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Audrey de Mattos

Formada em Jornalismo e em Letras. Doutoranda em Estudos Literários.
Fale com a autora: [email protected]

A costureira, o humorista e o universo insuspeitado de uma jovem contista

... e eis que me chega às mãos um novo texto de Bruna Marcheti, um pequeno escrito equilibrado numa frágil linha entre o conto e a crônica.


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Recentemente tive oportunidade de ler uma resenha sobre o longa de animação Meu amigo Totoro, de autoria de Bruna Marcheti de Mattos. Impressionou-me a qualidade da análise, a perspicácia com que se captaram os momentos essenciais do filme e não pude evitar de comentá-la e publicá-la na íntegra, aqui, neste espaço. Dedico boa parte do meu dia fuçando o que se anda escrevendo por aí e eis que me chega às mãos um novo texto de Bruna Marcheti, um pequeno escrito equilibrado numa frágil linha entre o conto e a crônica. O título atraiu-me de imediato: "A costureira e o humorista". Remeteu-me àquela categoria de títulos que costumam arrebatar-me - O carteiro e o poeta, a ostra e o vento, a borboleta e o escafandro. Devorei de uma só dentada, engoli inteiro. Já acabou? Querendo mais, desejando saboreá-lo ainda, reli, desta vez mastigando devagar, rolando as palavras na boca, sentindo o sabor que vinha da articulação entre elas. Usando com parcimônia calculada recursos como a ironia, Bruna Marcheti vai desenhando a vida num quadro emoldurado pela presença mal dissimulada da morte à espreita da menor distração. Pinta um universo insuspeitado de sonhos e planos entre os velhinhos de um asilo, cria uma atmosfera de afeto, rescendendo a café e broa de milho. Chega-se ao final da leitura de olhos secos - apesar do universo abordado, não há pieguices tentando arrancar suas lágrimas - mas de coração inundado por uma sensação de conforto. O conto-crônica está reproduzido abaixo, na íntegra. Enjoy it!

"A costureira e o humorista"

(de Bruna Marchetti de Mattos, na Primavera de 2010)

Joaquim Anedota, duplamente viúvo, estava no asilo há uma vida quando descobriu seu terceiro amor em Elza Linha & Agulha. Ela havia chegado há pouco tempo – a viuvez e dois infartos impediram-na de continuar sozinha naquela casa grande. O marcapasso não conseguiu regular as batidas aceleradas de seu coração na presença do Joaquim.

O sr. Anedota, que ironia, tinha o irremediável costume de contar anedotas – o que levava Elza à loucura!

  • Posso contar uma piada?

  • Chega, bem! Mais uma, não!

Mas, logo em seguida, cedia - ouvia a piada e gargalhava.

Passavam tardes conversando e rindo. Porém, um dia, de repente, Elza sentiu-se mal: era o coração. Foi levada ao hospital, onde ficou à beira do falecimento por quatro dias, para desespero de Joaquim – “mais uma, não!”. Mas Elza melhorou, e eles puderam voltar a seus lares.

Ela não podia mais fazer esforço. Quando antes ajudava na enfermagem, na cozinha, no artesanato, agora já não era possível – tinha de ficar deitada, ou na janela, observando o jardim e o sol. Mas contava com Joaquim, que alegrava o ambiente com histórias engraçadas . E, certo dia, ele a convenceu a fazer uma caminhada, pela primeira vez em muito tempo.

  • Vamos andar um pouco!

  • Certo... De fato, preciso articular as pernas. Vamos.

  • Ótimo. Ah, a propósito, ouvi uma anedota ontem...

Elza e Joaquim, agora, caminhavam todos os dias juntos.

Quando decidiram oficializar a união, foi um alvoroço – tanto das partes interessadas, quanto das partes que condenavam o casamento nessa idade. Estas, Elza mandou às favas. O casal solicitou o padre, contou sua história (“nós somos muito felizes!”) e recebeu a bênção, de modo que, agora, ambos sentiam-se completos.

Quanto ao asilo, pretendem ficar lá até o último suspiro. Amam o lugar – onde há amigos, cuidado, dedicação, carinho... e, sempre que Joaquim está por perto, piadas.

  • Posso contar uma agora? Só uma!

(Nota da autora: Baseado nas histórias de Elza Cazzonatto Gonçalves, 80, costureira, e de Joaquim Luiz *, 82, trabalhador braçal. Elza e Joaquim moram no asilo há cerca de, respectivamente, 3 e 16 anos.. Eles estão juntos há aproximadamente 6 meses.)

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Audrey de Mattos

Formada em Jornalismo e em Letras. Doutoranda em Estudos Literários. Fale com a autora: [email protected]
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