conversa de botequim

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Audrey de Mattos

Formada em Jornalismo e em Letras. Doutoranda em Estudos Literários.
Fale com a autora: [email protected]

Proibido jogar comida!

Quanto custa para acordar o chimpanzé que existe em você?


Não alimente os animais.jpgHá tempos sou da opinião de que o intervalo comercial na televisão é muito mais interessante que a programação; pelo menos, muito mais divertido. Detesto parecer arrogante, mas pelo visto tenho estado certa. Chego a essa conclusão depois de ver, ainda agorinha, uma chamada para o programa Big Brother Brasil. Nela, um grupo de rapazes e moças, dentro de uma casa de vidro, expunha-se à observação dos frequentadores de um shopping center. O grupo acenava, sorria e contorcia-se para a multidão à volta, cada um se esforçando em micagens exageradas e ridículas para chamar mais atenção que os demais, aparentemente com o objetivo de angariar votos para integrar o reality show global.

Casa de vidro 1.jpg "Casa de vidro" do Big Brother Brasil 2013

Olhava para aquela casa e para as pessoas em volta dela, divididas entre observar seus chamativos moradores e sorrir para as câmeras da emissora, quando me dei conta de que faltava algo, de que a cena não estava completa. Súbito me salta aos olhos a incômoda ausência. Faltava uma placa na casa de vidro: “Favor não jogar comida para os...” Hesitei. Os o quê? Por mais que aquele bando se assemelhasse aos chimpanzés de um zoológico, lá no fundo temia fazer uma comparação injusta. Injusta com os chimpanzés, que, se pudessem opinar, decerto que não escolheriam a triste situação de se exporem como aberrações.

Zoologico.bmp Pessoas no jardim zoológico. Qualquer semelhança...

Por aí se nota como evoluiu a televisão brasileira: antes os comerciais eram apenas divertidos, agora já suscitam filosofia. Lembrei-me de um poema (de Victor Hugo, salvo engano) que diz que a pessoa deve olhar para um punhado de dinheiro e dizer “isso é meu”, para que “fique bem claro quem é dono de quem”. As pessoas na casa de vidro nunca ouviram falar desse poema ou, se ouviram, não lhe deram crédito. Estão ainda lá, neste exato instante, acenando, rebolando, tornando pública a sua cota de imbecilidade e demonstrando a quem tenha mais de dois neurônios quanto vale a sua dignidade, por que baixo preço dela se despem. Não sei quanto é o prêmio do BBB deste ano, nada que um segundinho de Google não resolva e eis a informação essencial: um milhão e meio de reais. É um montante significativo que eu mesma adoraria colocar à minha frente e protagonizar o poema de Victor Hugo, dizendo em letras garrafais – “isso é meu!” Entretanto, deveria haver um limite para o que as pessoas são capazes de fazer por dinheiro e malbaratar-se deveria estar muito além desse limite.


Audrey de Mattos

Formada em Jornalismo e em Letras. Doutoranda em Estudos Literários. Fale com a autora: [email protected]
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