cultivando palavras

Que tudo que eu quero não fique apenas no pensamento, mas que possa vir tornar-se realidade

Túlio Santos

"Odiamos o que quase somos."

Escrevia sobre o amor como ninguém

Caio Fernando Loureiro de Abreu (Santiago do Boqueirão 1948 - Porto Alegre 1996). Contista, romancista, dramaturgo, jornalista. "A vida tem caminhos estranhos, tortuosos às vezes difíceis: um simples gesto involuntário pode desencadear todo um processo. Sim, existir é incompreensível e excitante. As vezes que tentei morrer foi por não poder suportar a maravilha de estar vivo e de ter escolhido ser eu mesmo e fazer aquilo que eu gosto - mesmo que muitos não compreendam ou não aceitem."


20.jpg

Doce, irreverente, incomparável. Não teria palavras para poder descrever essa pessoa tão intrínseca que foi o Caio Fernando de Abreu. Creio que não seja apenas eu, mas sempre que leio uma frase, um conto, um livro do Caio, eu tenho a nítida sensação de que aquilo foi escrito para mim, pensado em mim. Claro que não foi, mas o Caio tinha esse dom de colocar nas suas entrelinhas o amor generalizado e as várias facetas do ser humano. Difícil quem lê e não se identifica. Seus textos têm um poder de cutucar lá no fundo a ferida que a gente nem sabia direito que existia.

Morto há mais de 15 anos, Caio ainda vive através de suas palavras no meio de muitos jovens que usam e abusam das suas citações nas redes sociais. Sabe aquela história de dizer que alguém está mais vivo do que nunca? Pois é. Autor de vários livros, Caio ganha vida nas várias redes sociais que fazem das suas palavras eternas. Caio escreveu compulsivamente, viveu compulsivamente, e morreu desejando continuar a escrever. Portador do vírus HIV, Ele, desde então, decidiu viver sua vida intensamente e com a coragem que permearam toda a sua vida.

Caio se lança furiosamente ao trabalho. Responde à hipocrisia da mídia com afirmações contundentes: “eu seria um idiota de estar com Aids e vir a público dizer que me arrependo de ter pecado contra os bons costumes que esta sociedade burguesa finge cultivar. NÃO ME ARREPENDO DE NADA, vivi minha vida exatamente como eu quis, não mudaria uma vírgula”.

Caio travava o amor, a saudade e angústia como ninguém; ele era bastante atemporal e vanguardista com suas palavras. Foi um dos primeiros, na época da ditadura, a escrever sobre sexo, entre outros. Caio quebrou literalmente os tabus numa época de confrontos. Ele ensina que devemos apesar de tudo, seguir em frente, como ele mesmo diz: " Porque a vida segue. Mas o que foi bonito fica com toda a força. Mesmo que a gente tente apagar com outras coisas bonitas ou leves, certos momentos nem o tempo apaga. E a gente lembra. E já não dói mais. Mas dá saudade. Uma saudade que faz os olhos brilharem por alguns segundos e um sorriso escapar volta e meia, quando a cabeça insiste em trazer a tona, o que o coração vive tentando deixar pra trás."

Caio confessava sempre aos amigos sua maior vontade e lhes dizia repetidamente: "Eu queria tanto que alguém me amasse por alguma coisa que eu escrevi". É uma pena que hoje ele não possa presenciar o seu desejo ser realizado. Caio será sempre recordado como um ícone, uma figura que falava de amor e saudade com uma proeza do que mais ninguém; uma pessoa que faz falta numa sociedade como a de hoje, mas "Um dia você aprende a conviver com uns e sobreviver sem outros."


Túlio Santos

"Odiamos o que quase somos.".
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/literatura// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Túlio Santos