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Victor Toscano

Escritor, músico e professor, Victor Toscano acredita que a arte pode fazer muita diferença para deixar a vida um pouquinho mais interessante.

Afinal, o que é humor britânico?

O que diferencia o humor britânico dos demais? Não só a sutileza e sofisticação da linguagem, mas também uma tradição muito forte da polidez misturada ao sarcasmo. Tudo isso entregue de maneira muito seca. Saiba um pouco mais sobre o que faz do humor britânico tão singular no mundo todo.


british_humour.jpg John Cleese num momento de ira em Falwty Towers.

Com certeza você já ouviu alguém por aí dizendo: “Ah, é um humor bem britânico!” para descrever uma série, filme ou mesmo uma pessoa. Mas você já parou para pensar em que consiste o humor britânico? O que o faz diferente do americano, do francês ou do brasileiro? Humor é decorrência de cultura, tradição, e um dos melhores traços através do qual se conhecer um povo. Os ingleses possuem uma longa tradição da sátira de costumes. Como são indivíduos conhecidos mundialmente por expressarem pouca emoção em seu cotidiano, e serem por vezes desnecessariamente polidos, essa é ótima matéria prima para comédia.

Embora a comédia britânica possua uma paleta muito ampla de intenções e temáticas (como o humor negro, absurdo, humor de classes etc.), vamos nos concentrar no âmbito pelo qual ela é mais conhecida ao redor do mundo. Tudo aquilo que não é falado normalmente por educação, é explorado na sua comédia de maneira muito seca. O sarcasmo tem sua origem na Inglaterra, e é uma forma de humor que veste como uma luva a cultura britânica. A piada, a fala jocosa é sempre apresentada de maneira fria, aparentemente despida de espirituosidade. O que nos faz rir é justamente o momento de quebra dos hábitos de polidez.

league.jpg O grupo cômico The League of Gentlemen brinca com o humor macabro em seu sketch Local Shop.

O que destaca o humor britânico dos outros basicamente é a forma como a piada é apresentada e a maneira como seus personagens são explorados. Nesse caso a palavra “explorados” se aplica muito bem, já que os sketches (cenas, quadros) geralmente se baseiam na humilhação, no constrangimento do personagem principal, em sua falta de habilidade para lidar com as tarefas mais básicas da vida.

Quando perguntando num programa de TV sobre a fundamental diferença entre o humor norte americano e o britânico, o escritor e comediante inglês Stephen Fry respondeu que um comediante americano prefere interpretar um cara esperto e espirituoso, que consegue articular diversas indiretas inteligentes e engraçadas e que consegue se livrar de qualquer situação complicada. Já um comediante inglês prefere interpretar um pobre infeliz sobre quem todos os problemas do mundo desabam de maneira torrencial e que não consegue por nada fazer com que as coisas sejam do seu jeito.

Uma espécie de arquétipo perfeito do personagem de comédia britânica é o Basil Fawlty, interpretado por John Cleese, na série de TV que foi ao ar no final dos anos 1970 Fawlty Towers. E pode acreditar, há poucas séries por aí que vão te deixar rolando e socando as paredes de tanto gargalhar.

Basil Fawlty é um sujeito avarento, mesquinho, dado a explosões de raiva, rabugento, esnobe, ranheta, e ainda assim você não tem outra escolha senão adorá-lo. Na época, a série se mostrou revolucionária justamente por apostar no formato tradicional, e já gasto, da sitcom enquanto outros grupos de comédia tentavam alcançar campos não explorados do experimentalismo, iniciado pelo Monty Python, grupo de comédia que também contou com a participação de John Cleese.

No final da década de 1960, o grupo Monty Python começou a introduzir na comédia um tom surrealista pouco utilizado antes. O estilo conhecido por non sequitur também se caracteriza por temática boba e aparentemente sem sentido, pela qual a comédia britânica é amplamente conhecida.

Alguns outros exemplos de séries britânicas são The League of Gentlemen, em que o humor negro, macabro é explorado por um trio talentosíssimo de comediantes. The Office e Extras, duas séries que contam com a participação e liderança de Ricky Gervais, expert no humor do constrangimento. Black Books, liderada pelo irlandês hilário Dylan Moran, em que ele encontra mil e uma maneiras de insultar os clientes que vão a sua livraria. A Bit of Fry & Laurie, série de sketches que apostava muito em seus textos encabeçada por Hugh Laurie (o futuro Dr. House) e Stephen Fry. Procure por essas séries e comece a perceber um pouco mais das sutilezas da comédia britânica.

ricky.jpg Ricky Gervais em The Office


Victor Toscano

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