cultivando palavras

Que tudo que eu quero não fique apenas no pensamento, mas que possa vir tornar-se realidade

Túlio Santos

"Odiamos o que quase somos."

40 anos de liberdade

"Sei que está em festa, pá! Fico contente. E enquanto estou ausente, guarda um cravo para mim. Eu queria estar na festa, pá! Com a tua gente e colher pessoalmente uma flor no teu jardim."


Até o início de 1974, Portugal era administrado e governado por um regime autoritário de inspiração fascista italiana que começou a dominar o país sob o governo do Estado Novo. A República nova foi apoiada pelos burgueses, pela igreja católica e por pequenos e grandes proprietários de terra. Essa política era composta por diversos intelectuais, semifascistas, conservadores, uma polícia secreta e também pequenas empresas privadas.

De 1926 até 1974, o destino das produções literárias, em Portugal, pode ser entendido a partir de três condições envolvendo as obras produzidas. Estas podiam ser toleradas, proibidas ou mutiladas, dependendo do arbítrio dos censores. O ato criativo via-se limitado, pois os artistas eram obrigados a ter diante de si a consciência de que seu trabalho artístico e o seu destino como escritores dependia daquelas pessoas encarregadas de analisar o produto final da sua escrita: a obra destinada à publicação.

Sob esse crivo humilhante passaram escritores como Aquilino Ribeiro, Fernando Pessoa, Vergílio Ferreira, Agustina Bessa-Luís, José Régio, António Sérgio, Maria Teresa Horta, José Cardoso Pires, Agostinho da Silva, Irene Lisboa, Fernando Namora, Maria Judite de Carvalho, Isabel da Nóbrega, Urbano Tavares Rodrigues, Jorge de Sena, Isabel Barreno, Miguel Torga, Alves Redol, Sophia de Mello Breyner Andresen, entre outros.

Este poder político estava sobre as mãos de António de Oliveira Salazar, um conservador e tradicionalista católico que governou Portugal durante 41 anos, mas após o seu afastamento, Salazar foi substituído por Marcello Caetano que governou até 1974. Na época Salarazista era disseminado a dor, o medo, o silêncio e o terror na sociedade em que se vivia, pois os interrogados eram torturados e mantidos, se necessário, em prisões. Como podemos imaginar, o povo português desta época viveu sobre um verdadeiro inferno em que todos viviam em silêncio, mas no interior de cada um fervia o desejo da mudança e liberdade.

Com a chegada da Revolução de abril, surgiu no povo português a chegada de um novo horizonte e de novos projetos e visão sobre o mundo. Essa Revolução deveria ser vista por todos como uma porta que se abre e que não fecha; como um progresso para Portugal e inovação do mesmo, visto que, foi extirpado do país uma ditadura muito intensa.

Então, no dia 25 de abril, explode a revolução. A senha para o início do movimento foi dada à meia-noite através de uma emissora de rádio, a senha era uma música empecida pela censura, "e depois do adeus", de Paulo Carvalho. Os militares fizeram com que Marcelo Caetano fosse deposto, o que resultou na sua fuga para o Brasil. A presidência de Portugal foi assumida pelo general António de Spínola.

A população saiu às ruas para comemorar o fim da ditadura e distribuiu cravos — a flor nacional — aos soldados rebeldes em forma de agradecimento. E uma das principais distribuidoras dessas flores, ou melhor, a responsável pela distribuição é Celeste Caeiro, atualmente com 79 anos, foi a mulher que fez do cravo o símbolo do 25 de abril de 1974.

Ao divagar pela Rua do Carmo em Lisboa, Dona Celeste se apercebeu do alvoroço e parou para falar com um dos soldados que lhe contou que a tropa já ali estava desde as 3 horas da madrugada, este então perguntou-lhe se Dona Celeste tinha um tabaco para lhe oferecer. Dona Celeste nada tinha naquele momento para oferecer aos soldados e decidiu oferecer-lhe um cravo. Distribuiu-se cravos vermelhos aos populares que por lá passavam, e estes os ofereciam aos soldados que estavam espalhados por toda Lisboa. Os soldados ao receberem os cravos vermelhos colocaram-nos nos canos das espingardas como um gesto de paz.

O principal responsável dessa queda da ditadura foi o MFA (Movimento das Forças Armadas) O que motivou este grupo de militares foi, essencialmente, o desejo da liberdade até então negada ao povo português e o descontentamento pela política seguida pelo governo em relação à Guerra Colonial. O 25 de Abril é uma data histórica para todos os portugueses, pois o salazarismo foi abolido e o povo português sofreu uma grande mudança, alcançou a liberdade, a democracia e a paz como foi ambicionado. Até hoje, todos os anos, celebra-se o feriado da liberdade do povo português.

Nesse dia tão gloriosos para Portugal, as pessoas que viveram nessa época, relembram os árduos dias da sua vida antes do 25 de Abril de 1974 e comemoram o liberalismo. Pode-se dizer, portanto, que as comemorações dos 40 anos do 25 de Abril representam o ápice de um processo de combate pela memória da Revolução. E já dizia Natália Correia, gloriosa mulher e uma grande ativista, que "O que é que ficou da revolução do 25 de Abril? Ficou uma grande disponibilidade para as pessoas se organizarem."

Mas não basta apenas querer liberdade e não proclamar mudança. Não adiantaria de nada sair da gaiola e ficar estagnado no tempo, vendo o tempo passar. Se lutamos pelo que é de direito, pelo que é seu, nosso, porquê não fazer jus à liberdade? Não adiantaria de nada sofrer a revolução dos cravos e não criar a capacidade de reflexão e mentalidade de ali adiante.

Encerro esse artigo com as sacras palavras de Saramago:” A única revolução realmente digna de tal nome seria a revolução da paz, aquela que transformaria o homem treinado para a guerra em homem educado para a paz porque pela paz haveria sido educado. Essa, sim, seria a grande revolução mental, e portanto cultural, da Humanidade. Esse seria, finalmente, o tão falado homem novo." Que se viva o tempo novo, a sociedade e que viva, sobretudo, o 25 de abril.

Que a liberdade seja perene por mais 40 anos e assim sucessivamente.


Túlio Santos

"Odiamos o que quase somos.".
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