cultivando palavras

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Túlio Santos

"Odiamos o que quase somos."

100 anos de Dorival Caymmi

"Antes de tudo, ele era mar"


Dorival Caymmi, afamado por “ O eterno apaixonado pelo mar” nasceu em 30/04/1914 e completaria nesta quarta-feira 100 anos. Possuía descendência italiana, portuguesa e africana. Uma curiosidade bastante relevante era que Caymmi tinha fama de preguiçoso por ter nascido um dia antes do dia Mundial do Trabalhador.

Enrico Balbino Caymmi (bisavô) veio da Itália para o Brasil a propósito de trabalhar na construção do Elevador Lacerda em Salvador, inaugurado em 1872. Por desconhecimento da palavra, ou até por mero descuido dos registradores, o sobrenome Caimmi passa a ser Caymmi. Com a chegada do bisavô, começara a ser plantada ali, em terras tropicais, toda a alegria, irreverência e simplicidade de Dorival Caymmi. O gosto pela música surtiu com maior impacto em Caymmi ainda na adolescência. Ele começou a tocar por vontade própria violão sem que ninguém o amestrasse. Uma vez, na escola, tomou seis “bolos” de palmatória do professor de Geografia, por ter feito uma trovinha de rima impublicável com a palavra “pororoca”. Dorival teve o seu primeiro ofício aos 13 anos.

Caymmi começou por labutar no Jornal “ O imparcial” em Salvador, como tinha a letra formosa, escrevia a mão o nome e endereço dos assinantes. Passado algum tempo, em 1935, Caymmi após alguns testes começou a cantar na rádio Clube Bahia. Viaja para o Rio e carrega consigo a esperança de ganhar a vida como desenhista periódico e chegou até a publicar algumas ilustrações na revista “O cruzeiro”. Quando chegou ao Rio, morou numa pensão na Rua das Marrecas, ao lado de uma zona de prostituição. Após um ano no Rio de janeiro Caymmi ganha o concurso de músicas carnavalescas. O seu estilo musical, suas músicas, fala sempre sobre hábitos, costumes e tradições do povo baiano. Caymmi, sobretudo, foi também bastante influenciado pela música negra. O eterno Dorival era conhecido pelo seu timbre notável e seu jeito ímpar de compor e cantar.

Caymmi não alcançou diplomas, muito menos doutorado. Assim como suas músicas, ele também foi singelo de corpo e alma, ele frequentou apenas o ensino fundamental. Pronto. Propaga-se a boa notícia que Caymmi era bom cantor e compositor e, após testes, passou a cantar na Rádio Tupi. Nesse ramo “famoso” ele conhece e cria fortes laços de amizade com Tom Jobim e os escritores Jorge Amado e Rubem Braga. Apaixona-se por Stella Maris e os dois casam-se e celebram o amor em 1940.

Nana, Dori e Danilo. Todos Caymmi e filhos do próprio. E assim como o pai, todos são músicos. Caymmi obteve muito sucesso com suas músicas, mas as que caíram no gosto popular e que ficaram ali reservadas no peito, foram: Marina, Das Rosas, Maracalhanga e Modinha para Gabriela. Músicas que tornaram clássicos da MPB. A sua ciência, o adestramento, o diferencial que ele tinha para as composições era algo bastante simplório e, ao mesmo tempo, sofisticadas. São músicas que é notório o amor e admiração que o autor sente pela sua terra e a natureza. O seu adestramento era tal que Caetano Veloso enaltece-o, enunciando: “Escrevi 400 canções e Dorival 70, mas ele tem 70 perfeitas e eu não”.

Dori, como era carinhosamente chamado, influenciou grandes nomes da nossa música brasileira como: Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia e Tom Jobim (com quem gravou um disco em 64). Quando alcançou os seus 70 anos, em 1984, ele ganhou de Carlos Drummond de Andrade uma crónica intitulada: “Que são 70 anos? E aqui fica um trecho: “Que são 70 anos diante da melodia que não conta tempo, não envelhece, enquanto as modas de cantar se sucedem e quase nada de música existe mais do que esta estação?” Também na casa dos setenta, Caymmi é condecorado como Doutor Honoris Causa na Universidade Federal da Bahia. Reza também a lenda que Dori era um eterno apreciador de Conhaque, além de ser o eterno apaixonado pelo mar.

Em 2005, as canções de Dori foram inspiração para estilistas de uma grife de roupas, a Totem. A ideia era que um turista se apaixonasse pelas histórias do lugar e fizesse uma releitura de roupas baianas. Não só para a moda, mas também para os filhos, Caymmi foi de fiel inspiração. Em janeiro deste ano, em celebração dos seus 100 anos, os seus filhos lançaram o álbum Caymmi. Dori teve também as suas músicas como tema em várias novelas brasileiras, como: Mulheres apaixonadas (2003) e Gabriela (2012), em que a música “Modinha para Gabriela” voltou a fazer sucesso nas rádios, essas são duas de muitas tramas que receberam como temas as músicas de Dori.

Mas foi com muita dor e consternação que Dorival Caymmi, o eterno, nos deixa em 16 de agosto de 2008, onde falece em casa aos 94 anos, de falência renal. Não foi apenas uma vida, mas sim uma história. Uma história de luta, júbilo, muitos sorrisos e boa música. Tenho a certeza que Dori sempre será lembrado como um dos principais cânones da música brasileira, ele que com sua irreverência transformou a Bahia em música, a natureza em verso e o mar em melodia.

O eterno Dori ainda vive entre nós por meio das suas inesquecíveis músicas e será sempre perene no nosso meio enquanto o bom gosto e orgulho do que é nosso reinar. E daquele que deu voz ao sertão nordestino e à cultura popular do semiárido, só tenho a dizer: parabéns! Parabéns por esse legado lindo que nos foi deixado e por essas três vozes lindas que são as dos teus filhos. Dori, o nosso sentimento por você hoje, em que você completaria 100 anos, é de extrema saudade, uma saudade que você descreve em um dos seus versos, que diz assim: Tudo acontece a todos nós/Sempre uma dor, um ai de amor/E, de um infeliz, se ouve a voz/Sinto saudades, tristezas/Bem dentro de mim/Coisas passadas, já mortas/Que tiveram fim”.

A música brasileira perdera mais um pai.


Túlio Santos

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