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Audrey de Mattos

Formada em Jornalismo e em Letras. Doutoranda em Estudos Literários.
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Meu vizinho ou... Meu amigo Totoro

Bruna Marcheti, estudante de História, oferece uma análise sensível e, ao mesmo tempo, vibrante, do filme Meu amigo Totoro, que também pode ser encontrado sob a versão Meu vizinho Totoro. Um olhar que enriquece a nossa própria leitura de espectadores do filme.


Hello Kitty, Pokémon, Dragon Ball, Os Cavaleiros do Zodíaco, Digimon, Hamtaro, Sakura Card Captors. Muitos dos grandes ícones do universo infantil ocidental têm proveniência japonesa. E a lista se prolonga muito. Se prestarmos atenção à cultura das crianças, perceberemos a presença marcante, até hegemônica, de elementos do Japão, especialmente nas animações. Estranhamente, isso nos passa despercebido muitas vezes. Mas a influência existe e nota-se não apenas sobre o imaginário das crianças, mas sobre toda uma produção artística de gerações.

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Há quem diga que a preferência pelas animações japonesas (animes) entre crianças e adultos se deve ao fato de elas serem mais inovadoras do que reprodutoras de fórmulas que deram certo. Nesse sentido, é fácil entender o prestígio mundial dos filmes de Hayao Miyazaki, um dos maiores e mais respeitados criadores de animes. Sua obra é marcada por enredos e personagens absolutamente criativos e originais. O longa Meu Amigo Totoro, de 1988, foi seu primeiro grande sucesso e não foge à regra. Conquistou pessoas de todas as idades mundo afora e introduziu definitivamente o anime no cenário cinematográfico.

Da imaginação de Miyazaki saiu uma das criaturas que mais marcou o mundo das animações: Totoro, um espírito habitante e protetor da floresta. Parece ser um híbrido de diversos animais: tanukis (versão japonesa do guaxinim), gatos e corujas. A história do filme tem início quando a família Kusakabe, composta pelo pai e duas irmãs, muda-se para uma casa na zona rural do Japão para ficar mais próxima da mãe, internada no hospital da região. Nas redondezas da nova residência existe uma floresta, onde vive Totoro. Mei, a irmã mais nova, de quatro anos, é a primeira a encontrá-lo e se afeiçoa imediatamente. Depois é a vez de Satsuki, e as irmãs acabam amigas da criatura. O nome Totoro vem da pronúncia errada de Mei da palavra torōru que, em japonês, significa troll.

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Uma série de interpretações circunda Meu Amigo Totoro, principalmente por seu caráter um tanto assustador e intrigante, já que as criaturas principais são envoltas em um clima de mistério que é acentuado pelo fato de não se saber nada sobre elas. Não é nem possível saber se elas de fato existem. O filme flerta abertamente com os limites entre realidade e ilusão e a cada momento conduz o telespectador a uma opinião diferente sobre o que de fato está ocorrendo na história de Mei, Satsuki e Totoro: qual é o significado dos seres fantásticos? Como se faz o acesso a eles? Nem mesmo no final é dado um veredicto; o clima de mistério e incerteza permanece. Entretanto, é certo que as interpretações acerca da animação são centradas em um fato inquestionável e fundamental: apenas Mei e Satsuki podem ver as criaturas da floresta. A questão é: por quê?

A primeira parte do filme, na qual Totoro aparece pela primeira vez, sugere a ideia da imaginação fértil comumente associada às crianças. Quando as duas miniaturas de Totoro aparecem em frente à sua casa, Mei segue as avelãs que elas deixam para trás e entra na floresta. No fim da trilha em que caminhava, há uma grande árvore com um buraco, no qual Mei cai por um túnel e encontra o grande Totoro, e adormece em sua barriga felpuda. No entanto, quando Satsuki segue a mesma trilha para procurar a irmã, encontra-a adormecida em uma clareira, no chão. Mei acorda confusa, parece ter imaginado as criaturas que seguiu e sonhado com o grande Totoro. Isso pode ser estendido para todo o filme em uma possibilidade interpretativa: pode ser que tudo o que foi visto e vivido pelas meninas durante toda a animação tenha sido fruto de suas imaginações. Ninguém mais vê as criaturas e elas não deixam evidências de que existem.

O tema das fantasias criadas pelas crianças é recorrente. O grande exemplo disso é a animação Alice no País das Maravilhas, de 1951, baseada na obra de Lewis Carroll. O comportamento curioso de Mei é exatamente igual ao de Alice: ambas perseguem criaturas fantásticas, sofrem uma queda ao entrarem em um buraco e deparam-se com uma realidade paralela. Contudo, enquanto vivem suas aventuras, estão dormindo em meio à natureza. A diferença é que, no caso de Alice, a história é comprovadamente um sonho.

Parece também se tratar de uma situação onírica quando as irmãs acordam no meio da noite e veem Totoro e suas duas miniaturas fazendo uma espécie de ritual em torno do terreno no qual a família plantou árvores. Mei e Satsuki vão até lá e os auxiliam: as plantas começam a se desenvolver instantaneamente, formam uma árvore que toma dimensões gigantescas e o grande Totoro as leva, voando e brincando, ao topo. O pai das meninas está acordado e, quando olha na direção do terreno, não parece perceber anormalidade alguma. No dia seguinte, quando elas acordam, as plantas haviam apenas brotado. Desse modo, novamente a situação parece ter sido fruto da imaginação das duas crianças, quer durante um sonho, quer não.

Em Coraline e o Mundo Secreto, stop-motion de 2009 baseado no romance de Neil Gaiman, a trajetória da protagonista se assemelha, também, à de Mei. Coraline descobre uma porta em sua casa que leva, através de uma passagem, a um universo paralelo. Curiosa, Coraline transita entre esses dois mundos em uma aventura fantástica. Quando volta definitivamente à sua vida cotidiana, seus pais não parecem ter notado a sua ausência nem mesmo a participação deles próprios no que Coraline viveu. Desse modo, a impressão que é passada ao telespectador é de que talvez toda a história tenha sido fantasiada por Coraline – assim como o pai das irmãs em Meu Amigo Totoro não percebe nada do que supostamente ocorria de sobrenatural, mesmo as meninas contando a ele suas aventuras com Totoro e os outros seres.

No caso de Mei e Satsuki, o recurso da imaginação e da fantasia, além de ser natural na fase etária que vivem, poderia servir como válvula de escape à situação dolorosa que sofrem. A doença da mãe preocupa e aflige as duas irmãs de tal forma que, quando a família recebe um telefonema do hospital, ambas pensam o pior e entram em desespero – Mei até foge de casa em busca do caminho para encontrar a mãe. Pela mesma lógica, no filme O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus, de 2009, o público paga para utilizar o dom de doutor Parnassus. Ele é capaz de transportar as pessoas para um mundo fantasioso regido pela imaginação, onde tudo funciona de acordo com o que a mente de quem o adentra arquiteta ou deseja. As duas irmãs de Meu Amigo Totoro encontram na criatura a alegria e a tranquilidade que desejam e que suas vidas não podem lhes proporcionar no momento. Assim, distraem-se e esquecem-se dos problemas que as açoitam cotidianamente.

Por outro lado, toda a animação pode ser interpretada não com base nas fantasias infantis, e sim na tão nostálgica pureza das crianças, na capacidade que os adultos reservam a elas de poder enxergar o mundo com ingenuidade e admiração. Talvez Totoro e o gato-ônibus realmente existam na trama, mas apenas os olhos de uma criança, ainda não calejados pelo ceticismo e pelo funcionalismo, tenham o poder de enxergá-los. O livro O Mundo de Sofia, de Jostein Gaarder, desenvolve a ideia de que a capacidade das crianças de se admirar com o mundo é essencial para que o percebam com mais sensibilidade, de forma múltipla:

Vamos resumir: um coelho branco é tirado de dentro de uma cartola. (...) Todas as crianças nascem bem na ponta dos finos pelos do coelho. Por isso elas conseguem se encantar com a impossibilidade do número de mágica a que assistem. Mas conforme vão envelhecendo, elas vão se arrastando cada vez mais para o interior da pelagem do coelho. E ficam por lá. Lá embaixo é tão confortável que elas não ousam mais subir até a ponta dos finos pelos. [...]

Para a elaboração da história, Miyazaki se baseou no xintoísmo – uma filosofia japonesa que propõe, entre outras coisas, o culto à natureza, aos antepassados. Nesse sentido, o filme traz à luz um forte aspecto da cultura japonesa. Totoro é a forma animada que representa os espíritos e as energias da floresta que habita. Assim, partindo da crença xintoísta, tanto Totoro quanto suas miniaturas e o gato-ônibus existem, estão de fato habitando aquele lugar. Porém, são invisíveis aos olhos. Alguns trechos do filme podem servir de exemplo a tal hipótese.

Em certo momento, Mei e Satsuki ficam preocupadas com a demora do pai em voltar para casa e vão esperar por ele no ponto de ônibus. A chuva intensa, a chegada da noite, o ambiente deserto e a demora assustam as meninas, que passam a sentir muito medo. Então, Totoro aparece e as conforta com sua presença, simplesmente. Ademais, faz a chuva parar. Em seguida, após o que parece ter sido o cumprimento de uma missão, vai embora de carona com o gato-ônibus, que aparece repentinamente na cena. Aliás, o personagem é clara reminiscência do gato de Chesire de Alice no País das Maravilhas: além da aparência semelhante, o gato aparece quando menos é esperado e funciona como um guia. Logo que Totoro vai embora, o ônibus do pai das meninas chega e elas demonstram a ele o alívio em vê-lo e a alegria por terem estado na presença de Totoro. Durante essa comemoração, um sapo que estava próximo às irmãs o tempo todo parece também estar satisfeito. Nesse episódio, as criaturas que aparecem estão representando claramente o espírito da floresta – desde um pequeno e concreto sapo até a grande abstração que é Totoro. Estão ali para protegê-la e para proteger Mei e Satsuki a qualquer momento. Como se a família não corresse perigo enquanto estivesse no ambiente dos espíritos, pois eles estão ali o tempo todo. Em uma situação análoga à do filme, no livro O Pequeno Príncipe, de Saint-Exupéry, o narrador conta a famosa história do desenho que fez de uma jiboia engolindo um elefante. Os adultos não foram capazes de identificá-lo de tal forma, tinham uma visão limitada que não é característica das crianças. Do mesmo modo, no anime, os adultos não conseguiriam enxergar a forte presença espiritual que envolve a floresta, além do concreto.

O filme dá, ainda, outros indícios de que o espírito da floresta está presente e ativo na proteção de Mei e Satsuki. Durante uma chuva forte, as irmãs se abrigam em uma espécie de casinha de madeira que, na tradição budista, é geralmente erguida em memória da morte de uma criança. Nessa pequena construção, há a figura de uma deidade protetora das crianças. É como uma mensagem tranquilizadora: existe algo zelando pelas duas irmãs, elas não estão sozinhas. Como reforço, quando Satsuki encontra Mei após sua fuga, a caçula está sentada em frente a seis estátuas das mesmas deidades budistas.

Porém, estes mesmo indícios dão margem a uma interpretação diferente, pois as figuras divinas representam, ao mesmo tempo, guardiões de crianças e patronos de crianças falecidas e fetos abortados. A aparição dessas deidades simbolizaria a morte de Mei, ou a sua iminência. Totoro, além disso, seria uma espécie de anjo da morte: só poderia enxergá-lo quem estivesse morto ou próximo a isso. Isso explicaria o fato de, no final do filme, apenas a mãe das meninas (e não o pai) perceber alguma presença do lado de fora do hospital. A interpretação é reforçada por um incidente ocorrido nos anos 50 na cidade de Sayama, onde também se ambienta a história. Uma garota desapareceu e sua irmã mais velha passou a procurá-la, bem como o que acontece no filme. Quando foi encontrada, a caçula já estava morta. Acredita-se que a história de Meu Amigo Totoro tenha sido inspirada nesse incidente, mas Miyazaki nega qualquer vínculo ou intenção desse tipo. Há vários outros detalhes do filme que são usados para corroborar tal interpretação que, em geral, não se sustenta em comparação com os outros significados atribuídos ao filme.

Em paralelo com a pureza das crianças está a pureza de uma vida simples. A animação de Miyazaki é uma apologia à simplicidade e à natureza. Os Kusakabe buscaram um novo lar, e o encontraram em um ambiente tranquilo e rústico. O público infantil, ao qual o filme é voltado, assiste a uma história na qual há companheirismo entre os vizinhos, estrutura familiar harmoniosa e sólida, liberdade (as meninas vão e voltam pelo local) e um contato direto com a natureza que transcende a materialidade. Mei e Satsuki amam Totoro, amam o espírito da natureza, simbolizando a convivência de equilíbrio e harmonia entre o mundo dos homens e mundo da natureza. Miyazaki explicita esse objetivo:

Eu fiz [o filme Meu Amigo Totoro] na expectativa de que as crianças o veriam e de que depois sairiam para correr pelos campos e recolher avelãs. Ou, uma vez que temos apenas poucos espaços sobrando, que elas brincariam nos bosques atrás de santuários, ou que ficariam empolgadas enquanto espreitassem nos estreitos espaços embaixo de suas casas. Foi por isso que eu fiz o filme.

Hayao Miyazaki, afinal, é um grande defensor do meio ambiente e de sua interação responsável com a sociedade. É tão marcante a temática da natureza no anime em questão que o personagem Totoro tornou-se símbolo da campanha Totoro’s Forest13, que visa à preservação das florestas da cidade de Sayama. Outros filmes de Miyazaki trazem essa temática e denunciam a ação do homem em desarmonia com a natureza, como é o caso de Ponyo: Uma Amizade que Veio do Mar, de 2008.

O sucesso de Meu Amigo Totoro foi tamanho que o personagem principal também foi eleito o logotipo do Estúdio Ghibli, cujo co-fundador é Miyazaki. E a influência de Totoro se estende para o mundo das animações até os dias de hoje: a criatura mereceu também um papel entre os brinquedos no terceiro filme da franquia Toy Story.

Miyazaki é referência no campo da animação cinematográfica e Meu Amigo Totoro representa um marco, tanto na carreira do diretor quanto na história das animações. É uma história infantil, simples, mas que, ainda assim, permite uma série de leituras que não excluem umas às outras e que extravasam as intenções de seu criador. Totoro pode existir apenas na cabeça imaginativa das crianças, pode ser um protetor ativo das florestas ou uma espécie de ceifador. Em todos os casos, o que se vê é que o filme até hoje conquista o público familiar, mesmo após vinte e quatro anos de seu lançamento. Afinal, não há tecnologia que desbanque a criatividade de uma boa história.

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Audrey de Mattos

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