culturiar

Culturiar é uma neologia, um verbo que exemplifica o nossa curiosidade sobre a cultura.

Mário Lúcio

Eu sou apenas um rapaz latino americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo da Grande São Paulo...

O Hino da Anistia

Desvendando uma das letras mais aclamadas na Música Popular Brasileira.


foto.jpgSem dúvida alguma, esses dois que aparecem na imagem criaram uma das músicas símbolo da história do Brasil, João Bosco com a melodia e Aldir Blanc com a letra conseguiram fazer de uma canção um hino, assim intitulado pelo finado cartunista Henfil, o hino da anistia. O período histórico dessa música se passa no momento mais deplorável brasileiro, a Ditadura Militar. Assim como outras belas canções da época, essa letra é carregada de significados ocultos, era a forma de despistar a Censura que escolhia o que era ou não permitido ser gravado. O ano de lançamento foi em 1978, João Bosco criou uma melodia (inspirada na música Smile) que homenageava o ator Charles Chaplin, falecido no Natal do ano anterior. O compositor apresentou a música ao seu parceiro Aldir Blanc, e assim começou a surgir mais do que uma letra, uma poesia. Vamos analisar estrofe por estrofe; Caía a tarde feito um viaduto E um bêbado trajando luto Me lembrou Carlitos...

elevadopaulodefrontinde.jpgO viaduto citado no primeiro verso é uma referência a duas tragédias que aconteceram no ano de 1971. Uma que ocorreu no Rio de Janeiro foi o desabamento, durante sua construção, sobre ônibus, pedestres e carros, de parte do Viaduto Paulo Frontin e a outra, em Belo Horizonte, um pavilhão que, projetado por Oscar Niemayer sob a ordem do governador de Minas Gerais, Israel Pinheiro, também desabou sobre os operários, durante a hora de folga, no meio-dia.

Já o nome Carlitos, assim era chamado o homenageado Charles Chaplin.

A lua Tal qual a dona do bordel Pedia a cada estrela fria Um brilho de aluguel

A lua representa os políticos civis que se colocaram a favor do regime, a fim de obter ganhos. Eles "acreditavam" tanto na propaganda oficial que se dizia que se um general declarasse que a lua era preta eles passariam a defender tal tese como verdade absoluta. Em determinada época foram até chamados de luas-pretas. A Câmara de Deputados e o Senado foram algumas vezes comparados a bordéis devido aos negócios imorais que lá se faziam. As estrelas são das divisas dos generais, donos do poder. Alguns deles nunca apareceram como governantes, preferindo manipular nos bastidores. O brilho de aluguel era como mencionado acima, os ganhos pessoais e até eleitorais obtidos pelos civis que aceitavam se sujeitar a serem marionetes.

E nuvens! Lá no mata-borrão do céu Chupavam manchas torturadas Que sufoco! Louco! O bêbado com chapéu-coco Fazia irreverências mil Pra noite do Brasil. Meu Brasil!...

O mata-borrão era um papel que absorvia a tinta em excesso das canetas-tinteiro para evitar erros. O DOI-CODI, nossa temível polícia política do período ditatorial era uma espécie de mata-borrão do regime.

Que sonha com a volta Do irmão do Henfil. Com tanta gente que partiu Num rabo de foguete Chora! A nossa Pátria Mãe gentil Choram Marias E Clarisses No solo do Brasil...

Vladimir Herzog2.jpgO irmão do Henfil era o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, exilado do país, foi o símbolo da anistia, que era uma lei promulgada em 1979 pelo presidente Figueiredo, revertendo punições aos cidadãos brasileiros que foram considerados criminosos políticos e dando a oportunidade de voltarem a pátria. As Marias e Clarisses representam as mães que perderam filhos, maridos, irmãos na época da Ditadura Militar, Maria era a esposa do operário Manuel Fiel Filho morto em 1976 e Clarisse esposa do jornalista Vladimir Herzog que foi encontrado num suposto “suicídio” em 1975 numa das selas do DOI-CODI.

Mas sei, que uma dor Assim pungente Não há de ser inutilmente A esperança...

Apesar da triste realidade da época, Aldir Blanc preferiu retratar que poderia haver uma esperança, uma chance de tudo terminar bem. Dança na corda bamba De sombrinha E em cada passo Dessa linha Pode se machucar...

Referência ao comportamento da sociedade, que vivia na corda bamba, uma sociedade sempre por um triz de ser pega fora da linha estipulada pelos militares. Azar! A esperança equilibrista Sabe que o show De todo artista Tem que continuar...

E32C4.jpgOs compositores tinham a certeza que tudo não passava de um jogo de azar, e assim como na antepenúltima estrofe citam a esperança, uma esperança de não cair, assim como uma Equilibrista de Circo. A música foi eternizada na voz da Pimentinha Elis Regina, e pela interpretação da mesma e da repercussão que essa música teve, Henfil foi brilhante em afirmar que essa letra seria o hino da Anistia. No aeroporto de Congonhas em São Paulo na volta de Betinho do exílio, só se escutava nos arredores O Bêbado e a Equilibrista.


Mário Lúcio

Eu sou apenas um rapaz latino americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo da Grande São Paulo....
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