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Artigos inconstantes sobre arte, literatura, música, comédia e a sua vida.

Victor Toscano

Escritor, músico e professor, Victor Toscano acredita que a arte pode fazer muita diferença para deixar a vida um pouquinho mais interessante.

A importância da dificuldade na arte

A arte não precisa necessariamente ser bela ou emocionar. Também não é verdade que ela deva ser entendida de primeira, num expediente espontâneo. Na maioria das vezes, a grande arte pede um esforço para que comece a operar mudanças dentro de quem a percebe.


art2.jpgJackson Pollock fugiu do formalismo e gerou grande debate sobre significado artístico.

É comum que as pessoas não gostem de ler, e ainda mais comum que se envergonhem disso. Não deviam. Ler é uma coisa complicada mesmo, difícil. Exige que você fique sozinho, quieto, no silêncio. Exige tempo, muito tempo, em que você poderia estar fazendo outras coisas. O hábito de ler depende muito de temperamento também, e é natural que seja mais agradável para algumas pessoas do que para outras.

Não acredito particularmente que campanhas nacionais de incentivo à leitura tenham um grande impacto transformador na realidade, mas podem, sim, ser eficientes para acordar as pessoas que já gostam de ler e ainda não o sabem. Assim foi e assim sempre será. Tudo que é mais difícil é menos feito.

A importância da dificuldade na apreciação da arte é que o resultado compensa qualquer esforço. Converso com as pessoas, olho para os lados, procuro saber e sempre tenho a mesma impressão: a arte não tem relevância na vida das pessoas com quem convivo. Mas por quê? A arte parece um fantasminha que aí está para humilhar quem não a entende. Um fantasminha sorrateiro que se esconde nos cantos do museu e dá risada quando você olha para o rosa e o azul do Renoir dizendo baixinho com emoção afetada: “Que bonito!”.

art1.jpgUlysses, escrito por James Joyce, é um livro amplamente chamado de "difícil".

As coisas mais legais que você tem ou é em sua vida hoje foram conquistadas com muito esforço. Os lugares a que você chegou, as pessoas com quem se relaciona etc. Faça uma ponte entre a dificuldade e o prazer, esse é o grande segredo. Não colecione argumentos corrosivos, como “o meu trabalho já é estressante demais, quando chego em casa quero relaxar”. Você pode relaxar lendo Eliot ou Yeats, talvez bem mais do que assistindo a The Walking Dead. Aí, você me diz que escuta Mozart e que é ótimo para relaxar. Mas que tal escutar Penderecki? Escute Penderecki quando você estiver no seu pior e investigue seus sentimentos, entregue-se por um tempo à dificuldade de uma composição atonal e se pergunte por que diabos existe o Penderecki.

Comece aos poucos. No âmbito da música pop, escute St. Vincent. Leia um pouco de Evelyn Waugh. Insira um pouco mais de diligência sempre que pensar no assunto arte. Passe uma tarde inteira no Museu de Arte de São Paulo, o Masp. Passe mais de quatro horas lá (e tente evitar os Renoir, só por uma tarde). Leia outra vez aquele Machado de Assis que você detestava. Procure saber por que razão, afinal de contas, grandes obras são consideradas grandes obras. Leia textos de gente que já dedicou mais tempo à arte do que você. Um pouco de John Cage. Quem sabe até um Shakespeare na íntegra?

art3.jpgPenderecki, compositor de obras como Polymorphia, em momento inspirado.

Sempre que descobrir algo novo e que te tocou de alguma forma, fale para alguém. Diga do que se trata, diga que você não entende mas que aquilo te atrai de alguma forma. Envolva os outros, para que eles também iniciem um caminho sem volta. Procure mais, e mais, e depois mais. Logo você saberá separar rapidamente o que merece sua atenção do que não merece. Você descobrirá também que a arte te dará todo o resto, história, matemática, filosofia, geografia etc. A diferença é que dessa vez você entenderá.

Esqueça aquela exposição do Vik Muniz. Arremesse para longe os Cinquenta Tons de Cinza. Dê um stop vitalício no Coldplay. E na próxima vez em que você for fazer um esquenta pré-balada, reúna os amigos em casa para escutar Penderecki. É verdade que vocês vão perder completamente a vontade de sair, mas talvez algo mais interessante aconteça.


Victor Toscano

Escritor, músico e professor, Victor Toscano acredita que a arte pode fazer muita diferença para deixar a vida um pouquinho mais interessante..
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