culturiar

Culturiar é uma neologia, um verbo que exemplifica o nossa curiosidade sobre a cultura.

Mário Lúcio

Eu sou apenas um rapaz latino americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo da Grande São Paulo...

Chico Buarque e suas Cantigas de amigo

Muitas mulheres adoram Chico Buarque de Holanda, e não é atoa, afinal ele é o responsável por composições que retratam de maneira ímpar a figura feminina brasileira.


Chico.jpgUma característica bem peculiar que podemos perceber em algumas músicas de Chico Buarque de Holanda é o eu lírico feminino, as várias mulheres em canções memoráveis, em composições inesquecíveis, que tornaram Chico um dos maiores de seu tempo até os dias de hoje. Chico consegue em suas letras desnudar a alma feminina, revelar angústias, fragilidades e principalmente a força da mulher brasileira que durante anos vem crescendo em todas as áreas. Acompanhando algumas letras, podemos comparar as belas poesias de Chico Buarque com as Canções de amigo da época medieval galego-portuguesa. As Cantigas de amigo eram poesias que evidenciavam o sentimento amoroso de uma mulher de posição social inferior (pastora, camponesa), só que quem narra isso é um homem, assumindo assim a posição feminina. Em Bastidores, Chico Buarque mostra uma pessoa abandonada, entristecida e desesperada ao perder seu amor, uma mulher que fez de tudo para ter a atenção daquele homem, que a fez chorar refugiada no camarim, porém dando a volta por cima ao final, sendo aplaudida de pé com a sua canção e admirada por outros homens. A brilhante composição foi interpretada na voz de Cauby Peixoto;

Chorei, chorei Até ficar com dó de mim E me tranquei no camarim Tomei o calmante, o excitante. E um bocado de gim Amaldiçoei O dia em que te conheci Com muitos brilhos me vesti Depois me pintei, me pintei. Me pintei, me pintei Cantei, cantei Como é cruel cantar assim E num instante de ilusão Te vi pelo salão A caçoar de mim Não me troquei Voltei correndo ao nosso lar Voltei pra me certificar Que tu nunca mais vais voltar Vais voltar, vais voltar. Cantei, cantei Nem sei como eu cantava assim Só sei que todo o cabaré Me aplaudiu de pé Quando cheguei ao fim Mas não bisei Voltei correndo ao nosso lar Voltei pra me certificar Que tu nunca mais vais voltar Vais voltar, vais voltar. Cantei, cantei Jamais cantei tão lindo assim E os homens lá pedindo bis Bêbados e febris A se rasgar por mim Chorei, chorei Até ficar com dó de mim

A música Atrás da Porta é considerada um clássico da MPB, uma das mais belas canções de Chico Buarque, nela a personagem novamente se desespera com o abandono do ser amado, nas duas canções até aqui retratadas um fato que coincide, a valorização da mulher pelo lar, o que mais dói a elas é a perda do mesmo, da figura familiar. Atrás da Porta foi eternizada na voz de Elis Regina;

Quando olhaste bem nos olhos meus E o teu olhar era de adeus Juro que não acreditei Eu te estranhei Me debrucei sobre teu corpo e duvidei E me arrastei e te arranhei E me agarrei nos teus cabelos Nos teus pêlos, Teu pijama Nos teus pés Ao pé da cama Sem carinho, sem coberta No tapete atrás da porta Reclamei baixinho Dei pra maldizer o nosso lar Pra sujar teu nome, te humilhar E me vingar a qualquer preço Te adorando pelo avesso Pra mostrar que ainda sou tua Só pra provar que ainda sou tua...

Na canção Folhetim já vemos alguém que é segura de si, brincando com a vaidade masculina e ao final descartando-o, dando ares de meretriz. Essa música ficou famosa na voz de Gal Costa;

Se acaso me quiseres Sou dessas mulheres Que só dizem sim Por uma coisa à toa Uma noitada boa Um cinema, um botequim E, se tiveres renda Aceito uma prenda Qualquer coisa assim Como uma pedra falsa Um sonho de valsa Ou um corte de cetim E eu te farei as vontades Direi meias verdades Sempre à meia luz E te farei, vaidoso, supor Que és o maior E que me possuis Mas na manhã seguinte Não conta até vinte Te afasta de mim Pois já não vales nada És página virada Descartada do meu folhetim

Relembrei 3 músicas, mas poderia ter citado inúmeras outras como Ana de Amsterdam; Com açúcar, com afeto; O meu guri; Gota D’água; Tira as mãos de mim e muitos outros títulos de sucesso. O caro leitor pode ver que Chico Buarque retratou ao longo dos anos a mulher de várias maneiras, as submissas, as prostitutas, as politizadas, as vingativas, as mães, enfim várias formas de enaltecer a mulher que também ao longo dos anos foi se transformando, adquirindo força perante a uma sociedade masculinizada.


Mário Lúcio

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