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Artigos inconstantes sobre arte, literatura, música, comédia e a sua vida.

Victor Toscano

Escritor, músico e professor, Victor Toscano acredita que a arte pode fazer muita diferença para deixar a vida um pouquinho mais interessante.

A história eterna: resenha sobre livro de Cristovão Tezza

O livro O Filho Eterno de Cristovão Tezza é um belo composto entre reflexão artística e romance de formação. Entenda por que este foi um dos livros brasileiros mais premiados da história recente da literatura.


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Um livro extensamente premiado no ano de 2008, O Filho Eterno de Cristovão Tezza conta a história de como um pai recebe a notícia de que seu filho possui Síndrome de Down e de como procura se adaptar a essa nova realidade por meio de uma ampla redenção autobiográfica. Baseado nos fatos da vida real do autor, o livro foi um grande desafio, porque um assunto no qual Cristovão não tocou por mais de vinte anos em sua literatura.

Ele considerava o assunto, até então, próximo demais, pessoal demais. Quando decidiu abordar finalmente o tema, encontrou obstáculos de ordem estilística e conceitual. Pensou escrever a obra em forma de ensaio. Mas foi ao ler um romance autobiográfico do escritor sulafricano J. M. Coetzee que Tezza encontrou o trunfo de que precisava para definir a voz do seu romance. Ao usar a terceira pessoa, conseguiu um distanciamento saudável do personagem do pai e alcançou o tom que queria da voz narrativa. O estado emocional em que o pai mergulha ao receber a notícia da síndrome de seu filho está bem pontuado neste trecho:

“Ele recusava-se a ir adiante na linha do tempo; lutava por permanecer no segundo anterior à revelação, como um boi cabeceando no espaço estreito da fila do matadouro; recusava-se mesmo a olhar para a cama, onde todos se concentravam num silêncio bruto, o pasmo de uma maldição inesperada. Isso é pior do que qualquer outra coisa, ele concluiu – nem a morte teria esse poder de me destruir. A morte são sete dias de luto, e a vida continua. Agora, não. Isso não terá fim. Recuou dois, três passos, até esbarrar no sofá vermelho e olhar para a janela, para o outro lado, para cima, negando-se, bovino, a ver e a ouvir. Não era um choro de comoção que se armava, mas alguma coisa misturada a uma espécie furiosa de ódio.”

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Além do tema central, somos levados por meio do monólogo interior do pai a questões importantes sobre a formação de um escritor, um pouco de suas motivações sobre o ato de escrever – essa breve incursão levaria o autor a escrever um ensaio sobre a prosa romanesca em que ele traz para o centro da discussão uma questão ainda não respondida: o que leva uma pessoa a escrever?

A crítica foi na maioria bastante elogiosa ao livro, sendo apontado por vezes como uma falta o peso autobiográfico do romance, o que fez com que alguns críticos pensassem que ali não havia um romance mas um ensaio que não conseguiu sobrepôr-se ao material autobiográfico. De fato as obras literárias mencionadas ao longo do livro, escritas pelo personagem do pai, são as do próprio Cristovão Tezza e compõem um pequeno mosaico que procura nos situar em que momento de sua busca artística está aquele pai. O tema da meditação artística, do porquê criador, é abordado de maneira sensível e faz paralelo com a criação genética, a do seu próprio filho – um dos achados que achei mais interessantes do livro.

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O Filho Eterno é um bonito caminho adentro de nossa humanidade e suas sombras (já que ser humano também significa ser capaz de fantasiar verdadeiras atrocidades). Pode ser vista como a história quase eterna sobre resignar-se com uma limitação da vida para se ganhar muito mais dela.


Victor Toscano

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