coqueluche

muito para ser efêmero, pouco para ser eterno

Fabiane Pianowski

Curiosa e digitalmente hiperativa, acredita que toda informação deve ser compartilhada. Atraída pelo que não é canônico, busca arte e cultura nos interstícios do cotidiano

O óbvio invisível: as entrelinhas de "A morte e a bússola"

O escritor Jorge Luis Borges era um apreciador da literatura policial, tanto que alguns dos seus contos são referências para o gênero. O conto "A morte e a bússola" é uma obra-prima neste contexto e que deve ser conhecida por todos os apreciadores do mistério e suspense das tramas policialescas.


borges.jpg Es la idea de esconder algo en forma visible, de hacer que algo sea tan visible que nadie lo encuentre. (Jorge Luis Borges)

O gênero policial, apesar do seu enorme sucesso de público, é um gênero ainda pouco valorizado, ainda considerado por muitos literatura menor. No entanto, autores da categoria do argentino Jorge Luis Borges (1899-1986), comprovam que um bom policial não deixa margem para este tipo de preconceitos, e que o problema está na qualidade do texto, e não no gênero. Como afirma Chesterton (s.d., p.2 ): “Entre uma história de detetive boa e uma boa história de detetive ruim há, no entanto, uma diferença tão grande – ou talvez maior – quanto entre um épico bom e um ruim”.

O conto policial “A morte e a bússola” (1944) de Borges é exemplar nesta questão posto que da perspicácia do autor –que preferia o relato breve afim de manter o suspense típico do gênero à própria estrutura condensada do conto (CASTELLINO, 1999)– surge uma história que subverte os padrões dos policiais clássicos e que requer do já atento leitor de policiais uma atenção redobrada.

O leitor, tal qual detetive, precisa descobrir nas entrelinhas da narrativa a solução do mistério, não devendo ater-se simplesmente as pistas que segue com afinco Eric Lonnröt, o detetive perspicaz do conto. Como afirma Aimée (s.d.), tudo aquilo que aparenta ser detalhe é, na verdade, o conjunto das verdadeiras pistas:

o assassino é apresentado sutilmente na primeira página: “participação de Red Scharlach” (Borges. 2007:121), e não autoria; ainda na primeira página, é dito que Scharlach jurou a vítima de morte; a frase “A primeira letra do nome foi articulada”, que inspira as frases presentes nas cenas dos outros crimes, é, como indica o narrador, apenas uma “sentença inconclusa” (Idem:123) que a vítima digitava em seu trabalho, e não um recado do que um dos livros da vítima, “A história da seita dos Hassidim”, era editado porque os livreiros descobriram que há leitores que lêem qualquer coisa – um desses leitores é Scharlach.

De acordo com Todorov (1970), o relato policial narra duas histórias: a história do crime e a história do inquérito: na base do romance de enigma encontramos uma dualidade, e é ela que nos vai guiar para descrevê-lo. Esse romance não contém uma, mas duas histórias: a história do crime e a história do inquérito. Em sua forma mais pura, essas duas histórias não têm nenhum ponto comum (TODOROV, 1970, p. 96).

Borges em “A morte e a bússola” subverte a premissa de Todorov e faz que as duas histórias se solapem, o crime e a sua revelação estão imbricados na mesma narrativa, de modo que a revelação do crime torna-se a sua própria causa.

Nesse conto, Eric Lonröt, um detetive extremamente analítico investiga, em parceria com o bem menos brilhante comissário Treviranus, um crime ocorrido no Hotel du Nord. Elementos que a primeira vista pareciam fruto do acaso acabam por vincular este crime a outros dois e seduzem a perspicácia de Lonröt, levando-o a concluir que se tratam de assassinatos em série. No entanto, as pistas foram falseadas justamente para atrair o detetive, a verdadeira vítima do suspense labiríntico construído por Borges.

Borges numa trama surpreendente consegue colocar em cheque a postura inquestionável do detetive analítico, frente ao aparentemente sempre menos inteligente comissário que o acompanha. Treviranus, ao contrário de Lonröt, acreditava que o primeiro crime havia sido um equívoco de ladrões que buscavam os diamantes no quarto ao lado; no entanto, para Lonröt, essa conclusão era por demais simplistas e, a partir de elementos ao acaso e que podiam conter algo de místico, construiu um jogo falso de pistas que facilitou ao assassino, que já havia jurado anteriormente o detetive de morte, concretizar a sua promessa.

Em “A morte e a bússola”, os clichês do policial são subvertidos: o detetive é a vítima, o comissário coadjuvante mostra-se mais perspicaz, o crime a sua revelação solapam-se. No entanto, o clima de suspense e a estrutura de investigação não se perdem, ao contrário, prendem o leitor da primeira a última linha que busca, junto ao detetive, desvendar o mistério e, seguramente, surpreende-se no final. Portanto, não é a toa que este heterodoxo conto é considerado um dos ícones da literatura policial.

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AIMÉE, A. A morte e a bússola: subversão e raciocínio nas armadilhas borgeanas. Disponível em http://cronopios.com.br/site/ensaios.asp?id=5433 BORGES, J. L. A morte e bússola. In: Ficções. São Paulo: Globo, 1999, p. 66-73. CASTELLINO, M. E. Borges y la narrativa policial: teoria y práctica. Revista de Literaturas Modernas, 29, Mendoza, Argentina, 1999. CHESTERTON, G. K. Uma defesa das histórias de detetive. Tradução e apresentação de Raquel Parrine de CHESTERTON, G. K. A Defence of Detective Histories. TODOROV, Tzvetan. “Tipologia do romance policial”. In: As estruturas narrativas. Trad. Leyla Perrone-Moisés. 2ª ed. São Paulo: Perspectiva, 1970.

*Este post é resultado do curso "Aspectos da Literatura Policial" ministrado por Raquel Parrine através do projeto Narravis, cursos de extensão gratuitos em EAD.


Fabiane Pianowski

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