Constantino Oliveira

Na eterna busca de si mesmo, escreve para poder se ver mais de perto.

Glenn Gould e Leonard Bernstein: quem é o chefe?

Em 1962, o maestro Leonard Bernstein responde sobre quem é que manda em um concerto, o solista ou o maestro. Mas, também, nos ensina a nos posicionar diante do diferente.


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Em abril de 1962, o famoso maestro Leonard Bernstein, da New York Philharmonic, começa um concerto no Carnegie Hall, dizendo que normalmente não tem o hábito de falar nas aberturas, mas, que naquela ocasião, surgiu uma situação curiosa, que merecia ‘uma ou duas palavras’. Para essa noite, estava programado o Concerto n0 1 de Brahms para piano com o jovem e talentoso pianista Glenn Gould.

Bernstein continua a conversar com a plateia antes da apresentação: “Você estão a ponto de ouvir, devo dizer, uma performance não muito ortodoxa do concerto em ré menor de Brahms. Uma performance bem diferente do que se tem ouvido, ou, até, do que se poderia imaginar dessa peça, com o seu tempo notadamente mais lento e saindo frequentemente das indicações de dinâmicas de Brahms. Não posso dizer que estou completamente de acordo com a concepção do Sr. Gould.” Continua Bernstein: “Assim uma questão antiga permanece. Quem é o chefe (ou quem é que manda)? – O solista ou o regente?”

“A resposta é, claro, às vezes um e às vezes outro, dependendo do envolvimento das pessoas. Mas quase sempre os dois conseguem se unir por persuasão ou charme, ou até mesmo por ameaça para alcançar uma performance unificada.” Bernstein complementa dizendo: “Desta vez as discrepâncias entre as nossas visões sobre a música são tão grandes que eu me sinto obrigado a fazer esta pequena retratação.”

As análises foram diversas após o concerto. Harold C. Schonberg, um crítico musical do New York Times, interpretou a atitude de Bernstein como uma abdicação da sua responsabilidade pessoal e um ataque a Gould. Schonberg ainda questiona se o tempo do concerto não estava tão lento porque a técnica de Gould não era boa o suficiente. Bernstein sempre negou que sua intensão fosse atacar o solista. Durante toda a sua vida o maestro professou uma profunda admiração por Gould, de quem, este, sempre o teve como um grande amigo.

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Apesar das iniciais palavras de Bernstein terem sido vistas de forma negativa por alguns críticos, Gould nunca as entendeu, de nenhuma forma, como depreciativas ao seu trabalho. A intensão do maestro era de deixar claro de onde vinha a concepção daquele concerto já que havia discrepância de visões, através de uma abordagem tão diferente. Existiu, por parte de alguns desses críticos, a dificuldade para enfrentar algo novo. Quando reconhecemos diferenças fazemos distinções baseadas em pressupostos que muitas vezes estão estereotipados. Como Schonberg, queremos apenas ouvir a confirmação das nossas próprias idéias e nos recusamos a ver o próximo quando há discrepância de opiniões. Perdemos a capacidade de dialogar, e, por conseguinte, de aprender com o outro. Ao invés de permanecermo-nos aberto e flexível, interpretamos as coisas a partir de um ponto de vista fixo.

Necessitamos criar novas possibilidades estéticas, culturais e tecnológicas para mudar modelos que já estão esgotados, e, para isso é necessário dialogar. O Problema é que vemos tudo preto ou branco, bom ou mau, de esquerda ou de direita, e esquecemos das diferentes possibilidades e do enorme leque de espectros coloridos que podemos ter de diferentes pessoas. Nos conectarmos com o outro não é aceitar seus ideais, mas tentar enxergar a vida através de outros olhos, de coração aberto, para poder criar nossas próprias conclusões, sem estereótipos nem preconceitos.

O próprio Bernstein, nessa pequena explanação conclui: “Então, porque eu estarei regendo esse concerto? Primeiro porque eu fiquei fascinado e feliz de ter a oportunidade de obter um novo olhar sobre esse concerto que tem sido muito tocado. Segundo, porque, em determinados momentos o Sr. Gould emerge com surpreendentes frescores e convicções para essa música. Terceiro, porque todos nos podemos aprender alguma coisa desse extraordinário artista que é um pensador incrível. Por último, porque na música existe o que chamamos de elemento esportivo, o fator de curiosidade, de aventura e de experimentação.”

Na concepção do concerto, Gould foi o chefe, mas, Bernstein possibilitou a todos nós um olhar diferente sobre a música. E é isso que precisamos, diferentes olhares. Necessitamos reconhecer as idiossincrasias e dar oportunidade de serem expressadas. É importante dar um passo para trás para olhar a imagem como um todo. Deixar o outro ser o chefe, nem que seja por algum momento, possibilitando que ele se expresse, para que possamos vislumbrar novos caminhos e nos permitir vivenciar o diferente.


Constantino Oliveira

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