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Audrey de Mattos

Formada em Jornalismo e em Letras. Doutoranda em Estudos Literários.
Fale com a autora: [email protected]

Prazer em aprisionar: esse mesquinho impulso tão humano

Movido talvez por uma inveja visceral, já que segue sua vida construindo amarras para si próprio, o ser humano alimenta um impulso sádico que o faz encarcerar plantas e animais, sentindo um absurdo prazer na contemplação da infelicidade alheia.


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Você já reparou na tendência que as pessoas têm a aprisionarem outros seres? Não estou falando de relação romântica monogâmica. Esse assunto dá pano pra manga, já que transita por séculos de educação cristã-burguesa. Eu mesma, que não tenho nenhum argumento racional contra a poligamia, exceto o ciúme - mas o dia que ciúme for algo racional eu sou a Miss Alemanha - sou monogâmica até debaixo d'água. Estou falando do impulso sádico que move as pessoas a encarcerarem seres vivos, animais e até plantas, para o que me parece ser um prazer absurdo da contemplação da infelicidade alheia.

É claro que eu imagino que, na grande, na imensa ou, por que não, na maioria esmagadora dos casos de pessoas que mantêm algum ser aprisionado, esse prazer de contemplar a infelicidade alheia é totalmente inconsciente, e que essas pessoas acreditam firmemente que o fazem movidos pelo mais legítimo sentimento de amor!

Ah o amor... não vamos lembrar quantas pessoas queimaram vivas por causa dele. Não, não é uma metáfora. Estou falando do amor religioso por um deus psicopata que condenou às fogueiras da inquisição milhares de infiéis. Mas acho melhor não digressionar pois, se continuar me aprofundando nesse tema, até o final desta crônica terei me tornado poligâmica convicta, pois, de repente, me dou conta de que o léxico da inquisição pertence ao mesmo campo semântico do léxico do amor carnal monogâmico: amor e fidelidade. Voltemos, pois, ao assunto do início.

Ele me veio à mente quando, caminhando pelo bairro, vi uma planta muito bonita e florida que nasceu na calçada. É um caminho que percorro amiúde e aquela flor me chamou a atenção pelo fato de não ter estado sempre ali; no entanto, como poderia ter surgido do nada se estava arraigada ao solo e era já bem crescidinha? Rente à calçada, a borda de um balde, cujo diâmetro me faz supor que seja um balde de tamanho médio, entregava o logro. Acho que por reflexo, porque nunca consegui prender nada - exceto por ser ré confessa do crime de monogamia - vislumbrei a raiz da planta enrolando-se junto às paredes do balde, crescendo sem escolha, até sufocar-se a si mesma. Não foi por falta de opção que o pequeno pé florido foi colocado lá dentro. Poderia ter sido plantado no quintal - os quintais ainda abundam aqui no interior - ou mesmo direto na calçada, onde a profundidade do solo permitiria que a planta não se privasse da única liberdade de que pode gozar: a de cavar fundo em busca de minerais e água, atravessar o solo e nele ramificar-se, enriquecendo-o e enriquecendo-se a si mesma.

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Antes que alguém pergunte, não, eu não acho que quem colocou a planta naquele diminuto balde pensou, deliberadamente, em fazê-la sofrer. Não se trata disso, mas se trata de um estranho impulso que move o ser humano a encaixotar, engaiolar, envasar, engarrafar, tudo o que acha bonito, sem sequer atinar para o sofrimento que isso poderá causar. E por quê? Porque a cerca garante a posse e o homem acha que pode possuir tudo, até a liberdade alheia.

Durante anos, admirei a tradicionalíssima arte oriental do bonsai. Hoje, não mais, porque me dei conta de que o bonsai nada mais é do que o aperfeiçoamento, até o limite da técnica, desse impulso castrador que o homem carrega em si. O que é o bonsai senão o exercício paciente e meticuloso de privar uma planta de crescer livremente, conforme a sua natureza? De impedir que seus galhos cresçam à mercê do sol, do vento, da chuva e lance para o alto, para os lados, a sua exuberância?

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O maior símbolo de liberdade, para mim, é a asa. O pássaro carrega toda a simbologia do que é ser livre. É indigno, portanto, de uma gaiola. Algo, nesse universo cuja complexidade está muito além do nosso entendimento, entendeu que ao pássaro fossem dadas asas e, com elas, o céu sem horizontes, a visão privilegiada que só se pode ter do alto, a velocidade de cortar os ares. Mas o homem não pode participar disso como mero observador, não pode simplesmente alegrar-se com a liberdade da ave. Ele precisa, para que sua condição ínfima seja satisfeita, enredar o pássaro numa gaiola, cortar-lhe os movimentos, arrancar-lhe aos olhos a imensidão dos prados, das colinas ou montanhas. Ele parece querer vingar na ave, alijando-a de sua razão de ser, todos os motivos ignóbeis que o mantêm atado ao mísero chão.

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E os peixes? Gostaria que alguém desenhasse para mim como é possível imaginar que um peixe pode ser feliz entre as paredes sórdidas de um aquário quando o seu lugar é a imensidão dos rios ou do mar!

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Não faz parte desta discussão o argumento-senso-comum de que se trata de animais criados em cativeiro, que se fossem soltos não sobreviveriam, blá-blá-blá. Por isso, não vou entrar nesse mérito, mas, caso essa questão vil e duvidosa, com que se defendem os aprisionadores, seja levantada, já vou dizendo, de passagem, que toda gente sabe muito bem que ninguém vende fezes porque não tem ninguém que compre. Trocando em miúdos, só existe o tráfico de animais porque existem pessoas que os compram.

E assim, seguindo um impulso interior e arraigado, a que ele nunca questiona, o ser humano segue arrebatando criaturas à sua liberdade, emparedando-as entre os muros do seu "amor" egoísta-minimalista, acreditando que nada faz de mal. Aqueles que, dentre esses, têm mais desenvolvida a consciência da sua tendência destruidora, dão passos mais largos, maltratam animais, traficando-os em garrafas pet, privando-os de suas presas para que possam tornar-se mansos cordeirinhos de estimação; traficam seres humanos, vendem crianças e mulheres jovens para os mercados sinistros do sexo doentio. E tem consumidores para isso, porque o impulso daninho do homem de aprisionar, esse, não dispõe dos mesmos limites que ele impõe aos outros.

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Os pequenos loris, únicos primatas venenosos do mundo, têm suas presas arrancadas sem anestesia e sem condições mínimas de higiene para que o ser humano se satisfaça contemplando seus imensos olhos tristes.

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Assim como o bonsai, a nova moda da tosa geométrica é um reflexo do impulso castrador do ser humano


Audrey de Mattos

Formada em Jornalismo e em Letras. Doutoranda em Estudos Literários. Fale com a autora: [email protected]
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