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Audrey de Mattos

Formada em Jornalismo e em Letras. Doutoranda em Estudos Literários.
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A carta roubada

O que acontece quando a carta certa vai parar nas mãos erradas?


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O leitor pode estar reconhecendo esse título, mas, na verdade, trata-se de outra história, embora nesta circule um certo Edgar. E tudo começa numa noite em que Edgar vai a uma festa e vê uma moça de cabelo azul e se encanta por seu olhar oblíquo. Claro que seu nome não era Capitu, mas Edgar não poderia saber qual seria, pois ela desapareceu por uma porta lateral depois de ter-lhe arrebatado, com um sorriso, o coração.

Quando se recuperou da emoção, Edgar apressou-se em seu encalço. Saiu à rua, na verdade uma viela pouco iluminada, mas barulhenta, com pequenos grupos aqui e ali de gente que escapara da festa para tomar ar e bebericava cerveja morna em copos de plástico, fumava e ria alto. Já seu coração roubado sentia o primeiro estremecimento de decepção quando a viu novamente. Estava um bom pedaço à frente, já virando a esquina. Edgar a perseguiu sem coragem de abordá-la, temendo que ela, de repente, se virasse e o intimasse a explicar porque a seguia daquela forma. Estava nisso quando ela abriu um pequeno portão que mal lhe ultrapassava os joelhos e sumiu dentro de uma casa aparentemente espaçosa a que um gracioso jardim emprestava um ar de conforto doméstico.

Ah, quanta alegria no coração arrebatado de Edgar. Agora sabia onde ela morava! Mas é preciso que o leitor tome ciência de fatos que Edgar ignora, a fim de melhor se divertir à sua custa.

Primeiro, que a mocinha a quem perseguira desabridamente não era a verdadeira moça de cabelo azul, aquela cujo olhar oblíquo lhe pusera a alma em polvorosa. Mas quanto a isso Edgar está desde logo perdoado: a possibilidade de que duas mulheres de cabelo azul, de altura e silhuetas semelhantes estejam nas mesmas proximidades no mesmo horário é, realmente, inverossímil. E ver uma delas somente de costas é desculpa suficiente para confundi-las. A segunda coisa que sabemos e Edgar não, é que a moça de olhar oblíquo não tem cabelos tingidos, na verdade, ela usa uma peruca azul. A moça a quem ele seguiu até em casa, entretanto, tem-no realmente colorido de anil. Mesmo assim, chamaremos à primeira de verdadeira garota de cabelo azul, porque foi por ela que Edgar se apaixonou e é ela quem mantém consigo, ainda que não o saiba, o coração ansioso e festivo do rapaz. À segunda trataremos por falsa garota de cabelo azul, ainda que o tenha azul de fato, uma vez que não é por ela que Edgar suspira, ainda que não o saiba.

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Como se vê, esta é uma história em que pouco se sabe e muito se passa. Passou-se, portanto, que Edgar escreveu, na manhã seguinte, uma graciosa carta em que convidava a falsa moça de cabelo azul para um encontro numa lanchonete da moda. Deixou-a na caixa do correio com o interessante sobrescrito: “para a moça de cabelo azul”. Passou-se, ainda na mesma manhã, que o irmão da falsa garota de cabelo azul olhou antes dela a caixa de cartas e, talvez atraído pelas palavras do envelope, apossou-se dele sem grandes pesos de consciência, indo ler a carta de Edgar em seu quarto. Era uma carta muito charmosa e o irmão da falsa garota de cabelo azul sentiu que os deuses a tinham enviado para salvá-lo de um contratempo a que sua cabeça já dera voltas sem pousar numa solução que fosse aprazível. Expliquemos. É que Rodrigo – esse era o nome do irmão – mantinha há certo tempo um relacionamento virtual e sentia que era o momento de propor à garota do outro lado da linha um encontro pessoal. Embora não conhecesse seu rosto – por causa de um pacto que fizeram de se mostrarem primeiro por dentro – Rodrigo sentia um entusiasmo crescente pela garota, mas seu comportamento pouco arrojado fazia-o temer que uma proposta de encontro pudesse espantá-la e ela fugisse dele como um passarinho que ouvisse, súbito, um barulho qualquer. Mas, oh, a carta de Edgar era um modelo de delicadeza e Rodrigo não hesitou em copiá-la e mandá-la à sua namorada virtual, esquecendo a original em cima de sua pouco organizada escrivaninha.

Do outro lado da cidade uma mocinha franzina, cabelo liso e muito preto, olhos puxados de japonesa mestiça, de fala baixa e medrosa, está ofegante diante do computador: alguém a convida para um encontro numa lanchonete com as mais sensíveis palavras que já lera. É Rodrigo, seu namorado virtual, mas ela se surpreende com aquela doçura que não tinha ainda suspeitado no rapaz. Mas a pequena Akemi – este é seu nome, como já terá percebido o leitor sagaz – sente-se em apuros. Quando inventara o pacto do conhecimento interior estava, na verdade, legislando em causa própria, para ganhar tempo antes de revelar sua aparência frágil e algo infantil a Rodrigo, a quem imaginava belo e viril, embora tampouco o tivesse visto.

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Aturdida, Akemi convenceu sua melhor amiga a ir ao encontro em seu lugar, como se sua vida fosse um filme da sessão da tarde. E talvez fosse mesmo, porque a amiga era ninguém menos que a verdadeira garota de cabelo azul que, na verdade, usa uma peruca que esconde madeixas curtas, encaracoladas e castanhas. O leitor estará coberto de razão se estiver praguejando que isso é totalmente inverossímil, mas juro pelo fóssil do último dinossauro que foi assim mesmo que aconteceu.

No dia e hora marcados já se sabe que compareceram à lanchonete pelo menos três pessoas: a verdadeira garota de cabelo azul, Rodrigo e Edgar, que se atrasou cinco minutos (e o leitor sabe bem, por experiências literárias passadas, o que cinco minutos podem fazer com a vida amorosa de um sujeito). Pois bem, quando Edgar chegou, a verdadeira garota de cabelo azul, que naquela noite estava sem peruca, fazia sacudir com seu riso os cachos castanhos. Quando ela virou a cabeça, Edgar reconheceu imediatamente o olhar oblíquo e o sorriso meliante, usurpador de corações. Mas, confuso, afirmava-se que não podia ser ela, acompanhada que estava de um rapaz magro que a olhava completamente embevecido. Façamos avançar os ponteiros do relógio na parede atrás do balcão para encontrarmos um Edgar dividido entre a decepção do encontro frustrado e o sentimento de ser o homem mais volúvel do mundo, pois em nenhum momento deixara de prestar atenção à moça de cabelos castanhos da mesa ao lado. Avancemos um pouco mais e vamos novamente encontrar Edgar, agora na manhã seguinte, deixando uma segunda carta na casa da falsa garota de cabelo azul.

Pobre Edgar que não pregara o olho durante a noite e se convencera de que, em sua ansiedade, tinha transferido para outra o olhar e o sorriso da garota de cabelo azul. Por isso ele está novamente em frente ao seu portão deixando-lhe outro convite que, desta vez, irá parar nas mãos certas. E, se agradou ao leitor a brincadeira do relógio, saltemos outra vez sobre as horas longas e estéreis do dia que Edgar teve que suportar e vamos direto para a lanchonete, onde ele já se encontra à espera da garota de cabelo azul. Enquanto ela não chega, vejamos o que se passou entre Akemi e a verdadeira garota de cabelo azul depois do encontro com Rodrigo.

A melhor amiga de Akemi contou, preocupada, que o rapaz marcara um novo encontro no mesmo lugar e avisou que não poderia continuar com aquela farsa. Akemi tentou argumentar, mas, diante da convicção da amiga, deixou-se convencer a ir ao encontro e esclarecer tudo para Rodrigo. Entretanto, conseguiu que a verdadeira garota de cabelo azul, que na realidade era castanho, a acompanhasse, mostrando-lhe o quanto seria difícil para Rodrigo ver-se às voltas com uma completa estranha dizendo-lhe que era a mesma da véspera. A verdadeira garota de cabelo azul vestiu, então, um jeans, uma camiseta branca, colocou a peruca azul e saiu com Akemi.

Na lanchonete a falsa garota de cabelo azul entra e olha ao redor. O coração de Edgar dispara e em seguida para. Aquela não era ela. Onde estava o olhar oblíquo? Mesmo assim, acena e se levanta. A falsa garota de cabelo azul se aproxima, cumprimenta com um “oi” e senta na cadeira em frente à dele. Tentam conversar. Edgar não sabe bem o que falar, diz palavras soltas, fala da festa. Ela acena que sim com a cabeça, mas franze a testa e Edgar não sabe o que aquilo quer dizer. Estão nisso quando o sino da porta chama sua atenção e ele olha naquela direção. Desta vez sim, seu coração dispara loucamente: entram a verdadeira garota de cabelo azul e Akemi, olham em redor e caminham para a mesa de Rodrigo que já lá estava.

Foi difícil convencer Rodrigo, que já se tinha deixado encantar pelo olhar da garota de cabelo azul, de que era Akemi a moça em quem ele pensava dia e noite nas últimas semanas. Também foi difícil para a falsa garota de cabelo azul manter a atenção de Edgar depois da chegada das pessoas da mesa ao lado. O que se sabe é que, num dado momento, a verdadeira garota de cabelo azul levantou-se e deixou a sós Akemi e Rodrigo e que, vendo isso, Edgar praticamente surgiu em sua frente. Antes do fim da noite estavam completamente absortos um no outro, fazendo planos para o dia seguinte, o mês seguinte, o ano seguinte, para quando o bebê nascesse, para quando saíssem na primeira viagem ao exterior.

Akemi e Rodrigo trocaram seu primeiro beijo.

A falsa garota de cabelo azul finalmente percebeu o engano em que se tinha envolvido involuntariamente e se consolava bebendo devagar um copo imenso de milkshake de morango com bombom sonho de valsa e dizendo a si mesma que Edgar nem era grande coisa.

Ainda bem que ela não foi embora, pois quando o sininho da porta soou novamente, fazendo-a virar-se para ver quem era, seus olhos foram magneticamente atraídos para os olhos cor de chumbo do homem de sua vida.

E todos foram felizes enquanto durou. E dizem que durou para sempre.

Fim.


Audrey de Mattos

Formada em Jornalismo e em Letras. Doutoranda em Estudos Literários. Fale com a autora: [email protected]
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