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Artigos inconstantes sobre arte, literatura, música, comédia e a sua vida.

Victor Toscano

Escritor, músico e professor, Victor Toscano acredita que a arte pode fazer muita diferença para deixar a vida um pouquinho mais interessante.

Salinger: uma vida

O célebre autor de "O Apanhador no Campo de Centeio" é biografado detalhadamente no livro "Salinger: uma vida". Descubra a biografia para além dos clichês de reclusão que ronda o escritor.


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As pessoas gostam de mitos. Parecem preferir saber mais sobre a vida do artista (coisas banais como hábitos alimentares e romances secretos) do que de sua obra. Nessa cultura personalista, J. D. Salinger acaba sendo lembrado como aquele escritor recluso que vivia na fazenda de Cornish, New Hampshire, escondido do mundo. Pouca gente leu uma linha que fosse sobre a família Glass, ou mesmo do Apanhador, mas enchem a boca para chamar seu autor de excêntrico e outros clichês facilmente encontrados em artigos comemorativos.

Leia qualquer texto recente publicado sobre ele e veja como as palavras excentricidade e misantropia se revezam no campo lexical do pobre jornalista que precisou correr ao Google para descobrir de quem está falando. Não é difícil imaginar o velho Salinger ressentido com aquele povo estranho, rostos perplexos e arrogantes de universitários, que aparecia em sua fazenda, que interpelava os locais em busca de informações, que emporcalhava a entrada de sua casa com lixo de fast-food. Não é difícil imaginar como o já restrito contato com um mundo cada vez menos espiritualizado tornava mais fácil sua decisão de “ausentar-se” dele.

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O livro Uma Vida, de Kenneth Slawenski, mostra que, mesmo em sua reclusão e busca renitente pela sabedoria vedântica, Salinger não deixou de produzir até o fim de sua vida. Manteve um ritual e ritmo de trabalho impressionantes – e quem pode adivinhar quantas obras ainda não estão por ser reveladas? Se ele optou, a partir de determinada época, por não mais publicar em vida ou falar publicamente sobre o seu trabalho, isso tem menos a ver com misantropia e mais a ver com busca artística. Esse movimento de carreira era difícil de se entender no início dos anos 1960 – já estabelecida a indústria da celebridade – e é ainda mais difícil de se entender hoje em dia.

J. D. Salinger gostava de brincar com seus filhos e de trabalhar em paz na casinha anexa que construíra em sua propriedade. Gostava de sua comunidade e passou a ser bastante querido pelos locais, ao comprar terrenos no vilarejo e impedir que construtoras os usassem para erguer estacionamentos e centros comerciais que não interessavam a nenhum morador. Não procurou deliberadamente afastar-se da vida pública, mas depois de enganado por oportunistas em alguns golpes baratos, decidiu parar de tentar o diálogo. Tornou-se grande protetor da própria obra, com medo que esta tivesse seus méritos distorcidos em adaptações para cinema ou plágios e, já no fim da vida, se ele deixava sua propriedade em Cornish era para comparecer em tribunais em nome do que acreditava correto.

Depois de sua morte, em 2010, seus admiradores ficaram por alguns dias em alerta. Queriam saber se havia planos de que a família do autor publicaria algum de seus arquivos inéditos. Nada foi, até hoje, anunciado nesse sentido, o que sugere que vão fazer a vontade final do escritor. No entanto, há material escrito nunca publicado que faz parte do acervo da Universidade de Princeton, New Jersey, que é pouco ou nada conhecido do público. O maior feito da biografia Uma Vida é trazer à luz esses contos, procurando detalhar personagens e tramas.

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O autor Kenneth Slawenski passou muitas tardes na Universidade de Princeton (já que não é possível retirar os trabalhos, mas apenas lê-los durante visitas previamente marcadas). Tanto ele leu as obras, que começou a transcrevê-las por inteiro em seus cadernos a fim de fazer anotações para a biografia. Algumas dessas histórias podem ser encontradas, no original em inglês, pela internet. Sim, Salinger torceria o nariz para essas “cópias piratas”, mas elas são documentos interessantes que denotam caminhos em sua literatura. Por exemplo, a saga de Holden Caulfield em contos separados que mais tarde se tornariam o Apanhador. Ou mesmo as histórias sobre Vincent Caulfield, irmão mais velho, cujo desenvolvimento lembra um Seymour Glass da família Caulfield.

Salinger sempre se preocupou com o que percebia como sendo verdadeiro e repudiou o falso; nos presenteava com personagens por vezes muito irritados com a natureza falsa das pessoas e por outras vezes sensíveis demais para suportá-la. E se vamos nos questionar sobre o autor, podemos apenas pensar que ele era um pouco dessas duas coisas. O resto está no texto.

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Victor Toscano

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