curiosidade mãe das descobertas

Muitas ideias, perguntas sobre tudo e algumas respostas

Astria Dias Ferrão Gonzales

Mãe de três filhos. Doutora em Bioquímica. Professora e pesquisadora. Geminiana. Curiosa de nascença. E até o fim pesquisando.

A era de desinformática

Por que tanta gente desinformada num mundo tão cheio de informação? O que acontece no século XXI, que tem um acesso a tudo como nunca houve na história da humanidade e ainda assim muita gente não sabe o que acontece ao seu redor? Muitas perguntas sem quase nenhum resposta. Bom prestar atenção.


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Passei as últimas nove horas de um dia de domingo assistindo uma série interessantíssima chamada The Newsroom, na HBO (http://www.hbo.com/the-newsroom). A série trata dos bastidores de uma emissora fictícia de notícias, conforme o título sugere, e conta com as excelentes atuações do norte-americano Jeff Daniels (ganhador do prêmio de melhor ator no Emmy 2013, tendo sido indicado pelo mesmo papel ao Globo de Ouro desse ano-quem levou foi Damian Lewis, por Homeland) e da inglesa Emily Mortimer. Os dois são os protagonistas de uma história já batida do estresse de uma redação em sempre encontrar "furos jornalísticos" e estar à frente dos concorrentes para divulgação das notícias. newsroom.jpg Mas não foi especificamente para falar sobre a série que eu resolvi escrever. O que me despertou a vontade foi a minha própria incompetência de acompanhar várias partes dessa série ao longo do dia. Um texto denso, falado de forma muito rápida, e lotado de informação. A série é legendada (thanks God!) e isso complica ainda mais. Resultado: terminei os nove episódios com uma cefaléia leve devido ao esforço empreendido na batalha de acompanhar as mil e uma histórias contadas com intervalos de dois minutos entre cada uma. E isso ainda raciocinando entre as notícias (várias delas reais, pois o roteirista aproveita para contar um pouco da história recente norte-americana, o que eu adoro) e o drama pessoal dos personagens (que são muitos, além dos dois protagonistas há vários papéis secundários com histórias paralelas). Recentemente passei pelo mesmo processo assistindo um excelente filme recente, que no Brasil foi chamado de "A Viagem" (Cloud Atlas, 2012). Descrito como um épico por vários críticos, pois de fato o é, também conta muitas histórias, todas ao mesmo tempo, em épocas diferentes, com nomes e lugares distintos. O maravilhoso Tom Hanks, ganhador de dois Oscars e quatro Globos de Ouro), ao lado da bela Halle Berry. Cloud Atlas.jpg Esse filme tem como temática a ligação entre os eventos e pessoas ao longo dos séculos, incluindo um futuro distante, e sugere reencarnação. Por esse motivo, um dos esforços a ser realizado é identificar quem era quem e quem virou quem no decorrer da história. Para facilitar as coisas um pouco, os atores representam vários papes na história, incluindo gênero, nacionalidade e cores diferentes dos próprios atores. Mas o ponto a se discutir é o seguinte: tenho uma formação relativamente boa em relação a sociedade como um todo. Sou graduada, Mestrado e Doutorado em Bioquímica, fiz dois pós-doutorados, todos os cursos em instituições de excelência no Brasil. Então eu pergunto a mim mesma por que me sinto tão burra nesses casos, ou seja, porque chego a ter dor de cabeça ao tentar acompanhar muitas informações? Alguém poderia dizer, sim, e daí? Não há formação acadêmica em jornalismo, história, filosofia, etc. É verdade, isso é um argumento que procede em parte. Talvez se eu estivesse assistindo algum filme/série sobre Bioquímica o esforço seria menor. Não sei dizer agora. Mas o fato é que isso já ocorreu em outros momentos e vejo que não sou só eu que passo por isso. Amigos e colegas de trabalho, maior parte de acadêmicos como eu, tem passado por isso também em diferentes situações. E vejo que todos se sentem igualmente "emburrecidos" de alguma forma com o passar dos anos. Alguns atribuem ao estresse, outros à idade, e alguns poucos chegam ao que julgo ser o verdadeiro culpado. O excesso de informação. sua-caixa-de-emails-cheia-parece-com-isto.jpg Sou da geração de 70. Na época em que nasci, a televisão já era popular no Brasil, porém somente a partir da classe média. Até meus cinco, seis anos de idade, tínhamos em casa um única TV preto e branco. Depois passamos a UMA colorida. Cada uma durava vinte, trinta anos em cada família. O rádio, um pouco menos caro, era mais popular, e o jornal impresso era a única fonte de notícias além dos noticiários das poucas emissoras de TV que haviam (cerca de cinco). O primeiro computador que tive acesso foi em 1993, quando entrei para faculdade e nessa época conheci a internet. E a primeira coisa que eu disse ao entender o que significa "a internet", disse (ipsis litteris): "Um mundo novo se abrirá para você!", ao tentar convencer meu namorado a abrir uma conta na rede internacional de informação, a web. A grande teia que ligou todo o mundo numa tela iluminada. Fui recebida às gargalhadas por esse comentário, mas ele e todos entenderam logo que eu não estava nem um pouco errada e nem exagerando o potencial dessa nova ferramenta. Meus filhos são da geração 2000. Eles já nasceram com computador dentro de casa, notebooks, tablets, celulares, smartphones, microsoft, Apple e todo esse mundo que hoje já é lugar comum para quase todos. O tempo em que uma informação é divulgada e o tempo que se leva pra descobrir algo, é até hoje surpreendente para mim. E aí está o segundo ponto, que tem a ver com o primeiro: se quase todos tem hoje acesso à quase toda informação (pois até as sigilosas se mostraram nem tão sigilosas assim), por que as pessoas continuam tão ignorantes e desinformadas? Não falo das camadas menos privilegiadas, apesar dessas hoje também terem acesso a internet, mas falo de pessoas com um certo grau de formação acadêmica. gadgets-in-2013.jpg Por que afirmo isso? Porque a internet também trouxe outra ferramenta importante para troca de informações, as redes sociais. São diversas comunidades de amigos e conhecidos, que trocam diariamente informações pessoais e não pessoais através de Facebook, Twitter, só para citar duas das mais famosas. Essas mesmas são agora citadas em filmes e séries, inclusive o Twitter passa ser uma ferramenta importante na redação da ACN, a emissora fictícia da série The Newsroom. Mas lendo o que as pessoas comentam e compartilham, chego a me achar altamente culta, porque há vezes que a impressão que se tem é que ninguém sabe nada além daquilo o que faz. Me sinto burra após o filme pesado de informações e depois não acho mais isso frente ao que me é apresentado na rede social. É assustador. O que estamos fazendo de errado? Querendo saber demais e no final não sabendo nada? Bom pensar no assunto, sem doer a cabeça e começar a tomar providências com relação isso, cada um por si. Melhor para todos nós, não acha?


Astria Dias Ferrão Gonzales

Mãe de três filhos. Doutora em Bioquímica. Professora e pesquisadora. Geminiana. Curiosa de nascença. E até o fim pesquisando..
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