cultivando palavras

Que tudo que eu quero não fique apenas no pensamento, mas que possa vir tornar-se realidade

Túlio Santos

"Odiamos o que quase somos."

O incesto de "Os Maias" resumido em uma carta

E se depois da morte do seu avô Afonso da Maia, Carlos da Maia resolvesse, através de uma carta, contar todo o seu amor entre ele e Maria Eduarda? Se colocasse nas entrelinhas todo o sentimento de culpa e dor causado pelo incesto? Vejamos.


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Lisboa, 10 de Abril de 1877

Avô,

Espero que onde que esteja, me perdoe e compreenda o meu amor por ela. Era quase impossível não me apaixonar por ela.Foi amor à primeira vista, conheci-a no hotel, no átrio, ela é linda, estonteante, ela é "trés chic", avô!

Desde que a vi não pensava em outra coisa, apaixonei-me da mesma forma em que cai no sono, gradativamente, de uma hora para outra. No entanto, procurei saber mais sobre ela, procurava-a em todos os lugares, cheguei a ir à Sinta com o meu amigo Ega, mas não resultou. Em contrapartida encontrei o Eusebiozinho, que, diga-se de de passagem, estava muito bem acompanhado. Cheguei a ter um romance com a Condessa de Gouvarinho, apenas um romance, nada de amor. Aliás, só percebi isso então, até a Maria Eduarda aparecer. Com o passar dos dias, recebi um bilhete da própria, pedindo para eu consultar a governanta. Desde então, avô, começámos a nos familiarizar. Por mim, já teria acabado com a Gouvarinho no mesmo dia, mas decidi que não. O amor crescia mais e mais avô, como uma chama que se alastra.

Nós amamos-nos em segredo avozinho, tínhamos que nos refugiar, alugámos uma casa nos Olivais, apelidada carinhosamente por a "toca". Resolvi finalmente cortar os laços com a Condessa. Ia me esquecendo, ela visitou o Ramalhete avô, ela viu o quadro da nossa mãe e, pior, ela comparou-se a ela. Avô, desde então tudo corre mal. Fui revelado que somos irmãos, que meu sangue pulsa nas veias delas, perdi o meu chão. Descubro tudo, tudo mesmo e resolvo contar-lhe, mas falhei avô, e continuo a falhar, nasci para isto. Não consegui contar. Não pude resistir avô, mas devia. Caí em tentação, a "mulher dos passos soberanos", com o seu belo corpo tentava-me. Queria e não queria, a consciência pesava, mas era mais forte do que eu, o meu cérebro dizia que não, o meu coração encorajava que sim. Inocentemente ela agarra-me e usa as palavras mais doces, caio para os seios dela... Nos beijamos avô! Trememos o leito, não resisti, mesmo consciente do incesto.

Não tinha coragem de voltar a casa, a minha vida moral estava estragada. Naquele momento ela não passava de um animal apenas para o prazer. O único prazer que ela me dava era o prazer da culpa, senti-me tão culpado que pensei até em suicídio. Quando regressei, vi você, pálido, mudo, parecia que sabia que você ia partir. Os seus olhos vermelhos de tanto chorar, esgazeados, cheios de horror, recriminavam-me, não aceitavam. Com estes olhos avôzinho, leste o meu segredo, aprofundaste em minha alma. Os teus passos lentos e sumidos, os últimos da sua vida e eu não pude fazer nada a não ser culpar-me mais. Mais uma vez vi a morte como única saída.

Termino essa carta com as mais sinceras desculpas, perdoe-me, mas não tivemos culpa, culpado foi o amor, agi por ele. Escrevo aos prantos, com imensas saudades, já me sinto perdoado só por poder desabafar essas palavras... Esta carta irá no teu bolso, leve apenas isso de mim. Foste embora e contigo será sepultada essa tragédia, essa dor, esse incesto! Talvez por mais drástico que seja o fim, o amor prevalece. O nosso amor de irmãos que sempre nos uniu e unirá.

Com amor, Carlos da Maia.


Túlio Santos

"Odiamos o que quase somos.".
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