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Audrey de Mattos

Formada em Jornalismo e em Letras. Doutoranda em Estudos Literários.
Fale com a autora: [email protected]

Poesia no século XXI: rumos

O poeta contemporâneo ainda tem com que se espantar?


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Falar da poesia contemporânea, esta que está aí, sendo produzida neste exato instante, é pensar nas mudanças que, de Aristóteles aos vanguardistas do século XX, transformaram a forma conhecida por poesia em território do heterogêneo: grotesco e sublime, temas elevados e temas cotidianos, linguagem polida e palavreado chulo, tudo convive na poesia contemporânea, nem de longe pacificamente, pois que o estranhamento e o (des)entendimento que assomam à alma de quem lê dão conta de que a atual poesia não veio para repousar (nem deixar repousar) em margens plácidas.

Claro que essa não é uma prerrogativa da moderníssima poesia – moderno aqui no sentido de atual. Não. O uso da lingua- gem como ferramenta para transpor o real, ir além do mimetismo aristotélico, tem raízes muito mais profundas. O desconhecido – que é incomum e estranho para a tradição – é o campo de indagação para o alargamento da experiência sensível do poeta moderno (aqui, com moderno me refiro ao poeta de fins do século XIX e começo do XX). Esse poeta moderno é o que assume a criação poética como “um contínuo exercício de pesquisa formal”, diz Tereza Cabañas, em seu A poética da inversão.

Trata-se então de “ouvir o inaudível e ver o invisível”, conforme a fórmula clássica baudelairiana. A linguagem poética, até então mero instrumento de reprodução da realidade, “reclamará uma maior autonomia em relação à normatividade do mundo, reivindicando assim algo que parecia impossível: a capacidade de transfigurar o real e integrar-se ao mundo como elemento constitutivo deste” (Cabañas).

Com Rimbaud tal transfiguração alcança níveis inusitados. O poeta vidente vê não mais o invisível, mas o que não existe, e Mallarmé caminhará rumo a uma irrealidade sensível, “um desejo de absoluto que se aproxima do nada” (Cabañas).

Tal poesia, que enxota de si o reconhecimento e a familiaridade, diluindo-os em imagens estranhas que se realizam como pura linguagem, configura-se obscura, impenetrável, desconfortável. Para Maria Lúcia Dal Farra, tal ilegibilidade incorpora “uma postura de resistência aos discursos dominantes, na medida em que se refrata ao leitor e ocasiona uma mutação na experiência de leitura”.

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Mário de Andrade dirá que os “poetas modernistas”, assim como “os verdadeiros poetas de todos os tempos” (Homero, Virgílio, Dante), cantam a época em que vivem e que a “modernizante concepção de poesia” (de então) levou a dois resultados. O primeiro, o respeito à liberdade poética, teve como consequência a “destruição do assunto poético”, de forma que tudo pode ser cantado pela poesia: “A impulsão poética é livre, independe de nós, independe da nossa inteligência. Pode nascer de uma réstia de cebolas como de um amor perdido”. O segundo resultado, a reintegração do poeta na vida de seu tempo, é talvez consequência direta do primeiro.

Ainda Mário de Andrade, desta vez em seu “Prefácio interessantíssimo”, alinhado com a tradição da ruptura, para usar o termo de Octavio Paz, que libertou a linguagem poética de sua função mimética, declara: “Fujamos da natureza!”. O belo da arte, por ser arbitrário, convencional, transitório, não pode arrogar-se o poder de reproduzir o belo natural, imutável, objetivo, natural, sem, na realidade, o deformar. O belo artístico, para Mário de Andrade, “será tanto mais artístico, tanto mais subjetivo quanto mais se afastar do belo natural”. “Outros infiram o que quiserem”, finalizou Mário no mesmo prefácio. Pouco lhe importava. Em seu “A escrava que não é Isaura”, dirá que não é a sensibilidade do artista que tem que se rebaixar à do leitor, mas o contrário: o leitor é que deve elevar-se à sensibilidade do poeta.

Tal é o estado de coisas de que é herdeira a poesia do século XXI: a linguagem poética não se limita mais à mera reprodutora do real. A aparente falta de elos com o exterior causa estranheza ao leitor, que se sente incapaz de decifrar esse novo código, que lhe parece hermético, obscuro – absurdo.

Nos anos 1950, a consciência de que sem público a arte não sobreviveria dá início à preocupação com os níveis de comu- nicabilidade das formas estéticas. A necessidade de se estreitar o contato entre poesia e público – observada por João Cabral de Melo Neto em “Da função moderna da poesia” –, o conhecimento do papel dos meios de comunicação na sociedade, a consolidação da indústria cultural e da sociedade de consumo encaminharão a poesia para fora dos cânones consagrados pela tradição estética moderna: a linguagem poética passará a ser mediada pelos meios tecnológicos de comunicação de massa.

Do poema enterrado ao poema digital, a poesia incorporará tantas e tão variadas formas de expressão que levarão Antonio Cicero a afirmar, em fins da primeira década do século XXI: “Não há mais vanguarda”. “Qualquer fetichismo residual em relação a qualquer forma convencional da poesia” foi eliminado e “a consequente relativização de todas as formas tradicionais de poesia” afeta todos os poetas pós-vanguarda.

É, portanto, nesse contexto pós-vanguardista que se inserem os poetas atuais. Pesa sobre eles, entretanto, o fardo anunciado por Cicero: o de que nada mais é novo, não há o que se inventar. Resta, talvez, o espanto gullariano. Mas, sem novidade, sobre que versará a novíssima poesia? Gullar já respondeu a essa pergunta antes e talvez a resposta continue sendo válida. Antes dele, já Mário de Andrade detectara o fim do “assunto poético”. Tudo pode ser poesia. Ferreira Gullar decretou: poesia não é filosofia nem ciência. “A verdade da poesia é a que comove”. Incoerente, a poesia sempre começa do zero, mostrando “em cada verso, em cada metáfora, a atualidade do atual” e não serve senão para reafirmar “nosso espanto e a nossa frágil humanidade”, diz Gullar.

Motivos de espanto, eis que não faltam, a desafiar nossa frágil humanidade. Fértil, portanto, é o terreno em que se fecunda e se consolida a poesia do século XXI. Ela segue experimentando a linguagem, tentando “transformar em verbo o vivido”, como sempre fez. Segue bebendo do antigo, do novo e criando um novo-novo. Se é certo que não há mais vanguardas, o mesmo não se pode dizer do novo. Mário de Andrade resumiu perfeitamente a receita da eterna juventude da poesia: “É por seguirem os velhos poetas que os poetas modernistas são tão novos”. E Ferreira Gullar rematou:

cada coisa está em outra

de sua própria maneira

e de maneira distinta

de como está em si mesma [...]

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Artigo completo originalmente publicado na Revista Fórum de Literatura Brasileira Contemporânea sob o título: "Poesia 00: um olhar sobre Parte alguma, de Nelson Ascher"


Audrey de Mattos

Formada em Jornalismo e em Letras. Doutoranda em Estudos Literários. Fale com a autora: [email protected]
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