conversa de botequim

prosa-poesia-cinema-tv-música

Audrey de Mattos

Formada em Jornalismo e em Letras. Doutoranda em Estudos Literários.
Fale com a autora: [email protected]

Antonio Botto, poeta e esteta

Uma característica marcante do poeta Antonio Botto é a sua qualidade de esteta. Botto, que cantava o corpo masculino como ideal de beleza apolínea, já teve sua obra relacionada a uma possível homossexualidade do autor. Neste artigo não nos preocupamos em relacionar dados da vida privada do autor a fatos da obra e analisamos, puramente, sua qualidade de esteta, servindo-nos, para isso, dos conceitos de Fernando Pessoa, apresentados em seu artigo “Antonio Botto e o ideal estético criador”, além das opiniões de Luiz Edmundo Bouças Coutinho e de estudos de João Gaspar Simões e Raúl E. Romero.


Antonio Botto chapeu.bmp

 Antonio Tomás Botto nasceu em Concavada, em 17 de julho (alguns livros trazem 17 de agosto) de 1897 e morreu em 16 de março de 1959, no Rio de Janeiro.  Seu primeiro livro de poesias foi Trovas, publicado em 1917. Sua aparição literária deu-se de modo “escandaloso”, devido ao conteúdo irreverente de seus poemas.  Não publicou na revista Orpheu, talvez porque não tivesse 18 anos na época. Mas colaborou nas revistas Athena, A África, Contemporânea, Presença e em outras.  Escreveu teatro e contos. Seu livro de contos (Os contos de Antonio Botto, para crianças e adultos, 1924) parece querer compensar os excessos de sua poesia. As narrativas lembram fábulas de La Fontaine ou Esopo, ou ainda, contos dos irmãos Grinn, com uma moral ingênua e cristã, que chega a ser artificial. A linguagem, de transparência, fulgor e variedade incomuns, transbordante de lirismo é o que se destaca em sua prosa. Mas impôs-se em particular como poeta.  Amigo pessoa de Fernando Pessoa, Botto tinha uma vida boêmia que não abandonou até o fim.  Sua presença na sociedade é, no dizer de João Gaspar Simões, uma questão de vida ou morte, para preservação do “eu”: não se interessa pelo outro, senão como platéia, no meio de quem possa se sentir amado e notado. Ele necessita dirigir-se a um interlocutor, mas para ser ouvido, não para dialogar.

Características de sua poesia:

 Notação, por meio de adjetivos precisos e ao mesmo tempo sugestivos, das qualidades das coisas e dos seres: Aqui, vai estrangulando Cruel, rápida, febril... Ali, mais lenta, asfixia, Cerimoniosa e meiga, Suavíssima, gentil...  Uso de formas verbais empregadas de maneira rápida e sucessiva: Adoeceu gravemente. Nunca mais saiu à rua, Sempre a tossir e a sofrer... E era a mãe que,mendigando, De porta em porta arranjava Qualquer coisa pr’a viver.

 Exteriorização de seu “eu” e de suas sensações internas através de descrições do ambiente: não comunicava diretamente as emoções de que se sentisse possuído, mas estas podem ser inferidas pelo leitor.

 Também cantava o destino: a vida que caminha, misteriosa e complexa e o homem que, em seu caminhar é impossibilitado de qualquer intervenção.  Linguagem coloquial e simples;  Exotismo exacerbado, fruto de uma rica imaginação e uma privilegiada sensibilidade;  Seus poemas cantam, invariavelmente, súplicas, desalentos, gritos de triunfo e uma complicada rede de movimentos psicológicos a que o amor obriga – para ele o amor é o mais forte e avassalador dos sentimentos. Mas fala de um amor humano e egoísta.  Botto canta, ostensivamente, o que muitos escondem a vida toda ou mascaram. O objeto inspirador de muitos de seus poemas é o sexo masculino. Canta o corpo masculino por ser o que mais elementos de beleza pode acumular (há três formas com que podemos conceber a beleza física: a graça, a força e a perfeição. A perfeição, se existe, é dada aos deuses; o corpo feminino só tem a graça, porque a força lhe tiraria a feminilidade. Já o corpo masculino pode reunir a graça e a força sem a perder a masculinidade). Exalta a beleza masculina num tom apolíneo e, cantando essa beleza física, o poeta se afasta de toda espécie de moralidade.  Escolha severa dos momentos representativos – tudo é pensado, crítico e consciente. Sua poesia é serena, fria. Qualquer grito nela é calculado para um certo efeito.  Fernando Pessoa aponta Antonio Botto como o único exemplo em Portugal capaz da realização literária do ideal estético. O ideal estético é das formas mais tênues e vazias do ideal helênico e por isso a mais representativa.

haicais de apolo.jpg

Antonio Botto, artista e esteta

Nossa intenção, nesse trabalho é apresentar o poeta Antonio Botto em sua característica peculiar, a de esteta. Para isso, utilizamos principalmente os conceitos de Fernando Pessoa, apresentados em seu artigo “Antonio Botto e o ideal estético criador”, além das opiniões de Luiz Edmundo Bouças Coutinho (2004), estudos de João Gaspar Simões (1931) e de Raúl E. Romero (2008). Como características gerais, a obra de Botto apresenta, no dizer de Romero (2008), “um canto desmedido à tolerância sexual e poética”. Para o autor, o poeta descreve, “como nenhum outro, suas fantasias, suas ânsias e, sobretudo, o objeto desejos”. É um poeta que canta o amor “com paixão e desmesura, com ironia e com raiva, com violência e ternura” mas sempre com profunda beleza. Por essa particularidade Romero ainda o aponta como “a voz diferente” e afirma que Botto é “um poeta valente, um poeta-homem, um poeta-criança, um poeta-alegria, um poeta-dor, um poeta-poeta”, capaz de converter a ferida em zombaria. Para Luiz Edmundo Bouças Coutinho (2004), Botto era um celebrador da beleza que possuía uma “habilidosa cadência rítmica do verso livre”. A poesia de Botto suscitou vários escândalos, por seu cunho homoerótico e pela “contemplação física do masculino” Esse esteticismo de Botto, “visceralmente deslocado da ética”, assumiu o desafio de, homoeroticamente, “ampliar a listagem do belo”. (COUTINHO, 2004). É em relação a esse esteticismo deslocado da ética que nos pronunciaremos mais detalhadamente, sob a visão de Fernando Pessoa (“Antonio Botto e o ideal estético criador”) do que seja o ideal estético de Antonio Botto. Para Pessoa o esteta é “o homem que faz consistir na contemplação da beleza [...] o seu ideal todo”. Por concentrar seu ideal nessa contemplação é que não admite “nem elementos intelectuais, nem morais, nem elementos de qualquer ordem que não seja a contemplativa”. Assim sendo, se o esteta é alguém contemplativo então não é artista, pois o artista é criador. Para Fernando Pessoa, no entanto, Botto é “evidentemente criador, pois que é artista, e também demonstravelmente o tipo do esteta. Consubstancia-se com o tipo de que se afasta (grifo nosso). Para explicar o ideal estético a que Botto se afina, Pessoa aborda os três critérios de comparação, a partir dos quais nascem os diferentes tipos de ideiais.

Ideal apolíneo: ideal harmônico; fusão de equilíbrio e harmonia quando algo é comparado a si mesmo para se determinar sua perfeição.

Ideal dionisíaco: é ideal a vida “em qualquer expansão, violenta ou desvairada”, que se exceda. É um ideal de embriagues da vida, por isso dionisíaco.

Ideal cristão: é ideal a vida que transcenda em qualidade, que se oponha a si mesma em natureza.

Esse dois últimos ideais nascem da comparação da vida com uma vida superior. Um é quantitativo, outro qualitativo. No primeiro a vida é pouca, no segundo a vida é pouco. São ideais idênticos “pela igual origem e pelo modo igual em que se diferenciam do ideal apolíneo”; são opostos, porém, na forma (o côncavo e o convexo da mesma superfície curva).

Ideal caótico e ideal búdico: Nascem da comparação da vida com algo totalmente diferente, outra vida. Como a morte é o que há de substancialmente diferente da vida, ou “não há senão morte, e a mesma vida é morte, ou o que chamamos morte é a verdadeira vida”. Se não há senão morte, “a vida é vida só por aparência”, é uma “morte falsificada”. Tudo é nada, o Nada é tudo. O ideal resultante disso é não haver ideal possível. Como o Caos define a essência desse critério, chama-se ideal caótico. Por outro lado, se a morte é a verdadeira vida, nosso ideal é uma vida que é a negação dessa, a não-vida. Como a nossa vida é matéria e consciência, a vida ideal será espírito e inconsciência. Como isso está expresso no Nirvana dos budistas, esse ideal recebe o nome de ideal búdico. A qual desses três ideais a poesia de Antonio Botto está atrelada? Conforme Fernando Pessoa, o ideal artístico se identifica com o ideal apolíneo por sua natureza, pois que é o único ideal cuja manifestação natural é a obra de arte. Para o homem do tipo contemplativo, a vida ideal é essa mesma vida, porém o mais perfeita possível. A única coisa que lembra a perfeição é a beleza, para o apolíneo o ideal consistirá “na contemplação particular da beleza”. Se é um ideal contemplativo, a moral, o dever e a glória não importam, pois contêm ação. A esse ideal Fernando Pessoa chama o ideal estético. Ainda conforme Pessoa:

A obra de Antonio Botto ajusta-se geometricamente a tudo quanto seria de se esperar da obra de um esteta. Canta a vida, mas nas mesmas palavras em que a canta, a renega; o que sente nela de belo é o que dela se perde. Canta, indiferentemente, o corpo feminino e o masculino; se qualquer deles é belo, o que é, para o esteta, que os distingue? Desde que belos, animam-no tanto os heróis como os criminosos. Para Antonio Botto, a chuva é tão bela caindo sobre o campo do justo como do injusto, por isso, sua estética tão amoral e original.

Antonio Botto cançoes capa.jpg

BIBLIOGRAFIA

BOTTO, Antonio. As canções de Antonio Botto. Lisboa: Livraria Bertrand. (1. v. das obras completas).

BOTTO, Antonio. Os contos de Antonio Botto. Lisboa: Livraria Bertrand. (2 v. das obras completas)

COUTINHO, Luís Edmundo Bouças. “Antonio Botto e as espessuras do esteta”. Metamorfoses, n. 5, p. 195-204, Lisboa/Rio de Janeiro, 2004.

MARTINHO, Fernando J. B. Pessoa e a moderna poesia portuguesa (do Orpheu a 1960). Lisboa: Instituto de cultura e língua portuguesa, 1983.

MOISÉS, Massaud (org). Literatura portuguesa moderna. São Paulo: Cultrix, 1973. (pp 31-2).

NEVES, João Alves das. Poetas portugueses modernos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1967 (pp 56-60).

PESSOA, Fernando. “Antonio Botto e o ideal estético creador”. In: BOTTO, Antonio. As canções de Antonio Botto. Lisboa: Livraria Bertrand. (1. v. das obras completas).

______ “Antonio Botto, o poeta das canções eternas”. In: BOTTO, Antonio. As canções de Antonio Botto. Lisboa: Livraria Bertrand. (1. v. das obras completas).

PESSOA, Fernando. “Antonio Botto e o ideal estético”. In: ______ Páginas de doutrina estética. Lisboa: Editorial inquérito. (pp 47-66).

REGIO, José. “Duas palavras”. In: BOTTO, Antonio. As canções de Antonio Botto. Lisboa: Livraria Bertrand. (1. v. das obras completas).

ROMERO, Raúl E.. “Antonio Botto: a voz diferente”. Tradução do texto do autor intitulado Äntónio Botto, la voz diferente”. http://sincronia.cucsh.udg.mx/botto.htm. Último acesso em 09/07/2008.

SIMÕES, João Gaspar. “A fatalidade na poesia de Antonio Botto”. In: ______.O mistério da poesia. Coimbra: Imprensa da universidade, 1931.


Audrey de Mattos

Formada em Jornalismo e em Letras. Doutoranda em Estudos Literários. Fale com a autora: [email protected]
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/artes e ideias// //Audrey de Mattos