cotidiano enfeitado

...apenas o que couber no bolso e no coração

Flavia Vargas

Jornalista por amor e formação. Carioca da gema, apaixonada por samba e cervejas especiais. Tem medo de palhaço mas uma coragem imensa pra ser feliz

O Beijo de Carnaval

Sobre o amor nos blocos de rua.


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Quem gosta da magia dos blocos de rua com certeza já presenciou um beijo de Carnaval. Aquele momento em que você, no calor da multidão, olha para o lado e se depara com a ternura de um casal se beijando loucamente. Ou então, melhor ainda, você é o próprio protagonista, experimentando esse momento mágico no meio da folia.

É nesse instante de entrega, que tanto pode durar alguns segundos quanto longos minutos, que o mundo ao redor parece estar em câmera lenta. A banda, antes ensurdecedora, ganha ar de trilha sonora, lenta, lá no fundo. Os olhos fecham, a nuca arrepia, a língua brinca, o peito enche de amor, o corpo parece levitar.

Se para alguns essa época do ano não passa de pretexto para a libertinagem e banalização do beijo, para muitos os tempos de liberdade desmedida são uma excelente oportunidade para se despir de qualquer pudor e espalhar amor pela multidão.

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O cineasta Raniere Figueiredo parece ter entendido direitinho esse fenômeno. De posse de uma câmera, ele se enveredou pelos blocos de rua do Rio de Janeiro, desde o pré-Carnaval até a quarta-feira de cinzas, registrando beijos de foliões. Para ele, o beijo de Carnaval está além das convenções sociais de certo ou errado, conveniente ou não, impostas durante o ano todo.

“Vivemos em uma sociedade onde ainda existem alguns tabus. O Carnaval é o momento de liberdade máxima. No Carnaval você se permite, não impõe barreiras a si mesmo e nem aos seus sentimentos, seus desejos. Tudo é possível e permitido. Você está embriagado de alegria e sensação de liberdade, o que faz com que esses tabus sejam transcendidos”, explica Raniere.

Movido pela famosa teoria da 'modernidade líquida', do sociólogo Zygmunt Bauman, o cineasta carioca passou a questionar os relacionamentos dentro desse ambiente. Bauman aponta a modernidade como um tempo de liquidez, de volatilidade, de insegurança. E nessa modernidade líquida impera a lógica do agora, do gozo, da facilidade de se desconectar de uma relação social sem grandes perdas.

“Eu não amava há alguns anos e o Carnaval para mim tinha outra conotação, ou melhor, a conotação de sempre: momento de liberdade total. Mas agora, namorando, a aproximação do Carnaval me deixou um pouco apreensivo e para sublimar essa questão resolvi aguçar a minha ótica para o beijo, dentro desse espaço de alegria, delírio e libertinagem”, conta o cineasta.

Diante disso, ele partiu para a observação. O critério para escolha dos participantes? “Estarem bem fantasiados e se amando muito!” No calor dos blocos de rua, ele filmou alguns casais, inicialmente sem que soubessem, a fim de preservar a espontaneidade do momento (mas posteriormente com as devidas autorizações). Para outros, apresentou sua ideia e os convenceu a participarem. E o resultado foi encantador.

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“O que vi foi que os beijos mais belos, mais emocionantes, mais verdadeiros eram os que tinham uma história para contar. Os beijos de casais que resolveram adentrar na festa da carne em comunhão, mostrando que sim, o amor resiste a esse tipo de ambiente. Meio que sem perceber o meu foco foi sendo conduzido no decorrer das filmagens para esse tipo de beijo e acabou que a maior parte dos beijos captados foram os de casais que já estão juntos há muitos Carnavais.”

Finalizadas as filmagens, os números são animadores: 60 beijos captados e mais de 90 gb de material. E não bastasse retratar a ternura desses beijos, Raniere vai transformar esses momentos em algo ainda mais especial, utilizando a técnica do slow motion. Segundo ele, o objetivo é tornar visível as nuances desse breve momento do beijo, intensificar o ponto de vista emocional do espectador e traduzir em vídeo todo o processo envolvido.

“Quando beijamos o ambiente ao nosso redor fica suspenso, os sons diminuem de intensidade, o tempo dilata, os transeuntes andam lentamente e nos sentimos flutuar enquanto nos entregamos plenamente àquele instante. Acredito que a combinação slow motion e beijo daria muito certo, daí resolvi apostar para ver no que dá.” Por isso o projeto se enquadra na classificação curta metragem experimental.

Participam da iniciativa, além do cineasta, o produtor musical Bibo Bassini, e o editor, finalizador e VJ Chico Abreu. A trilha sonora original será criada por amigos músicos, sob a direção de Bibo e Raniere.

Equipe.jpg Chico Abreu, Raniere Figueiredo e Bibo Bassini

Ainda na fase de edição, a proposta tem estreia prevista para os próximos três meses. Com toda a calma do mundo, lembra Raniere, que agora se dedica à decupagem, cortes, colorimetria e trilha sonora, entre outras coisas. “Quero fazer algo belo e único. Farei no tempo que for necessário para dar o acabamento que o projeto merece”, promete.

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O curta terá entre 5 e 10 minutos e, a princípio, será veiculado apenas na internet. Mas a aprovação do público será o termômetro para o projeto alçar voos maiores, em festivais, mostras de cinema e cineclubes. Totalmente independente, a produção é da Guerrilha Audiovisual, que arcou com todos os custos de realização (equipamentos, passagem, alimentação e transporte). Sob o lema 'Cinema sem frescura!', a produtora foi fundada em 2013 e está sediada no bairro de Santa Teresa.

Formado em Cinema e atuando no mercado audiovisual carioca há sete anos como diretor de fotografia e operador de câmera, Raniere Figueiredo aposta que com o boom tecnológico, onde os equipamentos profissionais se tornaram mais acessíveis, além do aumento na velocidade da informação e o incentivo dos órgãos públicos nas produções, o espaço para produtoras independentes como a dele crescerá a passos largos. “Tem muita coisa legal sendo rodada por aí. Vejo que as pessoas estão apostando muito em suas ideias, de forma remunerada ou não, e o nosso cenário está ganhando corpo.”

Gabriel Naumann e Ricardo Cabral.jpg

No papel, o curta O Beijo de Carnaval tinha a intenção de resgatar os momentos de ternura, entrega e gozo vividos nos quatro dias de folia. Mas ao longo das gravações, o projeto ganhou significado muito maior. “Acredito que todo espectador, após assistir a um filme, fica envolto pelo universo que este remete. Sua mente reflete sobre os temas apresentados, reverberando em sua vida de forma consciente e inconsciente os efeitos de tal reflexão. Vejo hoje em dia muitas pessoas com medo de amar, de se entregar, de estabelecerem algo duradouro diante das muitas ofertas de paixões passageiras. Quero poder fazer algo quanto a isso. Desejo que através deste curta as pessoas vejam que é possível, que o amor se sobrepõe a todas essas questões”, conclui Raniere.

Agora, é aguardar para ver a versão final e, quem sabe, se inspirar para os próximos Carnavais. ♥

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Flavia Vargas

Jornalista por amor e formação. Carioca da gema, apaixonada por samba e cervejas especiais. Tem medo de palhaço mas uma coragem imensa pra ser feliz.
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