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Artigos inconstantes sobre arte, literatura, música, comédia e a sua vida.

Victor Toscano

Escritor, músico e professor, Victor Toscano acredita que a arte pode fazer muita diferença para deixar a vida um pouquinho mais interessante.

Eles vivem: ensaio curto sobre a gentileza

A gentileza espontânea é das coisas mais difíceis de se incluir no nosso cotidiano. O exercício de empatia pelo qual vez em quando a gentileza é alcançada é coisa que deve ser buscada constantemente.


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Os humanos, eles vivem. Respiram e olham para as coisas como eu olho. Mas não são tão arrogantes como eu sou, não parecem ser. Detenho um tipo arrogância tão intolerável que por vezes inspiro em mim mesmo repulsa e preciso tomar um banho demorado, como se esse gesto simbólico raspasse de minha pele esse peso desnecessário. E depois de um longo banho e peso demovido eu tenho vontade de abraçar estranhos pela rua e contar a eles sobre as boas primeiras impressões que me causam.

Esse senhor que entrou no elevador. Quero abraçá-lo e contar a ele que o tipo de alpercata que usa quase leva-me às lágrimas, mas não posso explicar o porquê. Quero dizer-lhe que tudo nele me dá vontade de chorar. Não o faço. E me é muito compreensível que as pessoas não olhem para os mendigos, ou que respondam educadamente quando lhe pedem dinheiro dizendo que não têm dinheiro para dar. É claro, porque não há forma de você olhar para um mendigo, olhar de verdade. Não existe nenhuma possibilidade de você olhar para uma criança que está sentada na calçada a pedir esmolas, uma criança igual à sua prima pequena linda com quem você prepara tortas e bolo de caneca; não há nenhuma possibilidade de você imaginar a sua prima perdida na rua sendo ignorada por todo mundo, sendo demolida emocional e psicologicamente sem que você passe o dia inteiro chorando ou a leve para morar na sua casa.

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Eu quero levá-la ao zoológico, quero mostrar-lhe a girafa porque eu sei que ela vai amar ver a girafa e vou dar-lhe algodão doce, quero escutar suas impressões sobre o elefante e será que ela conhece o sem-número de espécies de peixes que existem? Mas aí você precisa conversar com ela, porque ela precisa de alguém que converse com ela, ela precisa ser ensinada a se importar com as coisas porque ela precisou criar uma casca muito grossa para lidar com o mundo da mesma forma que você criou uma casa muito grossa de arrogância para lidar com o mundo. E você começa a perceber que andar por aí sem a sua arrogância é uma coisa muito perigosa porque você quer abraçar todo mundo e alimentar todas as crianças e se comover com todas as religiões. E, de repente, da mesma forma que eu penso que não tenho tempo suficiente na vida para ler todos os livros que eu quero, percebo que não há tempo suficiente para tentar fazer felizes todas as pessoas que merecem ser feliz.

Mas eles vivem, eles respiram e se alimentam como eu. Os humanos. Passeiam porque passear é a coisa mais civilizada que você pode fazer em toda a sua vida. Eles passeiam e eu consigo notar que alguns deles sentem um amor tão intenso pelo passeio que fazem e pelos humanos que o rodeiam, que você começa a chorar outra vez e descobre que é preciso se importar com as coisas.

Você precisa se importar com alguma coisa do mesmo jeito que a velha senhora no telejornal se importa com o fato de desfilar na Estação Primeira da Mangueira pela trigésima vez consecutiva. Ela tem o rosto radiante, seus olhos brilham. E é muito fácil ironizar a sua emoção, por ser ela tão verdadeira, por estar ela tão exposta ao mundo, tão irremediavelmente escancarada e transformada pelo amor que sente pela sua própria vida. É comovente demais para suportar se você houver se desfeito de sua casca. E você sabe que, se conseguir se importar com alguma coisa da forma como ela o consegue, sua vida será uma fonte inesgotável de alegria.

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Mas minha nossa! Com que direito eu profetizo e falo sobre o que é a vida, numa mistura leviana de existencialismo e objetivismo e procuro fazer raciocinar quem já tem um sistema de fé muito forte, uma fé aliás que lhe torna a vida mais bonita? Porque você precisa de fé, você precisa acreditar que as coisas vão melhorar para continuar vivendo, você precisa acreditar que as pessoas que você ama estão e estarão felizes a despeito de você, você precisa acreditar que tenta fazer o melhor pelas pessoas que ama e pelas pessoas que aparecem na sua frente de vez em quando.

Você precisa se desfazer da casca sempre que possível e se desculpar com as pessoas por ser tão egoísta, egoísta ao ponto de machucá-los, eles, os humanos, só com a sua existência, com a sua respiração. Você precisa se desfazer da casca para perceber que de vez em quando somente a maneira como um raio de sol atravessa o vidro da janela e revela uma poeira flutuante a sua frente, ao mesmo tempo iluminando os olhos baços acinzentados do seu cachorro, pode fazer você chorar por uma hora inteira. E que isso é bom. E você precisa, você precisa, você precisa sempre se lembrar de que eles vivem.


Victor Toscano

Escritor, músico e professor, Victor Toscano acredita que a arte pode fazer muita diferença para deixar a vida um pouquinho mais interessante..
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