cool and fresh sociology

Sociologia, Ideias e Cultura

Tatiana Miranda e Carlos Fialho

Açúcar e afeto regado a sociologia, literatura, artes, cultura, música e cinema.

Violência, futebol e mulher pelada: A Exclusão Social nas capas dos jornais

Como os jornais populares reforçam a condição social dos leitores. Construindo identidades que se relacionam com a exclusão social.


capa-1.jpg

No Rio de Janeiro temos um tipo de jornal bastante peculiar, são os chamados jornais populares. Expresso e Meia-Hora são os dois principais periódicos que se encaixam nessa categoria. Com preços que variam de 50 a 70 centavos, estão entre os jornais mais vendidos do estado.

A formatação de sua capa não varia: crime/tragédia, futebol e mulher gostosa. A sua exposição nas vitrines das bancas atraem um vasto público que, em uma breve parada no caminho para o trabalho e demais atividades cotidianas, se informam sobre os principais acontecimentos do dia. Esse público, também muito específico, é formado, em sua maioria, por pessoas que ocupam sub-empregos e desempregados, possuindo baixo grau de escolaridade.

Os crimes não são políticos, nem grandes golpes financeiros ou qualquer outra coisa que possa ser de interesse das elites econômicas e da “boa” sociedade. São crimes populares, ladrões e assassinos baratos que mataram ou foram brutalmente assassinados na periferia. No primeiro caso – se mataram alguém – estão na mira da polícia local ou do justiceiro. A manchete “previne” as pessoas que moram nos bairros populares ao que elas estão sujeitas quando transgridem. São criminosos que foram mortos – vale como lição – mostrando o fim trágico de quem anda fora dos trilhos. Se a polícia não mata, então são os justiceiros que agem fazendo justiça rápida e com as próprias mãos.

capa-2.jpg

O futebol e as mulheres não fogem a regra da suposta “mensagem” da diagramação da primeira página dos jornais populares. As mulheres são todas muito parecidas: coxas grossas, bundas exuberantes e micro biquinis ou shorts desafiando o leitor para um passeio nos caminhos da ilusão, aproximando-o do modelo das mulheres do seu imaginário e o distanciando da realidade da casa, do lazer, do trabalho, do namoro e do sexo. A modelo semi-nua está à espera de uma proposta para posar para a revista de circulação nacional, assim como o leitor está à espera de um trabalho melhor. Ela está para acontecer, mas por enquanto é dançarina do programa de tv e tem uma promessa para ser a madrinha da bateria da escola de samba do segundo grupo.

Sobre os jogadores interessa mais a fofoca do que a análise do jogo. Interessa a razão da má sorte do atacante do time de futebol, a noitada que acabou às cinco da manhã na véspera do jogo, a traição conjugal do craque ou a lesão que vai deixá-lo fora dos jogos.

capa-3.jpg

Mas o conjunto destas imagens dos jornais de “cinqüenta centavos” não trata da construção da identidade do destituído, do leitor excluído das formas cultas de distribuição da notícia, dos que estão fora do mundo letrado da boa informação, do alto consumo e dos crimes importantes para e restante da sociedade. Trata-se de uma maneira possível de afirmação de identidades, da construção de lugares sociais permanentemente elaborados através do diálogo com outros espaços sociais. O bairro retratado na primeira página dos jornais onde o crime acorreu é o mesmo bairro onde grande parte dos leitores dos jornais moram. O mundo fotografado já está delineado no imaginário e na realidade mais imediata do leitor. Os “outros” jornais, dos grandes articulistas da política e da economia, da crítica de cinema, artes plásticas e teatro, os jornais que comentam os grandes espetáculos nos melhores teatros da cidade não tocam a realidade dos leitores dos jornais populares, só a sua imaginação.

capa-4.jpg

Os jornais mostram para seus leitores quais os seus lugares. Ao circular pelos vários lugares da cidade, o leitor é lembrado pelos jornais exibindo as manchetes – em todos os lugares que transita – qual o seu território, seu local de pertencimento. Seu lugar não é o das celebridades, é o da desgraça ocorrida com elas. O lugar que lhe pertence é o da exclusão. O destaque dado à catástrofe e violência faz com que os leitores relacionem esses temas diretamente a seu cotidiano, permeado por esse tipo de acontecimentos. As manchetes espalhadas pelas bancas não o deixa se sentir estrangeiro no território dos grandes centros urbanos, relativamente longe das periferias.

A exposição das classes populares nas capas dos jornais de cinqüenta centavos se dá apenas pelo viés negativo. Sua inclusão nesse tipo de mídia só ocorre devido à sua condição de excluído. São capas com manchetes que informam, reforçam e conduzem os excluídos através dos cenários sociais nos quais transitam diariamente. Não se trata do excepcional, mas do cotidiano que os acompanha em todos os lugares.


Tatiana Miranda e Carlos Fialho

Açúcar e afeto regado a sociologia, literatura, artes, cultura, música e cinema..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/// @destaque, @obvious, eros //Tatiana Miranda e Carlos Fialho