém, ser afetado por ela.

O livro é dividido em breves e pontuais capítulos que não obedecem a linearidade alguma; o tom totalmente informal e em primeira pessoa dá uma atmosfera de conversa, como se o autor estivesse escrevendo aquilo diretamente para um amigo, que é o leitor. Ele escreve sobre o que quer e da maneira que considera conveniente, assim como faz em seus filmes. Isso faz com que algumas partes soem até mesmo bobas ou desnecessárias, mas se considerarmos que é mesmo uma carta, essas singularidades só deixam o livro ainda mais interessante e o leitor ainda mais próximo do interlocutor.

Lynch aprofunda questões de seu trabalho como pintor e cineasta, fala de coisas indispensáveis enquanto está criando o filme e juntando as peças de um quebra-cabeças. Singularidades de sua criação, como o fato de ouvir música em fones de ouvido enquanto está filmando, estão presentes e vão envolvendo cada vez mais o leitor, a medida que revela cada vez mais sobre o cineasta.

Na ocasião em que esteve no Brasil, em entrevista coletiva durante o lançamento do livro em Belo Horizonte (MG), o diretor também falou sobre a ausência de linearidade em suas obras: “Mesmo os filmes não-lineares possuem várias coisas concretas para você se agarrar. Um filme pode ser totalmente abstrato, mas eu penso que as pessoas podem se perder. Eu gosto de histórias que possuem as duas coisas: concretas e abstratas”.

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A verdade é que Lynch se diverte com a busca desesperada por sentido que as pessoas têm. Para Mário Abbade, presidente da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro, estudioso e admirador da obra de Lynch, “não existe uma coisa certa ou errada, cada um é tocado por aquilo de alguma forma, é isso que ele [Lynch] tenta explicar. As pessoas têm que ter essa oportunidade de poder sonhar”, afirma. No livro, há um capítulo chamado “A Caixa e a Chave”, em que Lynch debocha daqueles que tentam incansavelmente entender cada meandro de sua filmografia. Sobre esses dois objetos presentes no filme “Cidade dos Sonhos”, frutos de tanta especulação sobre possíveis mensagens ou significados enigmáticos, o diretor revela apenas não ter a menor ideia do que possam ser.

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Em muitos momentos Lynch fala também da escolha de atores para seus papéis, sobre como as ideias surgem intuitivamente e como ele, corajosamente, decide colocá-las em prática, mesmo parecendo absurdas. Ideias, inclusive, que só surgem se você mergulha fundo. A famosa frase de Lynch - “se você quer pegar um peixinho, pode ficar em águas rasas. Mas se quer um peixe grande, terá que entrar em águas profundas” - fala exatamente sobre a necessidade de se aprofundar em si mesmo para encontrar as ideias mais valiosas.

O livro é uma porta para o entendimento do cineasta até mesmo como pessoa comum, antes de ser artista. Peca, porém, em seu principal aspecto: a meditação transcendental. Cria-se uma expectativa de que mais detalhes e informações concretas sobre a prática serão reveladas, mas em nenhum momento Lynch dá dicas, ou mesmo orienta de forma objetiva sobre o que um interessado deve fazer e onde deve buscar. Lynch fala apenas e incessantemente sobre como a prática permite que ele seja mais feliz e realizado, sobre a luz que ofusca a negatividade, sobre como somos capazes, soando muitas vezes como auto-ajuda das mais baratas. Mesmo assim, o livro vale a pena pelo diálogo sincero e pela cumplicidade que o diretor consegue com o leitor; apenas não deveria ser indicado como “manual de meditação”, como consta na orelha do livro.

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Anna Horta

Jornalista que ama as palavras e a língua portuguesa. Ama o minimalismo, mas é extremamente prolixa..
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