curiosidade mãe das descobertas

Muitas ideias, perguntas sobre tudo e algumas respostas

Astria Dias Ferrão Gonzales

Mãe de três filhos. Doutora em Bioquímica. Professora e pesquisadora. Geminiana. Curiosa de nascença. E até o fim pesquisando.

O coentro e o coronel

Uma teoria talvez nem tão estapafúrdia assim sobre como o coentro na culinária baiana pode demonstrar resquícios do coronelismo nesse estado. E do sofrimento de quem não gosta ou não pode consumir esse bendito tempero.


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Eu moro na Bahia há 10 anos. E tenho alergia a coentro. Essa erva, cujo nome vem do grego koríandron, que significa "percevejo" (devido ao cheiro que a folha exala quando esmagada), tem tradição na fitoterapia desde os egípcios, há mais 5000 anos e uso indistinto na culinária de países dos cinco continentes. No Brasil, tem uso especial na região nordeste de um modo geral e é muito, mas muito mesmo, usada aqui no estado em que vivo.

E eu tenho alergia ao coentro.

Quando falo alergia, significa que após a ingestão fico cheia de gases no estômago, totalmente nauseada e, a depender da dosagem do veneno, me provoca vômitos. Uma vez, já ciente desse processo (pois como antes morava no Rio de Janeiro levei anos sem saber dessa alergia), caí na asneira de tomar um antiemético (remédio pra enjoo), mal comecei a sentir os sintomas. Foi aí que descobri que minha rejeição física é violenta, pois alguns poucos minutos depois parei de vomitar e ... passei a madrugada com diarréia.

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Não fica difícil imaginar como minha vida, no quesito "alimentação na rua", não é fácil na Bahia.

A cultura do coentro é uma coisa tão enraizada, que a cada vez que vou a um restaurante e digo: "Por favor, minha moqueca sem coentro algum porque eu tenho alergia!", as caras de espanto, crítica e irritação se veem estampadas nos garçons e garçonetes. Certa vez a garçonete de um restaurante pequeno no interior do estado, na cidade de Camamu, ficou muito espantada e a informação de que a moqueca seria sem coentro, trouxe a cozinheira até a minha mesa. Com as mãos nas cadeiras, uma cara bem zangada, disse: "Quem foi que pediu a moqueca sem coentro????". Eu respondi que era eu, explicando novamente sobre a alergia, ao que ela retrucou: "Olhe, se ficar sem gosto a culpa é sua! Não sei que é isso de fazer moqueca sem coentro!".

Essa situação vem se repetindo nos últimos dez anos, com gradações de indignação e espanto de acordo com a educação e boa vontade da pessoa a quem eu me dirijo.

Um dos seus usos em fitoterapia é como anafrodisíaco, ou seja, uma droga que inibe a libido. Fede a percevejo. Só por esses motivos já era para eu não querer nem conhecer. Mas por causa desse mato sou discriminada e não consigo perceber qual o motivo de tanta paixão.

Bem, então vamos a nossa colonização e origem da culinária brasileira. Ela é um misto de influências de Portugal, diversos países africanos e povos indígenas e ainda com uma pitada aqui e acolá de povos europeus que também por aqui aportaram e se fixaram. Mais ou menos nessa ordem de influência.

Do ponto de vista sócio-politico, na região nordeste do país estendeu-se por muito tempo o que chamamos no Brasil de "coronelismo".

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Explicando de forma simplificada: o regime colonial e escravocrata do país, seguido pela independência e república, fez com que a "elite" fosse formada principalmente por portugueses colonizadores e descendentes, camada "forte" da sociedade. Mesmo depois de muitas décadas de república, persistia nos estados mais pobres do país (nas regiões norte, nordeste e centro-oeste) a figura do "coronel que, apesar de não ter ligação alguma com a patente militar, recebia essa alcunha por ser o "dono de sua terra e de tudo o que nela havia".

Embora seja difícil encontrar um indivíduo que ainda se deixe chamar dessa forma, permanece enraizada no povo a cultura de "quem é que manda no pedaço". Por séculos e séculos de opressão violenta, as camadas não-elite se acostumaram a seguir as regras ditadas por esses coronéis. E isso se reflete em diferentes aspectos da sociedade e, consequentemente, no caso de que estamos tratando: a culinária.

No norte de Portugal, o coentro praticamente inexiste. E justamente esses portugueses do Norte aportaram em maior quantidade a partir do século XIX no Rio de Janeiro, local onde a culinária portuguesa é altamente influenciada por esse povo e não se usa essa erva na culinária.

No entanto, o coentro faz parte da culinária portuguesa da região Alentejana e do sul do país. Marcos de Noronha e Brito, o último vice-rei do Brasil (de 1806 a 1808), era lisboeta (sul de Portugal), e com a transferência da sede da monarquia para o Brasil e chegada da família real, tornou-se governador da Bahia. E sabe a cidade de Camamu, mencionada no quinto parágrafo? Pois é, o Visconde de Camamu, José Egídio Veloso Gordilho de Barbuda, governador da Bahia de 1827 a 1830, era alentejano... Coincidência? Pode ser, ou não!

Enfim, é só uma teoria, pode ser que seja estapafúrdia, e este é um tema que não se esgota em poucas linhas. Há muitos outros aspectos do coronelismo que podem ser associados a diversos comportamentos da sociedade. Creio que esse pode ser um deles. Um dia desses se fala sobre outros.


Astria Dias Ferrão Gonzales

Mãe de três filhos. Doutora em Bioquímica. Professora e pesquisadora. Geminiana. Curiosa de nascença. E até o fim pesquisando..
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