curiosidade mãe das descobertas

Muitas ideias, perguntas sobre tudo e algumas respostas

Astria Dias Ferrão Gonzales

Mãe de três filhos. Doutora em Bioquímica. Professora e pesquisadora. Geminiana. Curiosa de nascença. E até o fim pesquisando.

Nosso Senhor do Bonfim e a devota

Divagações sobre como uma igreja cheia de misticismos fez todo um povo devoto e firme de resoluções, e de como eu me aferrei a isso para começar a vida em uma terra que não era originalmente minha e que passou a ser também.


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Desde que me mudei para Salvador, Bahia, tive muita curiosidade de conhecer a tão famosa e propalada Igreja do Nosso Senhor do Bonfim. É uma das maiores atrações turísticas dessa cidade, e atrai mais de 100 mil turistas todo o ano para o estado. Eu já tinha visto fotos, filmagens da festa da Lavagem do Bonfim, já sabia que a tal "escadaria" não passava de meia dúzia de degrauzinhos mixurucas na frente da Igreja, e por ser uma atração, no mínimo tinha que ir até lá conhecer.

No segundo dia em que coloquei os pés nessa terra, tive o meu primeiro contato com aquilo que o Brasil e o mundo conhecem por Salvador: o Pelourinho. Uma delícia arquitetônica, tão característica de nosso período colonial, e que eu e tantos outros adoram.

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Esse lugar encantador foi que me fez saber que era aqui que eu queria morar. Então, faltava conhecer o outro objeto de encanto dessa terra, e lá fomos nós uns dias depois conhecer a famosa igreja.

O que me intrigava era o porque, de no meio de 365 igrejas (segundo a lenda, o próprio portal turístico na internet afirma que são SÓ 362...), essa era diferente ou especial. E não era pelo fato de que era histórica, nem por ser a mais antiga, pois foi fundada em 1772, e há outras bem mais "idosas", tais como a lindíssima, e nem tão badalada assim, Igreja Basílica de Nossa Conceição da Praia, fundada em 1549, uma das primeiras do Brasil.

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E a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, de 1685, que se localiza já no charmoso e colorido Pelourinho, e que é palco de grandes festas religiosas populares.

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Bem, é difícil explicar a magia. Só indo lá, só tendo sensibilidade para reconhecer a aura que envolve esse lugar. Pra começar, no meu caso, vale muito ter sido filha de uma mãe jovem nos anos 1960/70, que amava Caetano, outro ícone baiano, e a Tropicália.

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A Tropicália foi um movimento cultural, não somente um disco, estampado acima, nem uma banda, criado por vários artistas baianos. Também conhecido pro Tropicalismo, foi uma tentativa artística de resgatar as origens culturais brasileiras, no final da década de 1960, com um forte cunho político, anti-ditadura militar, que era estabelecida no país desde 1964. O disco "Tropicália", lançado em em 1968, foi o que reuniu diversos artistas (que isoladamente vinham fazendo seus trabalhos dentro desse contexto político-cultural) e teve um pout-pourri de clássicos brasileiros e novas canções. E nesse compêndio, estava lá o "Hino ao Senhor do Bonfim", gravado lindamente pelo senhor Veloso. A música e a letra podem ser conferidos aqui nesse link (http://www.youtube.com/watch?v=uWxUk8N2WXE&feature=kp), postado pelo internauta Marcelo Vitor, no Youtube.

Veja como a coisa ocorre: em Salvador, a maioria dos bairros é perto da praia. Então, o cheiro de mar está presente em toda parte. É também uma das cidades mais ensolaradas do país (apesar de chover bastante no período entre abril e agosto). Há muitas ladeiras por toda parte. Você vem num carro, com a cidade iluminada pelo sol, colorindo tudo, vira à esquerda, à direita, à esquerda de novo, passa por uma instituição de outro ícone, As Obras Sociais Irmã Dulce, e, de repente, está numa rua que tem um Colégio da PM muito antigo e bonito e lá no fim, no alto, você a vê. Entre coqueiros majestosos, você vai indo em direção a ela, a Igreja do Bonfim e, na minha cabeça, sempre, começa a tocar: "Nessa sagrada colina, mansão da misericórdia, dai-nos a graça divina da justiça e da concórdia!". O vento marinho sopra em seu rosto, e os pelos do corpo arrepiam antes mesmo de você subir a sagrada colina.

Finalmente, você chega a ela.

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É linda. E você nem consegue explicar nem o porque de ser tão linda. Como se diz por aqui, é pura energia, é pura emoção. Não dá para descrever. Só indo lá.

Virei devota na hora. Amarrei minha fitinha, entrei, chorei, fiz meus pedidos e saí convicta de que Senhor do Bonfim me trouxe até aqui, e a ele dedicarei toda a minha vida, para fazer de sua terra, minha terra, como todo o amor e a dedicação que ela merece ter.

Crendice? Misticismo? Sugestionamento? Qual é a magia? Não sei dizer. Mas o sentimento é muito bom, e me faz feliz aqui. E tenho dito.


Astria Dias Ferrão Gonzales

Mãe de três filhos. Doutora em Bioquímica. Professora e pesquisadora. Geminiana. Curiosa de nascença. E até o fim pesquisando..
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