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Sociologia, Ideias e Cultura

Tatiana Miranda e Carlos Fialho

Açúcar e afeto regado a sociologia, literatura, artes, cultura, música e cinema.

Ela é feia como todo mundo- Lady Gaga e a estética do grotesco

Lady Gaga é o modelo de subversão das divas pop e um oásis para os monstrinhos que podem, finalmente, ser eles mesmos.


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Cabelo cor de rosa, saia de rabo de sereia, sapato modelo edifício de 4 andares e vestido de carne. Ela não tem barriga de tanquinho, é nariguda, feia e está sempre vestida de forma bizarra. Seus fãs, e supostos semelhantes, são seus queridos monstrinhos. Lady Gaga é a subversão do modelo de Diva Pop. Shakira, Britney, Beyoncé, Madonna e Rihanna têm como pré-requisito a beleza. Lady Gaga tem sua estética grotesca como cartão de visita. Com letras com forte temática de auto-ajuda, Gaga parece ser o ídolo dos que não chegaram lá. Sua bandeira não é apenas anti-discriminatória, vai muito além.

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Em um de seus maiores hits, Born this way, a cantora fala sobre o manifesto da mãe monstro e do nascimento de uma nova raça, livre e sem preconceitos. Seu lema é: nasci desse jeito e sou linda do meu jeito, pois Deus não faz nada errado, justifica. Em um cenário de musas pop de beleza irretocável, modelos de uma perfeição inalcançável pelos seus fãs e admiradores, Lady Gaga vem para autorizar a feiúra. Sim, você pode ser um monstrinho como ela. A bandeira a favor do que é rejeitado pela “boa sociedade” vai além da estética. Se você decidir ser um integrante do clã da mamãe monstro, você pode ser um perdedor. Em outro hit, Bad Romance, a cantora, presa em um romance ruim, clama pela vingança, doença e repulsão do parceiro. Os modelos identitários propostos por Gaga ultrapassam a linha do “abaixo o preconceito” e enveredam por um viés negativo. Ao que parece, a Lady Monster canta para os que se sentem incapazes de se incluir. E, em vez de promover o que ela chama de auto-ajuda (que seria auxiliar as pessoas a encontrarem caminhos próprios para melhora de si), o que faz é reforçar a exclusão. Seja um monstro, submeta-se a um romance destrutivo, afinal, você é e sempre será um loser. Você não pode estar In, portanto, mantenha-se Out.

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A cientista social Kathrin Woodward defende que nossa identidade é formada por dois processos: representação e subjetividade. A representação se refere aos estereótipos e modelos construídos na sociedade e a subjetividade diz respeito aos nossos desejos, medos e conflitos mais íntimos e pessoais. Lady Gaga representa o arquétipo do feio, do que não deu certo. A representação social do grotesco. Aparentemente, para as pessoas que se veem nesse campo, Gaga é um bom referencial de identificação. Um modelo identitário que se comunica intimamente com a subjetividade dos que se consideram monstrinhos como ela. O que parece tornar Lady Gaga um fenômeno é que, agora, os outsiders: o feio, o perdedor, o discriminado, possuem um ídolo pop. Uma voz que, não apenas diz que ele pode ser quem é mas, que ele pode ser ele mesmo apesar do que ele é.


Tatiana Miranda e Carlos Fialho

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