coqueluche

muito para ser efêmero, pouco para ser eterno

Fabiane Pianowski

Curiosa e digitalmente hiperativa, acredita que toda informação deve ser compartilhada. Atraída pelo que não é canônico, busca arte e cultura nos interstícios do cotidiano

Neil Harbisson: o som das cores

Neil Harbisson é um artista-cyborg que transformou sua incapacidade de ver as cores do mundo em sonoridade, através de seu "olho sonoro" é capaz de escutar as cores do mundo que antes enxergava em tons de cinza.


Neil.jpeg Neil Harbisson e seu eyeborg

O britânico Neil Harbisson (1982) residente em Barcelona, é o primeiro cyborg reconhecido oficialmente por um governo, isso porque utiliza um sensor cromático conectado ao cérebro para que possa ouvir o som das cores. Neil nasceu com acromatopsia, ou seja, incapaz de ver as cores e, até a implantação de seu "olho sonoro" (eyeborg), só podia ver em branco e negro. Através deste terceiro olho, pode escutar por vía óssea o som da frequência de luz da cor que tem diante de si.

neil_colorandpb.jpg Como vêem o mundo quem não sofre de acromatopsia (à esquerda) e quem sim, como Neil Harbisson (à direita). Foto de Gerry Hadden

Enquanto nós percebemos as cores por tom e saturação através de um único canal, Neil percebe a cor em três canais diferentes: o tom é percebido como uma nota, a saturação como diferentes níveis de volume e a luz é percebida pelo seus próprios olhos. Enquanto nós percebemos os tons pela combinação dos canais vermelho, verde e azul, Neil tem 360 microtons sonoros para cada tom do círculo cromático, e desta maneira define exatamente a cor que está "vendo-ouvindo".

O som de uma banana, um tomate, uvas, pimenta e alcachofra, por Neil Harbisson.

Além disso, sua maneira de entender as cores é diferente da nossa e não está carregada dos preconceitos culturais que temos em relação as mesmas, por exemplo, o vermelho, que para nós é uma cor intensa, bastante forte, normalmente associada à paixão ou à violência, tem uma frequência muito baixa, e para Neil é uma das cores mais tranquilizantes.

CYBORG FOUNDATION | Rafel Duran Torrent from Focus Forward Films on Vimeo.

Neil aproveitou a sua particularidade para produzir arte, é um artista sonocromático para o qual "o som é cor e a cor é som". Pode fazer concertos nos quais em vez de tocar instrumentos, toca cores, conectando seu eyeborg à caixas de som ou ainda fazer exposições em espaços nos quais as cores são exibidas para serem escutadas.

Neil-Harbisson-Colour-Scores.png Neil Harbisson em sua série Sound Portraits pintou as cores dominantes de músicas: Fur Elisa de Beethoven (à esquerda) e Primavera de Vivaldi (à direita)

Entre seus projetos artísticos estão: "Capital Colours of Europe", no qual tentou encontrar as cores das principais capitais da Europa, percorrendo mais de 50 países; "Colours Scores" (Partituras de cor), uma série de pinturas na qual transforma peças musicais em cor, e "Sound Portraits", em que cria retratos sonoros de pessoas das quais escutou as cores do rosto. Também colabora com a coreógrafa espanhola Moon Ribas na criação de espetáculos de dança e teatro, performances e happenings.

colourcities.png Série Capital Colours of Europa: Londres (esquerda), Lisboa (centro) e Madri (direita)

Harbisson também é o idealizador da Cyborg Foundation, uma instituição que tem o objetivo de ajudar as pessoas a converterem-se em cyborgs, ou seja, auxiliar os interessados no processo de incrementação dos sentidos mediante a incorporação de extensões cibernéticas em seus corpos. Para Neil Harbisson o "ciborgismo" é tanto um movimento social como artístico, e acredita que os criadores deviam implantar em si mesmos dispositivos com intenções artística, com a intenção de aguçar os sentidos.

Retratos sonoros, Neil Harbisson.

[Artigo publicado inicialmente no blog Cachola Mágica, em 27 de janeiro de 2013.]


Fabiane Pianowski

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