cultivando palavras

Que tudo que eu quero não fique apenas no pensamento, mas que possa vir tornar-se realidade

Túlio Santos

"Odiamos o que quase somos."

O amor omisso de Camilo Pessanha

Camilo de Pessanha sentia por Ana de Castro, amiga de longa data, um amor omisso que apenas revelava indiretamente por meio das cartas. Um amor que só cabia a ele e mais ninguém. Um amor tão omisso a ponto de viver e morrer calado com ele.


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Ana de Castro casa-se e Pessanha crê que as suas chances acabam ali. Os dois não viveram um romance, mas Ana de Castro nunca percebera o quão grande era aquele amor e que talvez ela pensasse que fosse amizade. E se depois da morte de Pessanha, Ana de Castro demonstrasse e respondesse todo esse amor a ele? E se ela transmitisse para o papel o amor imaculado, guardado e omisso há anos?

Camilo De Almeida Pessanha, nascido em 7 de Setembro de 1867 na Sé Nova, Coimbra, Portugal, é filho ilegítimo de Francisco António de Almeida Pessanha, um estudante de direito e de Dona Maria Espírito Santo Duarte Nunes Pereira, que era sua empregada.

Camilo assim como o pai, também tirou um curso de Direito em Coimbra. Foi professor de filosofia por três anos em um Liceu de Macau, vindo a ser deixado o seu cargo por não ser nomeado. Pessanha publicou seus poemas em várias revistas e jornais, mas seu único livro "Clepsidra", foi publicado sem o seu consentimento - pois ele estava em Macau -por Ana de Castro de Osório. Pessanha é considerado até hoje um dos poetas mais importantes da língua portuguesa.

Em vida, Pessanha teve um grande amor por Ana de Castro, mas cujo amor foi recusado, pois ela estava casada. Pessanha enviara várias cartas à Ana de Castro, mas nunca obteve resposta. Passado alguns anos, Ana de Castro enviuvou-se e encontra-se com Pessanha, mas esse reencontro não reacendeu os amores frustrados. Pessanha sofria calado com esse amor que era só dele. Pessanha ,com a sua caneta, transportava para todos os seus poemas esse amor tão incomensurável; um amor não correspondido que ultrapassou os tempos.

E se através de uma carta, mesmo depois de morto, Ana de Castro colocasse no papel o que ele tanto queria ouvir? Se através de uma carta ou através da morte, ela visse que não podemos resistir às tentações, e que se pudesse voltaria atrás?

Lisboa, 1 de Março de 1927

Querido Pessanha,

Aqui aos prantos e sozinha, recordo-me que hoje faz um ano que foste para longe do nosso meio. É com muita felicidade que todos os dias leio cada verso das tuas declarações. Porquê é que eu vim entender o sentido destes versos só depois da tua morte? Ó, Pessanha! Tivesse entendido antes para viver o bom do amor. Ó, Pessanha! Quanta saudades tenho tuas!

Aqui, sozinha no meu quarto, com o coração sangrando de tristeza, reavalio o quão grande e incomensurável era o seu amor por mim. Cada pontinho, cada verso, cada vírgula, cada palavra ,que por mais simples que seja, perfura nesse meu coração de forma tão profunda que ao sibilar sinto no ar o seu amor por mim. Que amor é esse que reina depois da morte? Que amor é esse que me faz todos os dias ler e reler os poemas teus? Ó, Pessanha! Quem dera eu amar-te em vida. Ó, Pessanha! Quem dera eu, poder agora, aqui, olhar no profundo dos teus olhos e dizer as mais sinceras e verdadeiras palavras.

Desculpa-me pelas incontáveis vezes que não respondi-te. Nunca que eu poderia imaginar que naquelas entrelinhas escondia um amor puro e verdadeiro. Mas porquê esse amor omisso? Porquê é que nunca chegaste e diretamente me dissesse o que sentias? Porquê é que deixaste eu casar-me com o Paulino? Ah! Agora sim compreendo o motivo de não apareceres no meu casamento. A dor que sinto, agora aqui neste momento, essa dor que é pior do que a dor que eu sentiria se morresse, pois estar vivo sem você é excruciante.

Ó,Pessanha! Sei que o que eu fizer, escrever, falar agora nunca irá trazer-te de volta, mas prometo que todos os dias lembrarei-me do seu sorriso, de sua face, dos seus olhos, de ti. Há exatamente um ano que morreste e parece que era ontem os nossos incansáveis serões em minha casa. Como era bom ter-te por perto. Se eu soubesse de todo esse amor e sentisse como sentias, eu largaria tudo para correr para os teus braços. Ó, Pessanha, Como é doloroso o "se".

"E" e "se" São duas palavras que por si só estando separadas são apenas palavras, mas quanto colocadas lado a lado, fazem um estragos inimagináveis. E se tivesses vindo a mim e contasse-me tudo? E se tivesses declarado para mim nas noites de serões? E se tivesses à minha frente toda essa atitude que tinhas nas cartas? Ah, Pessanha! O seu amor para mim é como tu mesmo escreveste num dos seus poemas; o teu amor para mim é como "um lenço bordado... Esse hei de o levar, que é para o molhar na água salgada, no dia em que enfim deixar de chorar."

Com amor, Ana de Castro de Osório.


Túlio Santos

"Odiamos o que quase somos.".
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