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Bruno Knott

Bruno Knott é um entusiasta de todas as formas de arte, mas prefere o bom cinema.

Roberto Bolaño, o cinema e o sagrado

O já saudoso escritor chileno Roberto Bolaño escreve em "2666" sobre as antigas (e sagradas) salas de cinema e também sobre o ritual de se assistir a um filme.


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Nascido no Chile, o escritor Roberto Bolãno é considerado um dos autores mais importantes de sua geração.

Ele gostava de ser visto como poeta, mas acabou ganhando notoriedade devido a seus romances e contos, como o vencedor do prêmio Rómulo Gallegos Os Detetives Selvagens e 2666.

Teve uma juventude difícil, sofrendo bullying na escola e convivendo com a dislexia. Seu primeiro emprego foi como vendedor de passagens de ônibus e em 1968 largou a escola e começou a trabalhar como jornalista.

Nos idos de 1977 morava na Espanha, mais precisamente em Costa Brava, onde lavava pratos e coletava lixo de dia e escrevia à noite. Após o nascimento do filho em 1990, decidiu concentrar-se em romances em vez de poesia, pois assim achava que poderia garantir um pouco de tranquilidade financeira para a família.

Infelizmente, faleceu em 2003 devido a insuficiência hepática.

Seus trabalhos mais famosos são A Pista de Gelo (1993), Literatura Nazista na América, Estrela Distante (1997), Os Detetives Selvagens (1998), Amuleto (1999), Noturno do Chile (2000), Putas Assassinas (2001), 2666 (2004), O Terceiro Reich (2010), As Agruras do Verdadeiro Tira (2011). As três últimas foram publicações póstumas.

Por enquanto o meu livro preferido de Bolaño é 2666, eleito um dos 10 melhores livros de 2008 pelos críticos do New York Times. De acordo com o site The Complete Review, trata-se de um trabalho tão importante para a literatura como foi Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Marquez.

Para oferecer um exemplo da escrita dele, reproduzo aqui um dos muitos trechos marcantes de 2666:

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"Depois pôs-se a falar de DVD. Disse que no futuro tudo seria gravado em DVD ou algo semelhante e melhorado, e as salas de cinema desapareceriam.

As únicas salas de cinema que preenchiam uma função, disse Charly Cruz, eram as velhas, lembra?, aqueles teatros enormes onde o coração ficava apertado quando se apagavam as luzes. Essas salas eram lindas, eram os verdadeiros cinemas, o que havia de mais parecido com uma igreja, tetos altíssimos, grandes cortinas vermelho grená, colunas, corredores com velhos carpetes gastos, palcos, lugares de plateia e galeria ou camarote, edifícios construídos nos anos em que o cinema ainda era uma experiência religiosa, cotidiana mais religiosa, e que pouco a pouco foram sendo demolidas para edificar bancos ou supermercados ou multissalas, com telas pequenas, espaço reduzido, poltronas supercômodas. No espaço de uma velha sala de verdade cabem as sete salas reduzidas de um multissalas. Ou dez. Ou quinze, depende. E não há mais experiência abismal, não existe a vertigem antes do início de um filme, ninguém mais se sente sozinho dentro de um cinema multissalas. Depois, pelo que Fate se lembrava, pôs-se a falar sobre o fim do sagrado.

O fim havia começado em algum lugar, para Charly Cruz tanto fazia, talvez nas igrejas, quando os padres deixaram de lado a missa em latim, ou nas famílias, quando os pais abandonaram (aterrorizados, pode crer, bróder) as mães. Logo o fim do sagrado chegou ao cinema. Derrubaram os grandes cinemas e construíram caixotes imundos chamados multissalas, cinemas práticos, cinemas multifuncionais. As catedrais caíram sob a bola de aço das equipes de demolição. Até que alguém inventou o vídeo. Uma televisão não é a mesma coisa que uma tela de cinema. A sala da sua casa não é a mesma coisa que uma velha plateia quase infinita. Mas, se você observar com cuidado, é o que mais se parece. Em primeiro lugar porque por meio do vídeio você pode ver um filme sozinho. Você fecha as janelas de casa e liga a tevê. Põe o vídeo e senta numa poltrona. Primeiro requisíto: estar sozinho. A casa pode ser grande ou pequena mas, se não houver mais ninguém, toda a casa, por menor que seja, de alguma maneira fica maior. Segundo requisito: preparar o momento, isto é, alugar o filme, comprar a bebida que vai tomar, o tira-gosto que vai comer, determinar a hora em que você vai sentar na frente da tevê. Terceiro requisito: não atender o telefone, ignorar a campainha da porta, estar disposto a passar uma hora e meia ou duas horas ou uma hora e quarenta e cinco minutos na mais completa e rigorosa solidão. Quarto requisito: ter à mão o controle remoto, para o caso de você desejar ver mais de uma vez uma cena. E é só. A partir desse momento tudo depende do filme e de você. Se tudo correr bem, que nem sempre corre bem, você vai estar outra vez na presença do sagrado."

Genial.

É uma pena termos perdido tão cedo um escritor tão talentoso. Só podemos imaginar quanta coisa ele ainda poderia ter produzido. De qualquer forma, as obras dele foram feitas para serem lidas e relidas e jamais deixarão de encantar o leitor.


Bruno Knott

Bruno Knott é um entusiasta de todas as formas de arte, mas prefere o bom cinema. .
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