culturiar

Culturiar é uma neologia, um verbo que exemplifica o nossa curiosidade sobre a cultura.

Mário Lúcio

Eu sou apenas um rapaz afro descendente com um pouco de dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo da Grande São Paulo.

Monte Castelo

Análise da canção quanto ao seu contexto histórico, referencial e filosófico.


No final da Segunda Guerra Mundial aconteceu a Batalha de Monte Castello. Com duração de três meses, o episódio contou com a participação da FEB (Força Expedicionária Brasileira) para combater, juntamente com as tropas aliadas, o Exército Nazista. Uma atuação heroica dos soldados brasileiros que mesmo mal treinados e com equipamentos inadequados, conseguiram derrotar as forças alemãs, expulsando-os dos montes Apeninos e assim dando prosseguimento a ofensiva dos aliados no norte da Itália.

feb-tomada-de-monte-castello.jpgSoldados da FEB na tomada de Monte Castello

Corinto é a cidade grega que tornou-se uma das mais importantes do Império Romano. De ótima localização, o istmo (ligação de uma península ao continente) era perfeito para a circulação de mercadorias e além disso, suas terras eram férteis. Em sua segunda viagem missionária, o apóstolo Paulo fundou uma igreja em Corinto, onde se tinha corrupção, impunidade, prostituição e demais situações que estavam afastando os habitantes daquela comunidade do que os Cristãos chamam de salvação. Ali, Paulo permaneceu dezoito meses procurando transmitir a palavra do Evangelho de Cristo. Paulo nesta primeira carta (historicamente era a segunda, pois a primeira desapareceu), quis citar sobre a questão comportamental para as pessoas daquela comunidade.

Antigua_grecia.svg.pngMapa de Corinto, na Grécia

No capítulo 13, versículos 1-4 dessa primeira epístola, Paulo diz aos Coríntios:

“Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine. E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria. E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria. O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensorbece”

Luís Vaz de Camões era um poeta versátil, autor de peças de teatro, de diversos sonetos (forma poética composta por catorze versos, distribuídos em duas estrofes de quatro versos e duas de três versos) e também autor da obra mais emblemática da literatura portuguesa, a epopeia Os Lusíadas. Camões tinha como referência em seus versos nada mais, nada menos que Platão, filósofo grego que dizia sobre o mundo sensível e o mundo inteligível e que a experiência sentimental perfeita seria aquela do amor espiritualizado, surge assim o termo “amor platônico”. O eu lírico camoniano transitava de intimista a universal, trazendo aspectos que nos flexiona à reflexão.

3. obras de camoes1.JPGLuís Vaz de Camões

No soneto onze de Luís de Camões, que muitos chamam de “Amor é fogo que arde sem se ver”, o autor despeja inúmeros paradoxos para tentar explicar o que necessariamente seria este sentimento inexplicável que é o amor:

Amor é fogo que arde sem se ver;

É ferida que dói e não se sente;

É um contentamento descontente

É dor que desatina sem doer;

É um não querer mais que bem querer;

É solitário andar por entre a gente;

É nunca contentar-se de contente;

É cuidar que se ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;

É servir a quem vence, o vencedor;

É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor

Nos corações humanos amizade,

Se tão contrário a si é o mesmo amor?

Renato Russo compôs Monte Castelo para o álbum Quatro Estações do Legião Urbana (1989), uma música que faz alusão à batalha de Montecastello, aglutina versículos da primeira epístola de Paulo de Tarso aos Coríntios, traz o soneto XI de Luís Vaz de Camões, várias figuras de linguagem e uma mensagem simples e direta sobre o amor:

Ainda que eu falasse

A língua dos homens

E falasse a língua dos anjos

Sem amor eu nada seria

É só o amor! É só o amor

Que conhece o que é verdade

O amor é bom, não quer o mal

Não sente inveja ou se envaidece

O amor é o fogo que arde sem se ver

É ferida que dói e não se sente

É um contentamento descontente

É dor que desatina sem doer

Ainda que eu falasse

A língua dos homens

E falasse a língua dos anjos

Sem amor eu nada seria

É um não querer mais que bem querer

É solitário andar por entre a gente

É um não contentar-se de contente

É cuidar que se ganha em se perder

É um estar-se preso por vontade

É servir a quem vence, o vencedor

É um ter com quem nos mata a lealdade

Tão contrário a si é o mesmo amor

Estou acordado e todos dormem

Todos dormem, todos dormem

Agora vejo em parte

Mas então veremos face a face

É só o amor! É só o amor

Que conhece o que é verdade

Ainda que eu falasse

A língua dos homens

E falasse a língua dos anjos

Sem amor eu nada seria

No contexto histórico da canção, há três situações de adversidades e guerras, além dos momentos já citados como a Segunda Guerra Mundial e os problemas de ordem moral enfrentados pelos habitantes de Corinto, temos também a influência da Idade Média, um dos períodos mais nefastos da história da humanidade. Renato Russo quis nos mostrar que só através do amor, não necessariamente o carnal, mas sim aquele amor que transcende qualquer coisa e é capaz de unir as pessoas num mesmo propósito é possível de transformar, de enobrecer. Mostra que não adianta termos os mais altos cargos, saber diversas coisas e possuir inúmeras aptidões, pois sem o amor ao próximo jamais conseguiremos ser felizes, nada seríamos de fato.


Mário Lúcio

Eu sou apenas um rapaz afro descendente com um pouco de dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo da Grande São Paulo. .
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