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Audrey de Mattos

Formada em Jornalismo e em Letras. Doutoranda em Estudos Literários.
Fale com a autora: [email protected]

Num conto sem nome uma viagem ao surrealismo

Em um conto inominado - e inominável, creio eu - Bruna Marcheti de Mattos atualiza as atmosferas da arte surrealista e, a exemplo do mestre catalão Salvador Dalí, usa como material os próprios preceitos da estética vanguardista preconizados por André Breton: num espaço difuso entre o sonho e a vigília, desenrola-se um relato absolutamente perturbador.


Se o Surrealismo é a estética do onírico por excelência, ao se fitar um quadro de Salvador Dalí, por exemplo, tem-se a dimensão do que isso quer dizer. Uma das obras do artista catalão que considero expoentes da estética é o seu "Hombre com la cabeza llena de nubes". Lendo isso, muitos poderão relembrar, exaltados, o seu "Persistência da memória" - os célebres relógios que se derretem ou, os conhecedores mais profundos de seu trabalho poderão argumentar que nada expressa melhor o inconsciente - cerne da estética surrealista - do que o perturbador "El espectro del sex appeal" no qual o homem se vê criança diante da imagem retorcida de si mesmo, ou, mais provável, seu "O grande masturbador".

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Hombre com la cabeza llena de nubes, Salvador Dali, 1936

Pois bem, não posso discordar dessas vozes que, porventura, se levantarem. Entretanto, penso que quando uma obra é tão explícita em relação aos seus padrões, ideais ou, mesmo, ao seu manifesto, a ponto de desafiá-lo de algum modo sem, contudo, negá-lo, à tal obra deve ser reconhecido esse valor. O homem com a cabeça cheia de nuvens de Dali é um escancaramento do ideal Surrealista: negação do realismo castrador e da ideia conservadora de que somente as coisas que existem é que são possíveis,ou, como afirmou André Breton no primeiro Manifesto Surrealista: chegar ao que não existia pela via da arte que valoriza da mesma forma os atos executados em sonhos ou em estado de vigília.

Passados mais 100 anos do surgimento das vanguardas artísticas na Europa, a herança legada pelos vanguardistas, da qual o século XXI se farta, é a da estética despida de rótulos, livre. Tão livre que penso ser completamente inadequado falar-se na existência de uma estética. Mas, desse assunto somente poderão assenhorar-se - precariamente, como ocorre com todos os olhares que procuram sistematizar para entender - aqueles que sobre ele debruçarem-se daqui 50 anos, talvez mais. Por ora, talvez nos baste conferir como os novos artistas se valem dessa herança libertária para produzirem peças de arte que atualizam as velhas vanguardas - que se releve o paradoxo - deixando seus observadores em dúvida quanto à origem de seu impulso criador: se reflexo de um olhar atento para aquelas vanguardas ou produto de um completo à vontade instalado após as terapias de choque que os movimentos modernistas representaram no início do século XX.

É nessa tônica que quero apresentar um conto sem nome - "fujamos da mania incurável de reduzir o desconhecido ao conhecido", gritava Breton - em que a jovem contista Bruna Marcheti de Mattos percorre, a exemplo de Dalí, o caminho surrealista empunhando à vista de todos a sua bandeira. Bruna situa entre o sonho e a vigília um narrador inominado e, por instantes, estranho a si mesmo cujas sensações vão sendo descritas como espectros tampouco nomeáveis. Nada parece gratuito nesse conto: da falta de título à quase impossibilidade de situar no plano da realidade empírica o que vai sendo descrito, trata-se de um mergulho no universo difuso onde Breton acreditava esconder-se o puro verdadeiro. No momento em que o leitor pensa ter alcançado alguma lógica, ela se desfaz pela justaposição de uma nova imagem incongruente. O final, surpreendente, mostra como o poeta francês e teórico do Surrealismo, André Breton, tinha razão ao dizer que aquilo que pensamos não existir é o que existe sem que saibamos enxergar.

Abaixo, na íntegra, para deleite dos leitores, o conto sem nome de Bruna Marcheti de Mattos, datado de novembro de 2012.

As imagens difusas com cores opacas ainda desfilavam à minha vista, parecendo aquarela que um sovina botou no papel com a precisão de um bêbado. Os sons eram poucos, o tato já quase nada percebia, mas o sentido e a coerência que o desfile inspirava ainda pairavam na atmosfera que rodeava a minha presença. Ao longe, então, como se eu possuísse o tato de outro corpo, distante de mim, uma pressão fez-se sentir em meu entorno. Seria em minhas costas? Perscrutei com o olhar, mas não enxerguei coisa alguma ao meu redor. Nem conseguia enxergar a mim mesma!

Mas já não estava ali. Minha presença preenchia o espaço, mas meu corpo desaparecera ao mesmo tempo em que a pressão em meu dorso fazia-se mais perceptível, mais intensa. As imagens imergiam em um manto negro e ali paulatinamente começavam a afundar, a se desfazer. Os ruídos débeis misturavam-se a um novo som que perturbava a coesão do que eu vivenciava – mas não o conseguia identificar.

Meu segundo corpo se tornava cada vez mais real e concreto. No entanto, sua visão me era tolhida e já não conseguia me encontrar onde eu de fato estava desde que o primeiro invólucro se dissolvera no ar. As imagens viraram pontos em um breu sem fim, como atores que saem de cena rumo ao longínquo horizonte dos bastidores e concedem seus lugares aos objetos que mimetizam. A temperatura morna da pressão parecia se materializar, e já podia senti-la contra a minha carne, que a acolhia com a hospitalidade com que a relva recebe o sono do animal. Sombras restavam no lugar das imagens que me passavam em frente, e flutuavam no predomínio da escuridão dos olhos fechados. A cada momento, que se prolongava ao infinito, a coerência do que antes eu tão bem compreendera se desvanecia e dava lugar à confusão mental tão lenta, tão atordoada...

O novo som se distinguiu, impondo-se com valentia persistente em meus ouvidos: era o som da quietude. Um rumor ao fundo, um ruído pausado ao lado, um apito agudo esporádico. A pressão morna se solidificava... e se movia. Quando me dei conta, tudo já havia desaparecido: os sons antigos, as imagens fracas. Só restaram os intrusos que meus sentidos haviam passado a captar.

Num disparo contrastante com a anterior lentidão, minha presença se encontrou com meu corpo, adentrou-o. A quietude da manhã entrecortada pelos pios do filhote de joão-de-barro combinava com o baixo e constante rufar do ventilador. Ao lado, a respiração pausada tão melodiosa se interrompeu com um suspiro descansado e acompanhou o carinho da mão que afagava minhas costas. Abri um buraco na escuridão com o olhar, que a atmosfera e a luz não hesitaram em ofuscar. Senti um toque prolongado no que apenas segundos mais tarde descobri ser minha mão direita.

Foi um quase ronronar que me apresentou ao novo dia. Mas que belo despertar.

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René Magrite, La condition humaine [A condição humana], 1933: a realidade é só uma tela pintada pelo homem

Audrey de Mattos

Formada em Jornalismo e em Letras. Doutoranda em Estudos Literários. Fale com a autora: [email protected]
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