cut me open

Artigos inconstantes sobre arte, literatura, música, comédia e a sua vida.

Victor Toscano

Escritor, músico e professor, Victor Toscano acredita que a arte pode fazer muita diferença para deixar a vida um pouquinho mais interessante.

Sobre arte japonesa e o tempo


netsuke3.jpg

Os japoneses possuem uma apropriação particular do tempo, da coisa tempo. Reflete-se em sua arte. Pense nos netsuquês, por exemplo. São pecinhas esculpidas com muito afinco em materiais como madeira, madrepérola, mármore etc. Para fazer uma delas, o escultor deve se lançar numa atividade solitária e duradoura. Alguns netsuquês podem levar anos até que estejam terminados. Isso já fala bastante de como eles encaram o tempo, como fosse algo líquido ou coisa na qual não se deve prestar atenção. Veem o tempo como se o tempo não devesse ser visto.

No livro de Edmund de Waal, A Lebre com Olhos de Âmbar, o autor fala de um escultor japonês que trabalhava em seus netsuquês no alpendre de sua casa. Um dia é abordado por um colecionador de arte japonesa que lhe pergunta por quanto venderia o netsuquê em que trabalha quando estiver terminado. O escultor ri e responde que, se fizesse isso, levaria dezoito meses para fazer um outro. O artista fazia as peças para si mesmo, o que sugere um desprendimento difícil de ser compreendido por um ocidental. E o que me sugere que os japoneses entendem há bastante tempo que disciplina e esquecimento do tempo são elementos essenciais para uma vida feliz.

netsuke1.jpg

Sinto um amor indomável por essas peças. Agora pense no conceito de beleza, na temática da arte japonesa. Os netsuquês não raro procuram representar cenas, momentos comuns, mesmo prosaicos de algum cotidiano. Uma moça que se banha numa tina de madeira, e sorri ruborizando – talvez alguém passe na sua frente. Uma vespa no vespeiro, o vespeiro em um galho quebrado. Um casal fazendo amor. Uma mulher nua. Uma mulher envolta num polvo.

netsuke2.jpg

As imagens não são mais profundas do que o próprio momento em que acontecem, aquele momento cuja representação pode tomar anos. O caminho parece completamente inverso do que tudo que você pode imaginar quando enfia a cabeça para fora da janela e dá uma boa olhada no mundo. Eu me pego perguntando onde estão os grandes temas da vida. Onde está o temor e a tragédia? Não há um Rembrandt na arte japonesa? Não obstante o questionamento eu quero essa diligência para mim. Porque os japoneses colocam a sua felicidade em sua arte. Eles colocam anos e anos na moça nua se banhando na tina de madeira. Sabem de sua insignificância e sabem do grande mistério da vida que pode acontecer nas cenas que tanto gostam de representar. Eles me respondem que os grandes temas já estão ali, é sé olhar.


Victor Toscano

Escritor, músico e professor, Victor Toscano acredita que a arte pode fazer muita diferença para deixar a vida um pouquinho mais interessante..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/Artes visuais// @destaque, @obvious //Victor Toscano