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Assediando seu juízo

Lucas de Paula

Diagnosticado como Publicitário. Escrever se resume a simplicidade, potência e poesia para traduzir mundos.

A bossa da nossa saudade

Foi com "Desafinado", "Garota de Ipanema" e "Samba de uma nota só" que a Bossa Nova ressoou fora do Brasil a partir dos anos 60. Nas vozes de artistas brasileiros e estrangeiros o estilo se consagrou e virou ícone da quimera brasileira pelo mundo. Mas foi com “Chega de Saudade” que a nossa “saudade” foi parar longe, para a sorte de quem gosta de balançar acima da linha do equador.


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A trupe da Zona Sul carioca em meados de 1950 talvez não fizesse muita ideia do que se tornaria o movimento desencantado por eles. Tom Jobim, Vinícius de Moraes, João Gilberto, Nara Leão e outros músicos começavam a chamar a atenção para um suingado diferente que cantava ao violão as trivialidades da vida, quase que ao pé do ouvido de tão sussurrado. Nascida na beira do mar, ela traduzia um momento de elitização da classe média brasileira que veio a descobrir a que “outras bossas” Noel Rosa se referia em seu samba de 1930, “Coisas Novas”.

O início da Bossa Nova é marcado pelo lançamento do álbum “Canção do amor demais” de Elizete Cardoso, em 1958. Nele eram apresentados Tom, Vinícius e João pela primeira vez juntos, com composições dos dois primeiros e arranjos de Gilberto. Nascia um estilo e uma jóia. A Bossa Nova irrompia suave pelos ouvidos do mundo e a primeira música do disco, “Chega de Saudade” foi no ano seguinte ser o título do álbum de João Gilberto. O trio fez associações com grandes artistas, como Ella Fitzgerald, Stan Getz, Chick Corea e Frank Sinatra.

Mais tarde, Jon Hendricks e Jessie Cavanaugh versaram a letra para o inglês. Isso não tirou o charme da música de Tom, mas não foi capaz de traduzir a marotice do Poetinha no verso que diz que “há menos peixinhos a nadar no mar, do que beijinhos que darei na sua boca”. A graça da palavra “saudade” exclusiva para nós lusófonos, não afinou tão bem na versão da música. “No more blues”, no entanto, tem mais do que a história de um boêmio que volta pra casa, leva o gingado descompromissado da nova bossa.

Cheia de poesia, a canção está no hall da fama do Grammy Awards e teve interpretações em outros estilos mas sem jamais perder a leveza. Assim como Stan Getz, parceiro de João no icônico album “Getz/Gilberto”, Dizzy Gillespie e Chick Corea também fizeram suas apresentações com “Chega de Saudade”. Independente de ser na voz de Jane Monheit, no piano de Corea ou no trompete de Dizzy a melodia deixa os intérpretes e ouvintes extasiados.


Lucas de Paula

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