com dois enes

porque ver é uma coisa bem relativa

Anna Horta

Jornalista que ama as palavras e a língua portuguesa. Ama o minimalismo, mas é extremamente prolixa.

Derlon Almeida e sua xilogravura de concreto

O que a técnica de xilogravura, produzida como uma espécie de carimbo de madeira, e o grafite, que utiliza muros, podem ter em comum? Derlon Almeida responde com sua arte característica, que mistura gravura popular e street art em desenhos que remetem às ilustrações de literatura de cordel.


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Se você já passou por um muro com um grafite nesse estilo, com traços fortes que remetem à prática da xilogravura, certamente você já passou por uma obra de Derlon Almeida. Artista de 29 anos e natural de Recife (PE), ele imprime em muros, paredes e cartazes sua arte marcante que mistura arte popular e street art. Com traços fortes, muito contraste e grande valorização da cor branca, os grafites de Derlon fazem referência à cultura tradicional nordestina e são inspirados na xilogravura, método antigo de pintura, do qual pouco se sabe sobre a origem. Segundo historiadores, foi desenvolvida pelos chineses e já era praticada por este povo desde o século 6. No Brasil, a técnica se popularizou na região nordeste, onde era frequentemente utilizada para ilustração da literatura de cordel e se eternizou em nomes como J.Borges e Gilvan Samico. jborges.jpg Xilogravura de J.Borges

Foi nessas raízes, uma das principais formas de comunicação impressa da cultura popular, tão presentes desde a infância no imaginário do artista, que Derlon encontrou a identidade que buscava para seu trabalho e transformou a prática quase primitiva em uma arte contemporânea a todos nós. Ao contrário do excesso de cores comum em grafites de muitos artistas de rua, o pernambucano escolheu o simples, o que fala mais perto ao ouvido das pessoas que estão nas ruas. Traços grossos e expressões fortes, muitas vezes sofridas, que transmitem as emoções de um povo que o artista conhece bem.

Em seu livro Antologia de Folclore Brasileiro, Américo Pellegini Filho, estudioso da cultura popular, afirma ainda no início da década de 80: “Já dizíamos em trabalho anterior que as xilogravuras populares tendiam a continuar existindo isoladamente dos próprios folhetos de cordel, em função dos quais tinham sido originadas”. O que Pellegini Filho talvez não imaginasse, é que esta arte faria história também em muros, sejam em centros urbanos ou em áreas rurais. Suas obras podem ser vistas principalmente em painéis e muros por Recife, mas em São Paulo e no Rio de Janeiro é possível esbarrar com um grafite do artista, além de trabalhos que realiza em exposições e galerias de arte, no Brasil e no exterior. A exposição Ouro Branco, seu mais recente trabalho, retrata famílias de agricultores no sertão nordestino.

O OURO BRANCO DO SERTÃO NORDESTINO

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A Exposição Ouro Branco, que já teve intervenções em São Paulo, Rio de Janeiro e Recife, e chega a Paris em junho, é resultado da residência artística no distrito rural de Riacho do Meio, no município de Choró (CE). Derlon levou sua arte essencialmente de rua para o interior do sertão cearense e agora, traz o resultado deste trabalho de volta às ruas. O artista passou uma semana vendo de perto como é a vida dos agricultores do local e conhecendo melhor suas trajetórias e histórias de vida.

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“Através de pinturas em casas da comunidade, retratei um pouco daquilo que vi, das pessoas que conheci e as histórias que ouvi. Minha intenção agora é valorizar a história dessa comunidade. Fazer com que outras pessoas conheçam um pouco mais do sertão. Ajudando a preservar a memória deste lugar para as gerações futuras”, explicou Derlon, no vídeo que apresenta o projeto, no Catarse.

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A iniciativa veio da marca francesa VERT, que tem a proposta de produzir sapatos de modo sustentável, a partir dos conceitos de agroecologia e da preocupação social e com o meio ambiente. O que isso tudo tem a ver com Derlon? O local onde o artista fez sua residência a convite da marca é uma das comunidades que vende algodão agroecológico - o chamado ouro branco - para a empresa. O outro produto final dessa empreitada é uma linha de produtos desenvolvidos em parceria com o artista, toda feita em algodão orgânico produzido pela comunidade cearense.

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A vida e o cotidiano de 72 famílias de algodoeiros do semiárido cearense foram representados em muros por Derlon. Todo o trabalho foi registrado pelo fotógrafo Pablo Saborido e está reproduzido em cartazes gigantes na exposição Ouro Branco; em São Paulo as figuras estão coladas na praça Benedito Calixto; em Recife, na Loja Avesso; e no Rio de Janeiro, na Artur Fidalgo galeria. A exposição chega a Paris em junho, em muros próximos ao rio Sena.

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- Derlon no Facebook: acompanhe o artista no Facebook e veja mais fotos de seus trabalhos!

-Acesse o site de Derlon Almeida e conheça outros projetos do artista.


Anna Horta

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