curiosas verdades

Artigos sobre verdades históricas não encontradas nos livros escolares

Cláudio B.

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Jogos de Deus

Insanidade, egos feridos, desejos ocultos e depravados, chantagem de ambos os lados, paixões proibidas e a morte, como prêmio final aos que ousaram beber e se embriagar com esta "poção do pecado".


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Introdução

Um Rei confuso, que procurava ardentemente servir a seu Imperador; uma Rainha desprezada por dois homens, escolhidos errôneamente graças a sua libido sem limites; uma Princesa ofendida em seu verdadeiro, mas cego amor e um Profeta, enlouquecendo à cada dia, dividido no dilema entre os costumes de sua religião e um segredo pessoal que carrega desde a juventude. Quatro personagens históricos que vivem um quadrilátero de emoções, que ferve como um caldo infernal, em um caldeirão mexido pelo próprio Diabo. Os ingredientes da receita são muitos: insanidade, egos feridos, desejos ocultos e depravados, chantagem de ambos os lados, paixões proibidas e a morte, como prêmio final aos que ousaram beber e se embriagar com esta "poção do pecado".

Para mim, como escritor, tal drama - após devidamente montado em um verdadeiro e quase inacessível quebra-cabeças, do ponto de vista da pesquisa histórica - ao ser contado, deixa obras clássicas da tragédia humana a exemplo de um Otelo, de Shakespeare, como uma estórinha para crianças!

Hoje, sinto-me honrado em oferecer aos meus leitores, o resultado desta árdua investigação sobre o tema em seu período da história, a qual infelizmente, fui obrigado a costurar com a tênue, mas ainda firme linha da plausibilidade, os fragmentos das poucas e raríssimas referências existentes. Se não o fizesse, jamais daria uma compreensão pura, realista, racional, independente do que já foi escrito ou do que é até hoje apresentado, para a produção de um roteiro decente, onde posso servir o começo, meio e final da estória. Sem folclores, teologias ou mesmo, visões artísticas, neste texto impressionantemente forte e que confesso, me fascinou. Afianço-lhes apenas que, esta é primeira vez, na literatura mundial, que alguém toma a coragem de publicar essa novela e do jeito como eu o faço, agora..

Epílogo

"Por que não me olhas, João? Teus olhos, que eram terríveis, tão cheios de ódio e escárnio, estão fechados agora. Por que estão fechados? Abre-os! Ergue as pálpebras, João! Por que não me olhas? Estás com medo de mim e por isso não me olhas? E a tua língua, que era como uma serpente vermelha expelindo veneno, não se move mais, nada diz agora. Não eras aquela víbora vermelha que cuspilhava veneno contra mim? É estranho, não? Como é que a serpente vermelha já não se move?... Consideraste-me ninguém, João. Desprezaste-me. Pronunciaste ignóbeis palavras contra mim. Trataste-me como uma meretriz, uma dissoluta, a mim, Salomé, filha de Herodíade, princesa da Judéia! Bem, João, eu estou viva; mas tu estás morto e tua cabeça me pertence.. ..meu eterno amor! Beijo-te os teus lábios agora ensanguentados, como a derradeira despedida de minha grande paixão, que tu a transformastes em um rio de insanidade e vingança, que agora corre em meu corpo, no lugar de todas as vezes em que estremeci, ao te tocar."

O Cenário

Cerca de cem anos antes dos dias de Jesus e João, uma nova escola de educadores religiosos surgira na Palestina, a dos Apocalípticos. Esses novos educadores desenvolveram um sistema de crença, segundo o qual os sofrimentos e a humilhação dos judeus aconteciam por estarem eles arcando com as conseqüências dos pecados da nação. Para os judeus da Palestina a frase “o Reino do céu” não tinha senão um significado: um estado absolutamente reto, no qual Deus (o Messias) governaria as nações da Terra na perfeição do poder, exatamente como Ele governava nos céus — “Seja feita a Tua vontade, assim na terra como no céu”. Sob esta expectativa, agravada e mutiplicada graças a tensão social da dominação do Império Romano, surge um pastor, filho de um sacerdote Nazarita, que decidiu seguir o caminho religioso de seu pai, pouco após sua morte, imitando o profeta Elias, até mesmo em suas roupas. Passou a fulminar suas repreensões e dardejar advertências, alegando estar possuído pelo "espírito e o poder" daquele personagem bíblico. Mas, bem antes de obter fama por suas agitações e cerimoniais de batismo no Rio Jordão, prática que já era usada entre os prosélitos gentios e que ele resolveu adotar aos judeus, para que se submetessem ao ritual de arrrependimento - devemos saber que o jovem João Batista, fora herdeiro de uma fortuna e um considerável pecúlio deixado por seu genitor. Isso o deixou em contato, com membros da nobreza, palacianos e comerciantes influentes, em sua região. Com livre acesso à este mundo, bem diferente daquele que abraçaria no futuro, sua beleza fisica e dotes genitais, chamou a atenção de Herodíades, ex-mulher do irmão de Herodes Antipas, este agora Rei da Judéia, que a roubou e transformou em rainha.

Segredos e Paixões Proibidas

Esta relação se tornou extremamente perigosa para João Batista, antes mesmo de optar por sua missão como profeta. Neste ponto, percebe-se que a ruptura com a amante, quem seria uma mulher desprezada pelo Rei, considerando-o um "efeminado", deveu-se à vários fatores: Primeiro, o mêdo de Herodes vir a descobrir o caso, que já circulava em fofocas e Herodíades não seria capaz de protegê-lo da fúria do rei, em limpar sua honra. Segundo, a possessão do relacionamento, somada aos jogos sexuais dos desejos cada vez mais insaciáveis da mulher, estavam esmagando-lhe em seu dilema íntimo, oculto por sua fama de garanhão, mas que o dominava à cada dia, provocando-lhe o desejo de uma atitude que lhe proporcionasse a liberdade espiritual de sua própria negação: Sua homossexualidade se tornava latente à cada dia e não conseguia mais esconder de si mesmo, seus desejos ácidos por um outro homem, sua paixão desde a infãncia, quando o conheceu, aos seis anos de idade! Levado por seus pais à casa de parentes, encontrou em meio às brincadeiras infantis com seu próprio primo, sua verdadeira libido, que agora, tomava conta de sua mente como uma fogueira a lhe consumir e refletia-se mais e mais, em sua performance com a fogosa rainha. Terceiro, a filha do casal real, conhecida como Salomé, passou a demonstrar-lhe claramente, igual interesse ao de sua mãe, o que lhe seria mais um problema terrível. A decisão de tornar-se um ermitão, um homem santo, resolveria tudo: uma justificativa aceitável para livrar-se das duas fêmeas, que não lhe permitiam mais suas famosas bebedeiras e orgias bissexuais nas tabernas da cidade e uma maneira de cêdo ou tarde, reencontrar seu verdadeiro amor, através da instituição de sua nova identidade religiosa, que o faria conviver mais próximo de sua comunidade hebraica. Com um pouco de sorte, sua posição se distinguiria e tornaria-se uma figura publica e respeitada, passando a contar com a proteção sacerdotal judaica e com o tempo, seu passado poderia ser esquecido. E assim, o fez.

Como Àgua Entre os Dedos

A longo de sua transformação para a nova vida, a princesa Salomé o procurava em seus retiros espirituais, levando-lhe as mensagens de ódio de sua mãe, por ter sido abandonada e um certo conforto, como comida e bastante vinho do palácio. Tentava assim, aproximar-se daquele homem e demovê-lo de sua decisão absurda, conquistando-o e obtendo, à princípio pelo que descobri - uma mera vitória de uma competição de adolescente, capricho contra sua mãe e uma forma de afrontar seu pai, em um romance polêmico com um plebeu judeu. Este "martírio" de João Batista, agravou sua fragilidade psíquica uma vez que tornava-se mais difícil evitar as investidas daquela que, lendáriamente, se tornaria uma das mulheres mais malvadas e ao mesmo tempo, sensuais e cobiçadas, da História. Complicava-se a situação, quando no auge de seus ataques políticos ao governo romano, o agitador passou a acusar Herodes de incesto, pois Herodíades era também sua sobrinha. Isso seria suficiente, aos costumes e as leis hebraicas, para condenar o rei diante do julgamento de Deus, que como vimos, estaria iminente com a chegada do Messias Salvador. Ao mesmo tempo que ganhava simpatia de seus seguidores com esta ação, obtinha a inimizade do soberano, que o mandou prender por várias vezes, porém o libertava, por vezes sob a intervenção de Salomé, outras, para evitar uma explosão dos grupos religiosos, nociva aos planos de Calígula, durante a expansão do Império Romano e dominação dos bárbaros. Tinha receio de ser considerado e condenado como um traidor político, o que acabou acontecendo ao final de seu reinado. Enquanto isso, Batista em sua fúria de pregador, suportava duramente as investidas - todas recusadas - da princesa, que passaram às ofensas e agressões mútuas, logo depois que batizou seu primo e teria sido rejeitado pelo mesmo, na ocasião. Este já iniciara um romance com uma jovem da cidade de Magdala, ao mesmo tempo em que procurava desvencilhar-se, aos poucos, de sua antiga relação íntima com o agora seu seguidor e discípulo, chamado Judas.

Sonhos Destruídos

A decepção, depressão e a loucura lhe tomaram conta de uma vez, fazendo-o se esconder em cavernas, bem distante de tudo aquilo que representava-lhe sua própria desgraça. Usava uma pedra, como travesseiro, o que acredito particularmente, que teria sido uma das causas de suas terríveis dores de cabeça, as quais lhe proporcionavam alucinações - estas, consideradas visões proféticas aos olhos de seu rebanho disperso, mas que não passavam de flashes confusos entre sua consciência, sonhos e desejos reprimidos, misturados e martelando-lhe a razão. Balbuciava frases ininteligíveis, intercaladas com ímpetos de oratória aos berros, enquanto não se furtava em embriagar-se até cair, com o vinho que Salomé ainda lhe enviava. Tinha visões e ouvia vozes, antes de ser novamente preso. Este estágio de sua doença mental, o direcionava à prever o Fim do Mundo, de forma Apocalíptica - exatamente como seu próprio mundo pessoal, havia sido destruído e ele não seria o único à ser atacado pela fúria divina. Sua esperança se agarrava apenas ao fato de que poderia ser perdoado, encontrando sua redenção após o Julgamento Final, ato que não conseguia mais distinguir se messiânico ou proveniente de seu ódio por si mesmo. Salomé, cada vez mais infeliz, consumia-se ao ser descoberta por sua mãe, de sua agora verdadeira paixão, em um fogo inflamado entre seus desejos sexuais totalmente desabrochados e a ira, tão crescente quanto sua beleza, por ter perdido seu grande e único amor, para um outro homem. Era mais jovem e bela que sua mãe - quem só o desejara como escravo sexual - e tal impasse, seria o inimaginável, mesmo diante dos deuses, que permaneciam silenciosos, ante suas orações e crises de histerismo constantes.

Todo este processo é perfeitamente notado, se revelando anos depois, quando Pilatos envia Cristo à Herodes, para que definisse sua sorte e - graças à intervenção de Herodíades - o manda de volta, sem decidir nada. A matrona aproveitou-se para dar um troco em sua própria filha, sabendo que aquele seria o antigo rival de Salomé, durante sua aventura fracassada, com o agora já falecido João Batista, quem não lhe representava mais nada. A liberdade do pivô de todas as frustrações, das mãos de Herodes, funcionaria como uma bofetada com luvas de pelica, por conta das traições e mágoas do passado e agravaria o estado psicótico e de remorso total em que a outrora bela princesa, havia mergulhado de vez, desde a morte de Batista). Dizem que daí provém o jargão popular "a vingança é um prato que se come frio"..

A Tragédia Final

Muito embriagado, durante uma festa no palácio, Herodes quer mais.. E louco de desejo, pede: "Salomé, dança mais uma vez !". Ela recusa, esquiva, mas de novo o tetrarca insiste: "Dança para mim outra vez ! Se o fizeres, pede-me o que quiseres que te darei, nem que seja metade dos meus reinos. Tudo será teu !". Salomé hesita, mas depois num relance, percebe que tem, naquele momento um poder imenso e vai usá-lo. Como ? Caprichosa, e sem pestanejar, como quem tira um fruto maduro de uma taça, diz: "Quero a cabeça de João Batista numa bandeja de prata". Herodes Antipas fica branco, quase petrificado, não acredita no que houve e diz-lhe para escolher algo diferente. Que peça jóias, tecidos caros mandados vir de longínquas paragens, os luxos mais inatingíveis, mas a cabeça do profeta não. Herodes tem medo, não é bondade que o faz agir assim, mas uma rebelião incontrolável, com suas tropas reduzidas do grosso que foi enviado para Calígula em sua expansão. Imperturbável, Salomé repete, sem hesitar: "Danço outra vez para ti, se me trouxerem a cabeça de João Batista". E Herodes cede. Terá de cumprir a palavra dada perante tantas testemunhas e manda que as suas ordens se cumpram. Entrega ao chefe da guarda pessoal o seu anel, para que este o mostre ao carrasco e para que este execute, sem demora, a sentença. A prisão onde estava João Baptista distava ainda alguns quilómetros do palácio. Teria havido um silêncio arrepiante ? Ou a música e o festim prosseguiram ? Um pouco mais tarde, a cabeça de João Batista é trazida à presença de Salomé. Esta olha-a, ainda ensanguentada.

A partir daquele momento, João Batista é um mártir, transformado em Santo, evocado no dia do seu nascimento – 24 de Junho – mas que, em alguns locais, também se comemora a sua memória a 29 de Agosto, dia em que foi degolado. O Imperador Constantino mandou edificar a Basílica de São João de Latrão, enquanto Salomé se transformou na encarnação da perfídia, porque ela amara João, que não a desejou e por isso ela agiu por vingança. Quando lhe trouxeram a cabeça do mártir ela beija-o na boca, desesperada.

Leonardo da Vinci, Ticiano, Caravaggio, Bernardo Luigi, Veronese, Pedrini, Rembrandt, Regnault, Eduardo Toudouze, Max Slevogt, Hugo von Habermann, Delacroix, Otto Friedrich, Klimt, Lovis Corinth, Fritz Erler, Juana Romani e Ella Ferris Pell são alguns artistas que se deixaram seduzir por Salomé. Até Picasso e Dali não resistiram ao seu erotismo. Uns enxergam uma Salomé sanguinária, a complexa encarnação da maldade; outros uma Salomé ingénua, que teria obedecido à mãe, quem lhe sugere o tenebroso pedido.

Agradeço aos meus queridos leitores.

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Cláudio B.

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