cultivando palavras

Que tudo que eu quero não fique apenas no pensamento, mas que possa vir tornar-se realidade

Túlio Santos

"Odiamos o que quase somos."

A gente cresce sempre com o outro

O que seria da vida sem as trocas de experiências?


Estranhamente nos daríamos bem naquele grupo fechado para pessoas com problemas sérios de distúrbios. Perco o sono todos os dias e, apesar de viver normalmente, a falta de dormir me deixa assim. Repousava-me pouquíssimas vezes. Conhecemo-nos entre a hora do remédio e do chá da tarde. Falamos de poucas coisas. Falamos do tempo, da comida, da bebida, e da vida. Discutimos como seria nossas vidas a partir dali.

Entrar para uma casa de repouso não foi fácil. Vi-me coagida por mim mesma para ir para lá. Meu casamento estava péssimo. Foi frustrante no início. O ambiente era carregado, cinzento e misterioso. As coisas não são o que parecem quando as vemos por fora. É preciso vivê-las para conhecê-las e depois experimentá-las. As minhas experiências, ali, foram surreais.

Depois de tomar meu remédio e sorver o último gole de chá fui para o quarto. No caminho ele ficou lá, parado, olhando para mim.

Durante a minha insónia eu pensei no que ele disse-me. “Precisava refazer-me para não poder errar mais no futuro. Os erros que cometemos devem ser poucos. Estar numa Casa de Repouso onde o objetivo de todos é dormir, eu não poderia escolher lugar melhor para refletir nas madrugadas. O silêncio ajuda-me e não consigo ouvir-me lá fora. O mundo está gritando de mais.” Mas o que o levou a ir para lá? Não é normal o mundo ser assim devido aos avanços e outras coisas mais?

No dia seguinte o céu estava lindo. O sol brilhava com intensidade. Dormi pouquíssimo. Passei a noite em claro pensando na minha vida. Fiquei curiosa por encontrá-lo de novo, mas ele nem me disse o nome dele. Desci para o jardim e avistei-o. Ele estava sentando, virado para o sol, com a mão num dos pulsos. Aproximei-me dele e disse-lhe bom dia. Notei nos olhos dele um peso estranho, como de quem estivesse a chorar. Curiosamente perguntei-lhe se estava a chorar e ele disse-me que sim. Poderia ter dito a ele inúmeras coisas sobre chorar, mas fiquei calada. Talvez o meu próprio choro teria me calado, talvez as minhas próprias lágrimas teriam me traído. Chorar não apenas esvazia os olhos, mas enche o coração. Enche o peito de inúmeras outras coisas que não advém das águas que rolam pela face. Chorar liberta, não chorar aprisiona. Ficar ali, olhando-o a secar as lágrimas, senti também o desejo impetuoso de chorar. Não controlamos as nossas lágrimas.

Antes de irmos para o refeitório tomar o café da manhã ele disse-me o seu nome: António. Que coincidência ver outro António chorar. Esse chorava por saudade. Meu pai chorava por tristeza.

A minha vida antes dali não tinha sido fácil. O meu casamento estava numa masmorra e creio sim que a minha falta de sono começou a partir disso. Perdia-o para pensar na vida. Amava muito o meu marido mas tinha que amar-me mais do que qualquer coisa porque homem nenhum me daria uma felicidade plena. Nossos dias eram preenchidos de conversas rápidas e de várias alfinetadas. Ele já não era o mesmo e eu já tinha mudado há tempos. Nosso amor estava desgatando… Decidi então dar um tempo a mim mesma. Fui para a Casa de Repouso para dar um rumo na minha vida.

Conhecer o António foi um período bastante satisfatório para mim. Vi nele coisas minhas que eu já tinha me esquecido. Conversar é relembrar e viver de novo. Os dias passavam e nossa amizade só crescia. Há tempos que não me abria tanto para alguém assim. Falar de qualquer assunto com ele deixava-me mais leve, mais humana, mais mulher.

Não digo que apaixonei-me por ele porque não via isso no seu olhar. Não sentia a disponibilidade, muito menos intenção. Apaixonei-me por um ser que irradiava luz, positividade e identificação. Conhecer o António foi uma completa identificação comigo mesma. Apaixonei-me por António no sentido mais doce e puro que existe. Ganhei um grande amigo.

Estar ali, durante dias, naquela Casa, fez-me redescobrir quem eu verdadeiramente era e que a companhia de alguém é tão importante como a própria água. Aprendi também que apesar de amar muito alguém, eu não devo fazer desse alguém meu porto seguro. Meu porto seguro tem que ser eu mesma, pois não sei se esse porto seguro estará lá quando eu realmente precisar dele. Descobrir, durante os dias, que António sofria a dor da perda, intensificava ainda mais a vontade de refazer os laços que cortei com diversas pessoas. Disse para mim mesma que assim que saísse dali recuperaria a minha vida por completo.

Perder tempo com alguém que só rouba o seu tempo é perder a si próprio. Esse alguém nunca irá lhe devolver o tempo perdido. Conhecer pessoas e abrir-se com elas é mais eficaz do que terapias em divãs de psicanalistas sérios. Sair de casa, mudar a rotina e comer sushi é algo muito radical para quem sempre fez o mesmo.

A minha vida não é a mesma depois que comecei a dormir menos. Pensar que fui para ali apenas para ter um tempo comigo mesma me faz feliz ao evocar. Com António revivi o meu passado que eu havia esquecido. Com António eu voltei a ser quem eu era antes.

E hoje, depois de quase trinta anos desde a minha estadia naquela Casa, descobri que António faleceu. Senti um aperto terrível no peito por saber dessa notícia. Dores vêm e vão, mas há dores que são eternas. Apesar de perdermos o contato durante esses anos todos, eu mantive-o dentro de mim.

Olhando para as estrelas, lembrei do que António disse numa das nossas conversas: “ Meu tempo foi tão curto que perdi minha única filha e não soube o que fazer depois disso. Precisei perdê-la para realmente saber quem ela era. Encontrava-me com ela pouquíssimas vezes durante a semana; fui um pai totalmente desligado. Para mim ela era apenas fruto de uma irresponsabilidade do passado. Estava errado. A minha filha era a única coisa que eu possuía na vida. Perdi tudo quando ela foi-se. Resolvi encontrar-me aqui. Resolvi sair de casa para ficar preso num lugar apenas com estranhos. Saí de casa para chorar e ninguém me perguntar o motivo. Resolvi abdicar da minha vida para poder ficar imaginado como seria minha vida se estivesse o tempo todo do lado dela.”

De súbito passou uma estrela cadente no céu e não fiz nenhum desejo. As minhas certezas são as mais óbvias possíveis: é amar sempre os meus e nunca deixá-los.

Hoje com outro marido, com um lindo filho e com minha vida estabilizada, possuo uma âncora que já não me deixa afundar.

Não era apenas eu que estava na Casa de Repouso somente para tratar da falta de sono. Eu e António tínhamos o mesmo objetivo: resgatar quem nós éramos e refazer quem nós fomos.

Com António aprendi as melhores coisas sobre o tempo. Com António eu aprendi a fazer meu próprio tempo acontecer.

Créditos imagem: ForWallpaper.com


Túlio Santos

"Odiamos o que quase somos.".
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