Marlen Couto

Um dia vai ser jornalista. Acredita nas histórias das vidas que ninguém vê

Histórias de uma pietá contemporânea

Uma mãe acaricia o corpo do próprio filho, um engenheiro assassinado no Centro do Rio. Vencedor dos prêmios Esso e Rei da Espanha, o instante congelado pelo fotojornalista Marcelo Carnaval em 2006 se imortalizou ao retratar um drama universal. Nos bastidores, os dilemas éticos do fotógrafo que se depara com as dores humanas. Quando, afinal, abaixar a máquina?


Engenheiro é morto no centro - foto marcelo carnaval.jpg

O olhar indignado parece não acreditar no que vê. As lágrimas existem, mas não chegam a descer. O sensacionalismo do corpo exposto, à mercê da curiosidade humana, é vencido pela dramaticidade de um encontro já explorado pelo renascentista italiano Michelangelo, no século XV. A mãe está na cena do crime, avisa por telefone um repórter do jornal Extra. Com Monteiro, o motorista, Marcelo Carnaval chega à Rua Visconde de Inhaúma. Na via pública, Norma Tramm Drumond envolvia com as mãos o rosto do próprio filho, Leonardo, um engenheiro assassinado pelas costas no Centro do Rio de Janeiro.

De lá pra cá, já se foram oito anos, um Esso de Jornalismo e o prêmio Rei da Espanha. Quem sabe Carnaval não estava apenas na hora e lugar certos, função imposta ao jornalista, aquele que se propõe a ser “testemunha ocular da história”. Quem sabe a atualidade prevaleceu, junto à tendência pela fotografia que valoriza o conflito, a dor. “A tristeza é um mote muito forte. Tudo isso mexe contigo”, aposta o fotojornalista Marcelo Carnaval.

Nos bastidores, a iluminação não era favorável. A inviabilidade do flash indica o desconforto. São os faróis do carro da redação, ante Monteiro ao volante, que dão o tom amarelado e uniforme, ajudam a revelar a tristeza de que fala o fotógrafo. De fato, a luz que conduz a narrativa compensa um enquadramento feito de excessos nas bordas, destaca a professora de fotojornalismo da Uerj e Estácio Soraya Venegas. “A foto do Marcelo Carnaval não é exatamente um flagrante diferenciado, é uma luz diferenciada. A luz dá um quê de especial”, analisa.

O vermelho-sangue que se desataca é reforçado por giroscópios da polícia, aos montes no local. Numa das viaturas, Carnaval encontrou o apoio para sua câmera e fez o clique. Não estava suficientemente perto, a uns seis metros da cena, porque não queria “invadir”, embora soubesse como ninguém que um homem apontando uma câmera não é invisível, ainda que seja mais discreto que as equipes de TV.

Aliás, para Carnaval, ajudou não ter emissoras de TV no local: “não são pessoas discretas”. Ainda assim, um policial chegou a pedir para não fazer as fotos. Como quase todo jornalista, provavelmente, continuaria fotografando, se não pedissem para parar, confessa. Mas já tinha o suficiente. Carnaval mostrou sua foto a Carlos Mesquita, fotógrafo do Dia, falecido em 2012. Ele também fez a foto, mas do outro lado. O efeito não foi o mesmo. O mérito dos demais repórteres e fotógrafos ali presentes foi o respeito à Norma. “Agradeci nominalmente na cerimônia do prêmio”, lembra.

Marcelo Carnaval - foto Fernando Maia.jpg

Formado pela UFF, Marcelo Carnaval começou a carreira de fotojornalista no Jornal do Brasil, em 1985. Passou também pela redação carioca da Veja e, desde 1999, integra a equipe de fotografia do jornal O Globo. Foto: Fernando Maia

Cobrir um enterro é pior que cobrir um tiroteio, nunca me sinto à vontade, mas fotografo sempre – diz sem demonstrar receio. Saber quando deve ou não abaixar a máquina é sempre um dos dilemas éticos de qualquer fotojornalista que lida diariamente com as dores humanas. Para Carnaval, nenhuma foto vale a vida. “Se eu puder ajudar, vou ajudar. Usaria até a câmera se for preciso”, reflete ao ser lembrado pelo repórter da história de Kevin Carter. O fotojornalista sul-africano se suicidou em 1994, um ano depois de registrar uma criança desnutrida observada por um abutre, no Sudão.

A noite não foi agradável. Em seguida, Carnaval cobriu o assassinato de uma mulher em Botafogo. Foi partida ao meio. Fotografou uma perna saindo do saco plástico de lixo, crueldade não publicável. As fotos que expõem explicitamente a violência dificilmente saem em O Globo, ainda mais na capa, explica o fotojornalista. “Mas acho que esta foto tem algo que não é comum. É uma mãe de classe A, de uma família dona de uma construtora. Se fosse uma mãe pobre, seria banal. A gente vê isso todo dia”.

O contato do fotógrafo com a personagem limitou-se àquele dia trágico. Na época, Carnaval soube que Norma queria processar o jornal. A irmã de uma repórter era a advogada da família. No fim, o processo contra O Globo não se oficializou. Um ano depois, Vinícius Dônola, da TV Globo, conversou com a mãe do engenheiro. Apesar de não ter aprovado inicialmente a exposição, ficou mais agradecida. “Teve mais amparo por causa da foto”, conta Carnaval, sem esconder a surpresa com a reviravolta.

“Somos mais bem recebidos pelos pobres que pelos ricos. É que pros pobres sair no jornal pode ser uma oportunidade de denunciar, de haver justiça”. É a constatação de quem tem o apoio silencioso dos colegas de fotografia do Globo. Mas a justiça não chegou, neste caso, nem para os ricos. O mandante do crime nunca foi preso. O vigilante Omar Alves de Paiva, acusado de disparar os dois tiros em Leonardo, foi absolvido no julgamento ocorrido em 2009, por seis votos a um. Exatamente 45 dias depois, Paiva voltou à prisão, após matar um jovem na Zona Oeste do Rio.

Entre as cinco outras fotos não publicadas, havia sua preferida: a mãe acariciava o filho. Foi o subeditor José Roberto Serra quem decidiu qual deveria sair na edição do dia seguinte. “Pela expressão de vazio da mãe”, pondera Carnaval, saiu na capa a imagem premiada. A importância de alguém escolher pelo repórter é justificada e destoa da busca por autonomia, comum no ramo. Apesar do mito construído pelo jornalismo e de ser um sonho para quem está no começo de carreira, estar na capa não deslumbra o já experiente fotógrafo. As melhores fotos não necessariamente estão expostas na vitrine do jornal.


Marlen Couto

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