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Audrey de Mattos

Formada em Jornalismo e em Letras. Doutoranda em Estudos Literários.
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Avant!

...seu corpo se ressentia do contato com a mulher embaixo de si, o suor os empapava, mas sentia uma premência qualquer, algo a exortá-lo...


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Os joelhos ardiam no chão áspero, olhava para o chefe que falava, parecia que a boca se movia sem que nenhum som ultrapassasse a barreira dos dentes muito brancos e irregulares, apetecia-lhe soltar a gravata, sufocava-o, os joelhos queimavam, mas olhava em frente e as grandes nádegas redondas, empinadas, o instigavam, inclinou o corpo para a frente, forçou-se a prestar atenção, você vai ser o nosso homem lá fora, Hong Kong, New York, Camberra, as nádegas brancas, entreabertas, era só olhar para a frente, mas é preciso superar as metas, você sabe, atingir é com os medíocres, socava as nádegas com vigor renovado, sentindo prazer na injúria e a pontada no útero reverberava por todo o corpo, contraía os músculos na esperança de minimizar os golpes, soltava um gemido abafado, o golpe vinha de novo, seco, alongado, penetrando fundo, como se desejasse desvendar algo, ergueu uma das mãos, passou-a, aflita, pela coxa, soprou-a, apoiou-a de volta no chão e repetiu o gesto com a outra, mexeu-se devagar procurando mudar o ponto de apoio, as palmas e os joelhos fustigavam-lhe mas gostava de dar-lhe o acalanto do seu corpo, oferecer-se-lhe de modo impudico, quase vulgar, moveu-se sinuosamente de encontro aos golpes e gemeu mais alto até sentir que algo lhe escapava, a dor diminuindo, as coxas mornas e viscosas...

Ele gostava que ela se desse assim, como uma vadia, em lugares inusitados. Nos joelhos pequenos furinhos vermelhos provocados pela pressão de minúsculas pedrinhas do chão, as bordas das palmas queimando mas as mãos dele nos seus cabelos...

Os cabelos dela perto do seu nariz, passava-lhes os dedos distraído, as metas é que não se podiam superar, alcançá-las já era tão difícil, mas havia um mundo lá fora, estendido além delas, malditas, O corpo que se enroscava ao seu o esquentava, esquivou-se de leve para o lado, Está quente.

Bem aventurados os pobres de espírito porque deles será o reino dos céus, ninguém terá a sua recompensa nesse momento a que chamam agora, tudo na vida era uma questão de depois. O paraíso assim era e os santos fiscalizavam para garantir que tudo se cumprisse fora dos prazos, exigiam, antes, fervorosas preces, os joelhos a queimarem, para então deliberar sobre o merecimento de quem rogava. Podia ser um dia quente em que ele estaria atribulado com qualquer coisa e o seu corpo não suportaria contatos, então ele quereria que virasse de costas, roçaria a pele muitas vezes, mas só de passagem e o contato áspero dos pelos curtos aparados com a máquina de barbear a faria avermelhar. Mas sempre haveria os dias frios, ou mornos, ou apenas os dias, e o seu peito se ofereceria ao repouso da cabeça, o seu nariz se enterraria por entre os fios do cabelo e suspiraria, os seus braços envolveriam o corpo.

Está quente. Como será o clima em Camberra?

Camberra era quente e longe.

Camberra é quente e longe. Mas era só fechar alguns negócios, apertar algumas mãos, tirar uma foto com um canguru calçando luvas de boxe e atirar-se para o mundo que o aguardava, as metas agonizantes, incapazes, então, de detê-lo, malditas, O lado do corpo onde a mulher estivera encostada esfriava, estendeu as mãos, New York ali estava, alongou os dedos, a cidade riu se afastando, procurou-lhe os recantos secretos, eram úmidos, tornou a estender as mãos, basta olhar à frente, beijou as palmas avermelhadas da mulher, de quatro não posso mais, doem-me os joelhos e as mãos e além disso preciso de sentir o seu corpo, o seu hálito e beijar a sua boca, preciso sentir que não importa o calor, pensou mas não disse, apenas mostrou as palmas sorrindo, assim parecia que era ela que cedia, o corpo se recostando para receber-lhe peso, as pernas entreabrindo-se desejando recebê-lo, gemeu de encontro ao ouvido dele, muito baixo, um gemido rouco e morno, quente, estava quente, seu corpo se ressentia do contato com a mulher embaixo de si, o suor os empapava, mas sentia uma premência qualquer, algo a exortá-lo, entre ele e o mundo só existiam as metas.


Audrey de Mattos

Formada em Jornalismo e em Letras. Doutoranda em Estudos Literários. Fale com a autora: [email protected]
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